Rock in Rio 2017: o evento e o histórico show do The Who

Muito foi dito e feito no Rock in Rio 2017. Tivemos Justin Timberlake, Red Hot Chilli Peppers, não tivemos Lady Gaga, tivemos Maroon 10, Aerosmith, Bon Jovi e companhia. Tão diversos foram os shows quanto o que foi dito sobre a estrutura do evento: foi dito que era impossível pegar Uber na região, que demorava-se trinta minutos andando da estação de BRT (ônibus expresso local) para conseguir chegar no local do evento, que havia filas intermináveis e uma multidão caótica.

Parte destes fatos são verdadeiros, e falaremos sobre isso ao longo deste texto, mas, no geral, você que não foi conseguirá entender melhor que o Rock in Rio não é esse bicho de sete cabeças – e, até o fim destas linhas, entenderá porque o The Who não fez um show, mas um marco memorável na história dos “Rock in Rios”, e talvez até na música brasileira. Este foi o Rock in Rio 2017.

rock in rio 2017

Rock in Rio 2017: O Evento

A primeira diferença drástica do evento se mostrou na mudança para o Parque Olímpico. Melhor localizado e com afluência mais prática de meios de transporte até o local, passar o Rock in Rio 2017 também ganhou em escala com a mudança. A cinco minutos (e não trinta) da estação do BRT e em um espaço consideravelmente mais distribuído, nosso primeiro contato com o Palco Mundo não era mais quando adentrávamos o festival; ele agora está longe, ao fundo. Além da melhor localização do Palco Sunset – aquele “dos encontros inusitados” -, as atrações relativas ao parque de diversões do evento – como a montanha-russa, a roda gigante e a tirolesa – foram espalhadas pelo evento.

Rock in Rio 2017
Palco Mundo.

A Rock Street Africa era uma atração à parte, com danças e música mais étnica povoando o palco principal dela. Paralelamente, a área dos YouTubers bombava com participações o dia todo. Além disso, as lojas também tinham suas atividades: em uma você tirava foto em um fundo verde para virar um salame (ou algo parecido), enquanto em outra você podia fingir tocar guitarra ou bateria, e noutra você encontrava um karaokê amigável para se divertir.

Contudo, o foco aqui está no verbo “encontrar”. É importante deixar claro que “encontrar” era a parte fácil. Conseguir participar destes eventos, nem tanto. Com filas monumentais, qualquer interesse precisaria ser bem intenso para se dispor ao sol e à brincadeira de estátua ao ar livre para conseguir aproveitar as atrações. Até a loja oficial do evento (com pessoas esperando no sol para gastar dinheiro em mercadoria do Rock in Rio 2017! O ser humano é fantástico, não?), a área dos restaurantes gourmet também demandavam paciência para que se conseguisse comer deles, e os banheiros (principalmente os femininos) quase precisaram de um palco para si, só para entreter o público que por muito tempo esperou para usá-los.

Rock in Rio 2017
Gourmet Square

Nem tudo são longos tédios, no entanto. Pondo o nome nas listas, era possível entrar nos brinquedos mais competidos do parque de diversão, e, se a questão era comer, eu nunca achei que diria isso, mas o Bob’s deu conta do recado. Com muitos estandes, vendedores ambulantes fazendo a venda pelo evento e atendimento rápido, o restaurante conseguiu suprir a uma demanda assustadora de pessoas que passaram tempo demais expostas ao sol.

Rock in Rio 2017
Uma das arenas da Game XP, uma área dedicada a jogos dentro do festival. Note o tamanho do telão comparado aos caras embaixo dele.

Foi deste fato, inclusive, que surgiu uma das maiores e mais recorrentes reclamações do festival: pessoas sentadas no chão. Espalhadas por todo o gramado e concreto, grupos sentavam-se em rodas, com ou sem cangas sob eles, para mexer no celular, bater papo ou tirar um bom cochilo. Muitos se enfureceram contra isso: dentre xingamentos gratuitos e ofensas fúteis, um homem chegou ao absurdo de se abaixar e gritar na cara de uma mulher sentada que se ela queria dormir, deveria ficar em casa. Quando o povo ao redor ameaçou reagir e expulsar o cara dali, ele deu o fora.

