Resenha: Viva – A Vida é Uma Festa (2018): entre fugir da vida e vivê-la

Grande parte das crenças ao redor do mundo tentam lidar com a resposta do que há na vida após a morte. Enquanto uns abraçam que há “um nada”, muitos outros tentam significar o que veremos depois de fechar os olhos, tanto como uma forma de fuga do que nos rodeia quanto como um meio de dar maior significado à existência. