Resenha | Riverdale (2ª Temporada) – a queridinha da CW despencou de vez

Que a CW é conhecida pelo tom adolescente em suas produções – mesmo que carregue os títulos de “The Flash”, “The 100” e “Crazy Ex-Girlfriend”, é difícil esquecer de “The Vampire Diaries“ e “One Tree Hill” – não é novidade para ninguém. No ano passado, com a estreia da primeira temporada de “Riverdale”, a emissora voltou para os holofotes teen, trazendo a expectativa de que a série viria a ser mais um prato cheio da mesmice. Porém, subvertendo e fazendo além do esperado, a programação acabou agradando diante da proposta realmente teen – com direito ao maldito triângulo amoroso – no entanto, cheia de mistérios, sem deixar esquecer do tom sombrio e as excelentes críticas sociais, por exemplo, voltadas para o machismo, e outras feitas sutilmente, como sobre a solidão e suicídio.

Título: Riverdale

Ano: 2016 –

Criador: Roberto Aguirre-Sacasa

Estrelas: 2/5

O encerramento da primeira temporada da série foi repleto de aflições para os personagens e público, além de um cliffhanger digno para manter a curiosidade. O novo ano da série veio com uma abordagem diferenciada e disposta a elevar o show a um patamar maior e positivo.

Com ares de promessa para uma trama de filmes slashers“Riverdale” havia preparado o seu terreno enquanto findava o ano anterior. Com o pai do protagonista Archie (K.J. Apa), Fred (Luke Perry), sendo baleado por um homem caracterizado pelos seus olhos verdes e por usar uma máscara preta no rosto, os questionamentos foram “Quem seria o homem?” e “Porque teria feito tal coisa?”. Os títulos dos episódios da série indicaram que a criatividade e inspiração para com o gênero de terror não iriam parar somente no misterioso mascarado, já que foram nomeados com grandes filmes clássicos do suspense e terror – como a coleguinha “Scream” fez. Como disse, aparentemente, a série estava disposta a ser maior e melhor com o seu segundo ano, mas o que se confirmou mesmo é que a queridinha da CW deu um tiro no pé e despencou de vez.

Senta que lá vem spoilers.

Estava bom, mas que tal tentar melhorar e acabar piorando tudo? Assim, a série deu inicio a decadência. A começar pela encomenda completa de uma temporada que, diferente dos treze episódios do primeiro ano, passou a ter vinte e dois episódios. Ora, problema nenhum já que a série foi bem aceita, mas qualquer seriador que se preze sabe que estender o número dos episódios é sinônimo de enrolação, encher linguiça, andar em círculos, rodar e rodar, investidas desnecessárias e, por fim, mostrar a que veio. No caso de “Riverdale”, nadou, nadou e morreu na praia.

Betty no 2×08.

Se no primeiro ano a preocupação da série foi em fazer boas críticas sociais com coerência, aqui, nesse segundo ano, os roteiristas e diretores ficaram divididos entre manter tais críticas e a contradição. Ora apontava o empoderamento feminino nos diálogos e situações, ora colocava as mesmas empoderadas para cumprirem papéis de estereótipos machistas vistos na sociedade, como Betty (Lili Reinhart) tendo que sensualizar num palco, cantando “Mad World”, para ser aceita no grupo ao qual seu namorado Jughead (Cole Sprouse) pertence, por exemplo. Então não adiantou muito “Riverdale” afiar os diálogos com frases dizendo que as mulheres precisam estar juntas e ajudar umas às outras quando a série não lida com isso, contradizendo o que estabeleceu antes.