A discussão é estúpida em essência: é surreal querer que cerca de 300 mil pessoas passem um dia inteiro em um festival, no sol, pulando ou em pé ininterruptamente das 14hrs até às 2 da manhã, bem como é impossível condicionar todas elas sentadas em cadeiras no evento. Sentar e deitar-se nos gramados não só é uma tradição de festivais desde Monterrey e Woodstock e antes como é um “mal” necessário; o único porém era o “onde”. Aí, sim, pessoas perdiam um pouco da noção, às vezes sentando onde estavam em pé, sem se incomodar o quão impossível o trânsito se tornava pela presença delas.

Rock in Rio 2017
Woodstock.

Apesar dos agressivos e dos egoístas, o ambiente era consideravelmente misto. No dia 23, quando se apresentaram Titãs, Incubus, The Who e Guns N’Roses no Palco Mundo, o público tinha desde aposentados querendo ver a banda de suas adolescências até jovens querendo ver a banda de seu momento. Todos eram representados e, mesmo com os desconfortos inevitáveis oriundos de aglomerações de pessoas, todos pareciam dispostos a somente uma coisa: curtir música boa (e não “amar em quem está ao seu lado e confiar em alguém que está com você”, como disse um Toni Garrido… Empolgadíssimo no show do Cidade Negra, que cantou composições de Gilberto Gil).

E, dentre todas as bandas que foram bem sucedidas em graus diferentes, uma se destacou e certamente não decepcionou os que muito esperaram: direto da história e do presente do rock n’roll para os palcos do Rock in Rio, o The Who mostrou, no hoje, porque sempre foram peças fundamentais do rock mundial.

The Who: o show que nunca acabou

Dentre todos os grandes nomes do rock, colocando nesta categoria bandas como The Beatles, Rolling Stones e Pink Floyd, o The Who só perde em favoritismo, para mim, para o Led Zeppelin. Com uma energia explosiva (Keith Moon e suas baterias de forma bem literal, inclusive), uma técnica interessada em expandir os limites do gênero recém-criado e letras bem elaboradas, o The Who agraciou o globo com sua existência a partir de 1964, e conta com hits incríveis como “Baba O’Riley“, “Who Are You“, “You Better, You Bet” e similares, os quais ganharam o público em álbuns que apaixonaram a crítica. Mesmo assim, em 53 anos de existência, o The Who nunca havia se apresentado no Brasil.

Até o Rock in Rio 2017.

O show foi impressionante. Ancorados no vocalista, Roger Daltry, e no guitarrista e compositor principal da banda, Pete Townshend, a apresentação contou com os seus sucessos mais marcantes, como os citados acima, além da charmosa “The Kids Are Alright“, a apoteótica “Pinball Wizard“, e de canções do álbum “Quadrophenia“: foi um espetáculo completo.

Muito da energia apresentada advinha da voz inspirada de Daltry – a qual, ao contrário de Bon Jovi e Axl Rose, não mostra poucos sinais de cansaço -, com agudos e falsetes intocados, e do peculiar carisma britânico de Townshend. Com direito a dancinha, deslizadas no palco e saltos empolgados, o guitarrista de 72 anos demonstrava mais disposição do que eu, encantando a plateia com poder, riffs e sorrisos discretos. Dois dos grandes músicos da história.

Pete Towshend ao fim do show.

O Guns veio logo em seguida, dando o melhor de si em um show esforçado – foram quase 4 horas de apresentação em duas folhas de setlist. Ainda assim, Mick Jagger já havia cantado a bola muitos anos antes: “a pior decisão de sua carreira é entrar em um palco imediatamente depois do The Who”. Não é de hoje que esses britânicos conquistam os palcos onde põem seus pés, e, em meio ao Rock in Rio 2017 – maior, melhor, mesmo que pouco ousado -, Daltrey, Townshend e companhia foram capazes de mostrar que idade é um número abstrato que eles se recusam a respeitar. Por ora, eles vão continuar perguntando who are you?, enquanto a qualidade absoluta do show ecoa além do dia em que foi apresentado, tendo um fim hipotético num futuro muito distante.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.