Resenha | Você – 2ª Temporada (2019): nos enrolou para se manter no relacionamento

Somos responsáveis por contar e levar nossas histórias ao mundo. Poder se expressar, e ter um êxito nesse objetivo, é prazeroso e gratificante. A TV, como forma de difundir informação, faz parte desse papel e, no magnífico universo das séries, da telinha para o streaming, vemos muitas histórias serem contadas: a ficção da fantasia, do sci-fi, do suspense, do drama, da música e, claro, tudo isso entregando um pedaço da nossa realidade. O tema da obsessão já passou por várias óticas, seja no cinema, nos livros, e principalmente na televisão. “Você”, a adaptação da obra literária de Caroline Kepnes da Freeform (que agora continua na Netflix) é o mais recente retrato de fixação em que milhares de pessoas vem consumindo. Infelizmente, a segunda temporada mais cooperou para a irresponsabilidade do show, empurrando com a barriga para manter a trama em vez de levar a sério a discussão das suas questões.

Título: Você (“You“)
Ano: 2019
Criação: Greg Berlanti e Sera Gamble
Estrelas: 2,0/5

“Você” nos fez uma promessa: após o turbulento e tortuoso evento final da temporada passada, uma faísca de justiça foi pintada, apontando um futuro promissor para a atração. Pouco tempo depois, veículos de notícias divulgaram que Joe (Penn Badgley) mudaria de Nova York para Los Angels e lá esbarraria no seu novo alvo para obsessão, papel esse da estrela de “A Maldição da Residência Hill”, Victoria Pedretti, vivendo Love (que irônico). Mas o que nos manteve ansiosos mesmo para o ano vindouro, foi a sede de Candance (Ambyr Childers) em lutar contra o ex-namorado que a deixou para morrer.

Joe sempre foi um perigo para a própria série assim como a sua abordagem. A narrativa é feita através ponto de vista do sociopata, e os efeito da câmera desfocando ao redor do cenário e nos corpos dos personagens enquanto o foco se destaca no rosto, reafirmam isso ao dar o tom da visão restrita ao então antagonista. O personagem é realmente fascinante: chega a ser irônico como em seus momentos de autoconsciência perversa, calculista e também de stalker, consegue transitar sutilmente sobre o humor sem sair da sua zona de convencimento de que está fazendo tudo para um bem maior.

Vejamos. A narrativa conduz com eficiência a conflitante mente que bebe do próprio perigo para se guiar nas escolhas duvidosas e instáveis. Agora, Joe, por mais que se volte para as mesmas inclinações, tenta se convencer de que está melhorando e que vai alcançar isso, e ainda que algo evidencie totalmente o contrário, ele diz que pelo que quer ser não faria novamente tudo o que abomina. Desde o ano anterior, a narrativa foi um ponto forte e também o fraco da série, uma vez que víamos as saídas absurdas que o cara arranja sem nem ser visto, e aqui não foi diferente, com o diferencial de abusar demais da paciência.

A salvação de Yous2, as irmãs Ellie e Delliah.

Na primeira temporada tivemos um ótimo contraponto de Joe com o garoto Paco (Luca Padovan), o que servia como paralelo para sermos apresentados ao passado de Joe, e na mesma linha, a contestação de suas ações caóticas quando ele apoiava a vida problemática de Paco, e nisso, não deixava de se encontrar com a natureza nebulosa da personalidade de Joe. Estando no cenário de LA, o jovem livreiro agora se vê na onda criativa da cidade que é palco para as produções de Hollywood. O que rende a inserção de ótimos personagens e excelente arcos, como, por exemplo, ganhamos mais discussão acerca das redes sociais, a geração millenial, a cultura do stalker, temas sobre abuso sexual, consentimento, abuso da indústria, pressão midiática, perigos da web, mais do passado do moço e muitas outras coisas, mas daí o show enfraquece tudo quando se lança para teia de conveniências, e na justificativa penosa para dar a bandeja de redenção para o Joe. Nesse caminho, quem precisa acreditar nessa possibilidade é o público que vê a trama afrouxar aos poucos.