A trama desleixada que não sabe o que quer

Partindo para a trama central da temporada, aqui vamos para outro exemplo de que as boas intenções da série não souberam muito bem onde se estabilizar e definir o que seria melhor para o seu segundo ano. O acerto ficou por conta do assassino mascarado, chamado de Black Hood, que intencionava punir a cidade de Riverdale por ser habitada por pessoas hipócritas e pecadoras – não, não estou falando do Carrasco, pois o Black Hood aqui tem carisma. A série foi encaixada aos mimos de um filme slasher, além de atrelar a figura do mascarado a uma das melhores personagens do show (ela mesma, Betty Cooper – cá entre nós, a MTV tentou fazer isso com “Scream” e o canal Chiller com a estranha primeira temporada de “Slasher”, mas as tentativas não vingaram), para trabalhar com maestria o terror e o mistério por trás do ”justiceiro” mascarado.

Archie e Black Hood no 1×13.

O tropeço ficou por conta do desenvolvimento político da série. De novo, as intenções foram boas, mas não funcionaram tão bem quanto os realizadores achavam que funcionariam. Embora parecessem se sentir firmes de que algo bom estava sendo explorado, nem interessante a coisa foi. No mínimo, além do clichê já desestabilizar tudo, o que restou foi manter o pensamento de que tudo iria acontecer como o esperado… só faltava acontecer.

Os personagens: o conflito entre os realçados e desmerecidos diante da trama ofuscada

Muitas promessas foram feitas através de personagens importantes para completar o desenvolvimento dos demais protagonistas conhecidos: Polly (Tiera Skovbye), irmã de Betty, que já foi apresentada ao público no primeiro ano, mas ainda assim continuava importante; Chic (Hart Denton), o irmão perdido de Betty, sendo um mistério do que seria sua pessoa na trama e, por fim, Hiram Lodge (Mark Consuelos), o pai de Veronica, que viria a receber liberdade da pena que cumpria, pronto para chacoalhar a vida da filha e a mãe, Hermione Lodge (Marisol Nichols).

Polly, Chic e Hiram, respectivamente.

A primeira pessoa não vingou no ano antecessor da série, sendo movida pelo que a trama dizia sobre ela, com uma importância que parecia não ser importante e sem se destacar. No segundo ano a situação se intensificou e Polly acabou se resumindo a aparições avulsas em alguns episódios – trazendo seus bebês gêmeos (Juniper e Dagwood, risos) para a vovó Alice (Mädchen Amick) e a titia Betty darem aquele cheiro e depois tchau. Claramente ela representa o tipo de parente que aparece em tempos e tempos para dar um oi. Bacana, muito bacana.

A segunda pessoa deu certo, até porque foi totalmente direcionado a contracenar com a verdadeira protagonista da série, Betty – contando com a excelente atuação expressiva da sua interprete –  e o mistério prometido com o personagem foi cumprido, sendo, de fato, um acréscimo importante para o arco explorado. Sem deixar de dar os méritos para Alice, outra excelente personagem que acrescenta muitíssimo para o que ainda há de bom – pouco ou nada – em “Riverdale”. Acompanhar a família conturbada, com a participação de Hal (Lochlyn Munro), a figura paterna, foi gratificante e uma das poucas ressalvas da temporada.

Alice e Hal.

Já Hiram Lodge foi ao mesmo tempo bom e ruim para a temporada. A sua presença mexeu totalmente com a relação entre mãe e filha. Além de ele ser o precursor de várias instabilidades na cidade de Riverdale, permitiu um crescimento para Veronica, desviando-a de quando estava sendo usada para estereótipos machistas ou o triângulo chato amoroso. Porém, se o personagem funcionou por um pouco, acabou sendo o responsável pela chatice da temporada. Sim, o plot da política e do típico ambicioso manipulador que ferra com todos para conseguir o que quer.

O arco político foi útil por impactar a todos de maneira positiva e negativa, mas, no geral, se limitou em apresentar a briguinha chata, cansativa, repetitiva e caça de gato e rato entre  Archie e Hiram, envolvendo o jogo batido de laços enfraquecidos, desconfiança e infidelidade, ficando ainda pior por ter um foco maior do que deveria. Como não sentir vergonha alheia do Archie dizendo que o sogro vai pagar caro e blá, blá, blá? Foi uma chatice acompanhar isso.

Hermione e Veronica.

