Robocop (2014)

-O que é maior do que um heroi?

-Um heroi morto.”

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Filme: Robocop

Ano: 2014

Diretor: José Padilha

Pipocas: 6,5/10

Desde o momento que anunciaram o remake de Robocop (1987) de Paul Verhoeven, já se sabia que o desafio era imenso, e qualquer um que o aceitasse precisaria vencer uma série de dúvidas (justificáveis) em duas horas de filme. José Padilha, o criador de “Tropa de Elite”, 1 e 2, topou jogar contra todas as apostas. O resultado foi um filme que dança perigosamente na linha entre abraçar o legado do filme e forjar sua própria identidade, esforçando-se para ser bom apesar de inconsistente.

No longa, a mega corporação OCP vê que, para poder lucrar com a venda de robôs militares dentro dos Estados Unidos, precisará convencer a população americana de que as máquinas são mais úteis do que perigosas para a população em geral. Com esse propósito nasce o Robocop, um projeto que colocaria um humano dentro de uma máquina; o escolhido para este papel é o detetive Alex Murphy (Joel Kinnaman) que, após passar por circunstâncias drásticas, se vê um ser meio humano, meio robô (ou seja, um ciborgue) posto para patrulhar as ruas da cidade de Detroit.

Com pequenas alterações, essa é a trama tanto do filme original de 1987 quando do remake de 2014, dirigido por José Padilha. Com essa carga de similaridade – e com diversos pontos em paralelo distribuídos ao longo do filme -, não comparar os dois filmes torna-se uma missão praticamente impossível, e essa parece ser a sombra que cobre e esfria diversos trechos da película. Piorando a situação, há um combate óbvio em cena, confirmado em entrevistas, entre a mão e o estilo de Padilha versus a tesoura dos produtores do filme. Esse embate acabou por gerar um filme inconsistente, que parece pender cada hora para um lado, com altos e baixos óbvios em seu decorrer.

O primeiro desafio que a audiência (e imagino que o próprio Padilha) enfrenta ao ver o novo Robocop (principalmente já tendo visto o original) é a falta de violência. Enquanto a película de 1987 tinha classificação 18 anos (justificada por cenas como desmembramento por rajadas de bala e pessoas explodindo na tela), a de 2014 tem que se contentar com uma classificação PG-13, equivalente à de 14 anos no Brasil. Essa ultraviolência do filme de 1987 é usada como ferramenta de crítica à sociedade – uma marca do diretor Paul Verhoeven – nesse caso específico à banalização da violência naquela sociedade – algo talvez ainda mais relevante na nossa sociedade atual. Este ponto é tratado no filme original até em cenas sem violência; em um comercial falso, vemos uma família brincando com um jogo de tabuleiro que simula uma guerra nuclear (“Nukem – Pegue-os antes que eles peguem você”, logo após de o comercial dizer que “não há nada melhor do que passar um tempo em família”).

Com essa dimensão perdida (seja por falta de vontade de emular Verhoeven ou pela censura PG-13), Padilha muda o alvo do filme para um foco que já lhe é familiar: o sistema. É inserido na trama do filme “O Elemento Novak” – um programa sensacionalista (no melhor estilo “Balanço Geral”), com uma abordagem ultranacional que beira o fascismo. É através deste programa apresentado por Pat Novak (Samuel L. Jackson, de “Serpentes a Bordo” e “Pulp Fiction” [que cara eclético]) que José Padilha apresenta como a mídia é ferramenta de convencimento nas mãos de interesses ulteriores – neste caso, da OCP. (Legal lembrar que Padilha usou essa mesma ferramenta de crítica no “Tropa de Elite 2”.)

Ainda assim, o filme sofre crise de identidade. Todas as frases de efeito do filme original estão lá; às vezes casam perfeitamente com a cena, às vezes parecem ridiculamente forçadas. O tema original é usado pontualmente, com seu efeito variando entre homenagem e sarcasmo; entretanto, a trilha sonora incidental abre mão deste ótimo tema durante a maioria do filme, largando-se em um aglomerado genérico de notas – e assim segue o longa: cambaleante.

Padilha também tenta desenvolver a família de Murphy de maneira mais profunda do que no filme de 1987. Digo “tenta” porque, neste ponto, o elenco não ajuda. A esposa e o filho, respectivamente vividos por Abbie Cornish (a Sweet Pea de “Sucker Punch: Mundo Surreal”) e John Paul Rutton (o garoto Joe de “Guerra é Guerra”), têm seu tempo de cena como seria necessário, mas as atuações medianas acabam dissolvendo qualquer tentativa de conexão – seja entre a família Murphy ou deles com o público.

Esse ainda não é o maior problema do filme. A máxima “um herói só é tão grande quanto seus vilões” explica o porquê de o Robocop parecer tão supérfluo durante o filme. Tanto o vilão declarado, na figura do traficante Antoine Vallon (“16 Quadras”, e que trabalhou com Fernando Meirelles em “Ensaio Sobre a Cegueira”), quanto o presidente da OCP Raymond Sellars (Michael Keaton, para sempre o “Batman”) e o expert em robôs e armas Rick Mattox (Jackie Earle Halley, o Roscharch de “Watchmen”) são rasos, sem personalidade e com um baixíssimo grau de desafio para o ciborgue título do filme. Essa falta de ameaça acaba tirando qualquer urgência do filme e, considerando a Detroit-mais-calma-do-que-o-Rio-de-Janeiro do mesmo, temos praticamente um Robocop passeando pela cidade.

Mas tenho que admitir: apesar dos apesares, eu vibrei no cinema. É uma declaração estranha, mas verdadeira. Mesmo com todos os defeitos evidentes do filme, cada tiro, golpe e bomba era eletrizante, talvez pela pura e insondável energia oriunda de se ver um filme de ação na tela grande – coisa que nenhuma análise técnica pode roubar. Além disso, os questionamentos filosóficos – que abrangem do livre-arbítrio aos limites da ciência, passando pelos males do corporativismo – fazem com que se saia do filme pensando nos temas propostos. Só isso já faz este remake se postar acima de 90% das fitas genéricas que o mercado põe em cartaz.

Em suma, este “Robocop” é um filme com cara de filho que não sabe se segue a carreira do pai para fazê-lo feliz ou faz o que sempre sonhou. Varia entre o quente e o frio, às vezes nos fisgando e às vezes nos perdendo, e sempre apresentando a clássica luta hollywoodiana do cinema autoral versus as expectativa$ dos produtores. Ainda assim, considerando-se o nível do desafio, apenas o fato de o Padilha não ter pedido para sair e ter entregado um trabalho acima da média já é uma vitória. Este remake entra no tipo de filme que, mesmo fraco, acaba sendo visto eventualmente; “vivo ou morto”, você vai com ele.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.