Rocky: Um Lutador (1976) em cada um de nós

Você já ouviu falar de “Rocky: Um Lutador”.

O filme que deu a Sylvester Stallone o prêmio mais cobiçado da indústria cinematográfica. Uma curiosidade é que Stallone foi indicado não só para o prêmio de melhor ator como também de melhor roteiro, situação que se repetiu apenas outras duas vezes na história do Oscar: com Charlie Chaplin por “O Ditador” e com Orson Welles por “Cidadão Kane“. Dito isso, caso você ainda não tenha assistido “Rocky”, fica claro que não se trata de um filme qualquer.

Rocky: um nome

O filme conta a história de um pugilista amador italo-americano que trabalha recolhendo o dinheiro de devedores da máfia nas horas vagas… Ou o contrário. Rocky é selecionado para enfrentar Apolo Creed (Carl Weathers), o campeão mundial dos pesos-pesados, numa disputa pelo título da categoria.

Apesar de disputar o título, Rocky não foi recompensado com essa chance por ter uma carreira vitoriosa no esporte, mas pelo seu apelido de lutador: O Garanhão Italiano. Apolo Creed procurava por um nome impactante, um nome que chamasse atenção do público, que gerasse publicidade sobre a luta e encontrou em Rocky essa alcunha marcante.

Particularmente, sempre me pareceu um tanto curiosa a escolha de Rocky pelo apelido. Em inglês, “The Italian Stallion”, é compreensível pela sonoridade, mas quando você para e pensa que “garanhão” é o nome que se dá ao cavalo reprodutor… Bom, é um tanto esquisito. É comum que lutadores gostem de ser apelidados com nomes de animais ou adjetivos impactantes para salientar uma habilidade ou característica marcial, como Aranha, Dragão, Cobra, ou Morsa Subnutrida. Mas “Garanhão” salienta uma característica muito específica que eu não tenho certeza de o quanto pode ter relação com uma luta.

De qualquer maneira, isso atiçou a minha curiosidade. “Rocky” foi o primeiro grande filme de Stallone. Antes disso ele havia feito participações em séries e filmes pequenos e protagonizado longas igualmente (ir)relevantes. Em especial, um filme chamado “The Party at Kitty and Stud’s”, um soft porn, que anos depois seria renomeado “Italian Stallion” devido ao sucesso de “Rocky”. Me parece um destino apropriado para o apelido.

Spoilers a seguir.

O tema

“Rocky” apresenta uma história bem simples. Não existe uma grande surpresa na trama. Então o que faz do filme tão diferente? Como eu disse no início, “Rocky” não é um filme qualquer.

Nas primeiras vezes que assisti, imaginei que o tema do filme fosse “superação” ou “redenção” ou algo do tipo, e talvez seja, mas notei uma característica comum em várias personagens que, de certa maneira, define os rumos da trama. “Rocky – Um Lutador” é uma busca por identidade.

rocky

Você acompanha um Rocky capanga cobrando empréstimos para um mafioso, ao passo que ele também é um pugilista desconhecido fazendo o que gosta. Note que, apesar do trabalho alternativo e do esporte violento, Rocky não é um valentão. Pelo contrário, ele segue o esterótipo do grandalhão bondoso e tem o impulso natural de cuidar das pessoas.

Adrian, par romântico de Rocky, e Paulie, irmão de Adrian, são lados opostos em quase qualquer espectro. Adrian (Talia Shire) é tímida, introvertida e submissa, o Paulie (Burt Young) é um beberrão estressado e arrogante. Os dois são infelizes dentro de suas próprias realidades.  De fato, Adrian retrata uma figura de mulher hoje defasada, sem voz ativa nem liberdade de decisão. Seu relacionamento com Rocky também se inicia com “ajuda” do jeito truculento do irmão.

Paulie, por outro lado, é infeliz porque não consegue se livrar do trabalho em um frigorífico. Durante boa parte do filme, ele pede que Rocky fale dele para Gazzo, o mafioso para quem Rocky trabalha. É interessante notar que o trabalho à margem da lei parece oferecer mais prestígio do que um trabalho honesto. Já Apolo é o figurão. Famoso, rico e de personalidade empreendedora, o campeão vê em Rocky uma oportunidade milionária. Um amador da Filadélfia contra o campeão do mundo. A oportunidade de ouro na terra das oportunidades. Um evento lucrativo e uma luta fácil aos olhos de Apolo.

O que esses personagens tem em comum é a necessidade de se provar e, mesmo sem querer, Rocky se torna a pedra fundamental dessa mudança. Seja como uma ferramenta de marketing, um meio para ascensão social ou alguém especial que enxerga o que os outros não veem.

É significativo que, pouco antes do evento, Rocky sinta que não conseguirá vencer. A partir desse sentimento prévio de derrota ele percebe que esse combate tem um valor maior: ele não precisa vencer a luta, ele precisa provar para si mesmo que não é apenas um fracassado escolhido ao acaso, que é mais do que um capanga, que dentro dele não existe só o potencial de grandeza, mas algo concreto.

rocky versus creed

Mais do que uma história de superação, o filme mostra que são as coisas simples que constroem a felicidade. Não é sobre vitórias ou derrotas, nem sobre análises externas que definem o que as pessoas são. Entre jabs, ganchos e cruzados, com uma trama sem muitos floreios, “Rocky” dialoga com cada espectador por representar o desejo de sentir que vale a pena lutar mesmo que você não se torne o campeão do mundo. Que embora seja impossível que todos sejam vencedores, em cada pessoa existe um lutador.

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Leandro Bezerra

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