Resenha: Westworld – Onde Ninguém Tem Alma (1973)

“Não há como se ferir aqui. Apenas aproveite.”

westworld-poster

Título: Westworld – Onde Ninguém Tem Alma (“Westworld”)

Diretor: Michael Crichton

Ano: 1973

Pipocas: 9/10

Epicuro, três séculos antes de Cristo, disse que caráter é aquilo que você faz quando ninguém está olhando. Pondo-se nesse cenário, e com a garantia de que não haveria punição alguma para qualquer dos seus atos, o que você faria? Dada uma arma em suas mãos com o pragmatismo brutal do Velho Oeste dos Estados Unidos, e sem medo de retribuição ou temor pela justiça, o que você faria? Ou o que fariam com você?

Como falamos no PontoCast Extra! sobre o filme e o piloto da série, em 1973 “Westworld – Onde Ninguém Tem Alma” foi lançado nos cinemas. Sob uma camada de ficção científica e estilo faroeste, o mais terrível parque de diversões do cinema ganhou vida e nos persegue até hoje, mesmo quarenta anos depois.

No filme, Peter e John (Richard Benjamin e James Brolin, respectivamente) são dois homens que decidem passar um tempo no mais famoso, caro e fantástico parque de diversões da atualidade: o complexo de Delos, onde épocas passadas são simuladas com enorme grau de realismo para proveito dos visitantes. Dentre as escolhas dadas, o Mundo Romano, o Mundo Medieval e o Mundo do Velho Oeste, Peter e John optam pela última e, recebendo seus coldres e chapéus, são jogados em uma cidade de areia e violência gratuita.

westworldcast

Os visitantes podem fazer o que quiserem, sem temerem punição ou agressão, visto que nenhum dos robôs que povoam o parque conseguem agredir humanos. Entre sexo, assassinatos e roubos a bancos, os visitantes extravasam o que há de pior em si nas máquinas sem piedade, por mais que elas sejam exatamente como um ser humano normal – sangrando, gritando e demonstrando sofrimento, como qualquer outro. Noite após noite, os robôs são substituídos, os cenários são limpos e um novo dia começa… Até que algo dá errado, e subitamente os robôs já não são tão inofensivos.

É importante notar que o filme foi escrito e dirigido por Michael Crichton, autor famoso por suas “fantasias científicas”, conhecido principalmente por ser o criador de “Jurassic Park” – o qual gera um paralelo interessante com este longa. Embora os dois sejam parques, enquanto o Jurássico demonstra o que acontece quando o homem brinca de ser Deus, “Westworld” nos dá um vislumbre do que ocorre quando o homem perde sua humanidade.

westworld-2

E o que faz com que percamos nossa humanidade? Talvez discutir o que torna um ser em humano caiba em outra discussão, mas aqui o limiar do animalesco é mais relevante. Peter e John, quando caem em Westworld, não se propõem a fazer nada de bizarro; na verdade, ambos simplesmente buscam uma prostituta cada e se envolvem em bebedeira e uma briga de bar. No entanto, o filme conota que nem todos os visitantes são genéricos assim; ouvimos um assalto a banco acontecendo, e tiros e gritos na noite nos avisam que, lá fora, os demônios estão a solta.

O que fez com que essas pessoas cometessem esses atos? Talvez a sensação de impunidade e liberdade estimule um teste de seus próprios limites, ou é possível que todo esse horror já estivesse dentro de cada um muito antes de entrarem no parque – seria aquela possibilidade só uma chance de extravasar o que já há dentro deles, e de nós? O que estaríamos fazendo em seus lugares? Em um lampejo de genialidade, mesmo o subtítulo brasileiro nos lembra que não são somente os robôs que não têm alma em Westworld.

106617509westworld-xlarge_transkyrnkunts8z1o5mens8nsavhjhw6fvxk2se3dtys7o8

O filme lança todas essas perguntas de maneira discreta durante sua primeira metade, em um ritmo próprio, antes de o primeiro robô dar problema, lançando todos os personagens em uma luta pela própria vida. A ação que se segue é bem construída, e a falta de efeitos especiais fez com que o filme envelhecesse bem, sem parecer datado, mesmo quarenta anos depois de seu lançamento. Embora uma jorrada de sangue falso aqui e uma atuação meia-boca ali nos tire do filme eventualmente, não chega a prejudicá-lo; apenas somos lembrados que tudo no Mundo Velho Oeste é falso, mesmo que este lembrete seja acidental.

Mesmo que não fosse o caso, e estes pontos fossem reais problemas, o filme compensa pela história bem construída, com seu mundo cativante, e ação bem conduzida. Em um terceiro ato quase sem falas, no melhor estilo John Wayne e Clint Eastwood, o filme é levado somente por sua tensão e ação, resultando em um filme que merece ser visto ainda hoje. Em pleno 2016, a selvageria humana sem limites faz com que “Westworld” seja logo ali.

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.