Além desses, temos Jughead e a ativa intriga envolvendo os diferentes grupos em Riverdale e as cidades vizinhas. Felizmente, Jughead é mais um personagem que funciona. Ainda que o insignificante Archie Andrews tenha ficado no meio desse desenvolvimento, a jornada do moço merece créditos pela liderança e fervor para contornar a série quando não vai bem e fazer parte de um arco relevante. Além disso toda rixa com os grupos desempenha um retrato de conflito atual na sociedade, em que cada vez mais a exclusão e o preconceito acabam marginalizando indivíduos de todos os jeitos.

Archie, Judhead e Sweet Pea no 2×08.

Agora, é a vez dos desmerecidos. Quem lembra das Pussycats na primeira temporada? Se você pensou no pequeno grupo de três mulheres que quando não estavam cantando eram apagadas ou pareciam forçadas no enredo da série, adianto dizendo que acertou. O grupo se desfez, pararam de cantar e duas integrantes (Valerie Brown interpretada por Hayley Law e Melody Valentine, vivida por Asha Bromfield) sumiram dos sets de gravação da CW – mas calma que a música não acabou na série, outros do elenco sabem cantar também e foram usados para esse fim. E também tivemos um intrigante episódio musical.

A integrante que sobrou, Josie (Ashleigh Murray), teve um mínimo de atenção para a personagem não ser descartada: umas briguinhas ali, um desentendimento aqui, ora soltava a voz de novo, mas, no geral, a moça não teve um espaço relevante para chamar de seu e realmente fazer parte da série, assim como foi com Polly. É como se “Riverdale” fosse um jogo onde elas só precisam ser peças em serviços de outras, podendo ser usadas ou não para o objetivo final.

Josie no 2×17.

Por último, temos a estranha Cheryl Blossom (Madelaine Petsch). A personagem teve sim crescimento, e os perrengues pessoais com a mãe, Penelope Blossom (Nathalie Boltt) foram umas das melhores coisas a seu favor., mas não a tirou do cargo da figura mais aleatória, de diálogos aleatórios, que vai para onde o vento sopra dentro da série. Pior do que ser peça de um jogo, é olhar para tudo que Cheryl passou e no final parecer não fazer sentido o seu estado atual. É como se os escritores olhassem para a personagem e decidissem que “ah, hoje temos isso para ela”, “hoje pode ser assim, é simples”, imaginando de que algum jeito vai dar certo. Perante o último passo, é de se esperar que agora fique estável e não jogada para todos os lados.

Cheryl no 2×22.

Diferente da primeira temporada, o segundo ano da série terminou com ar de “ok, isso é tudo? ”, não sendo nada empolgante e gratificante. E nem mesmo aquele efeito de season finale arrebatador, que todo seriador gosta de apreciar quando a sua série alcança o ápice, “Riverdale” soube explorar. Com a terceira temporada programada para este ano, o futuro com qualidade para a série é incerto. Resta aguardar e ver o que mais vinte e dois episódios têm para o público. Mas uma coisa é certa: se já despencou, do chão não passa.

*

Últimas Considerações:

OBS 1: Para um protagonista, Archie nem é peça de jogo nem é folha seca levada ao vento, mas é o tipo de personagem que, por estar com tal papel a desempenhar, soa como “um líder faria isso, então eu faço”, isto quando K.J Apa não tem o corpo estereotipado pela câmera.

OBS 2: Aqui vão menções honrosas para dois personagens: Toni Topaz (Vanessa Morgan) e Kevin Keller (Casey Cott). A primeira, uma personagem nova para temporada, mas que acabou funcionando como coadjuvante e amizade com Jughead, assim como foi para Cheryl – que se resultou num romance. Já Kevin, não sabemos ao certo qual é o seu espaço na série, mas é o tipo de personagem que o público torce para que cresça e tenha atenção merecida, e que seja além da representatividade superficial de um personagem gay do programa, já que nem isso é aprofundado.

Toni e Kevin.

OBS 3:

riverdale
Minha reação assistindo a segunda temporada de “Riverdale”.

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.