Mas era isso mesmo que desejávamos para o Joe, certo? A probabilidade de se encarar e deixar de desviar do que faz e buscar a melhora. O problema é que o show desenha isso e depois toma de volta do próprio personagem e depois da audiência, que é tapeada nesse caminho para que a série ainda tenha como se estender. O programa na temporada predecessora, comparou as ações de Joe ao vício em drogas; era como estar preso a uma substância e que não conseguia parar o consumo. Para se ter resultados diferentes em determinados comportamentos, é necessário se empenhar num exercício que aponte para esse fim, ao contrário disso, seria como andar em círculos e voltar para o mesmo ponto. No caso de Joe, havia dois caminhos para alguém que está consciente de que precisa mudar: traçar a redenção ou continuar preso às tendências obsessivas que o acompanham.

Minha reação com a temporada.

A questão é que os roteiristas decidiram não dar isso ao amante de livros, e sim, o deixar perto do “vício nas drogas”, ou seja, se manter obcecado até o talo. É importante reiterar que, através da figura de Joe, a série também transita em temas como a violência contra a mulher, a masculinidade tóxica, relacionamentos abusivos, e outras inclinações à violência. O que não deveria ser conduzido por excesso de conveniências numa era em que cada vez mais assusta ler e ouvir que a mulher foi vítima de um homicídio por motivos passionais.

Dentre esses tropeços, o maior continua sendo a falta de visão feminina. Anteriormente, tivemos momentos de glória, pontos distintos em que Beck (Elizabeth Lail) falou de si fora da perspectiva de Joe. Para uma vítima sobrevivente da abuso físico e mental exercidos pelo ex-namorado, era a brecha perfeita para Candace brilhar e representar muitas jovens e mulheres. Muito além do plot de vingança, teria um direito a dar voz ao que sofreu com mais veracidade.

SPOILERS A SEGUIR: Do que adiantou trazê-la de volta e depois deixá-la cair no infortúnio de lutar tanto para ser ouvida, ter provas, não sinalizar a polícia, e por fim ser morta por outra psicopata que queria “defender” o amado? A cena não foi mais ridícula do que quando a personagem passou pelo momento de falar tudo o que escondia e porque tinha voltado, para depois não valer de nada. FIM DOS SPOILERS.

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Você que não vingou e foi desperdiçada.

A adição de Pedretti se mostrou previsível desde os primeiros momentos em que começou a contracenar com Badgley, e até chegar no ápice, a audiência se surpreenderá com o quanto foi subestimada para perceber isso.

MAIS SPOILERS: Como suposta nova vítima de Joe, era esperado que teríamos um momento novelão em que ela descobriria tudo e não teria o mesmo fim de Beck, e faria algo a respeito. Os realizadores poderiam repetir a resolução, ou fazer algo diferente para conflitar o Joe. Optar pela segunda alternativa resultou numa personagem com a personalidade afetada com as experiências passadas que teve. Assim, a série detém duas pessoas querendo saciar suas visões deturpadas e egoístas do que fazem “por amor”e,  nesse trajeto, outras pessoas sofrem as consequências. Vale ressaltar que, de certa forma, a verdadeira face de Love não deu um final amargo só para os demais personagens, mas também para o livreiro sociopata que recebeu uma barreira para suas cobiças: o que ele queria não era uma pessoa tão perturbada e obcecada como si, mas alguém puro que aceitasse seus feitos como uma real prova de amor. O que é doentio em ambas as partes, e o que confirma ainda mais isso, é obsessão que está além da cerca. FIM DOS SPOILERS.

O grande porquê que queríamos ver ser relevante nessa temporada foi reduzido a um papelão de previsibilidades; ideias batidas para causar um melodrama pífio, somando com a presença estúpida da polícia, e a intensificação da psicopatia e sociopatia em vez de ser mais responsável com o tema que se propõe — do que bastou Joe confessar tudo o que fez e não buscar ajuda? Em suma, “Você” voltou prometendo ser diferente, mas depois que chorou, esperneou e quase chegou a convencer, tornou a fazer tudo igual e pior.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.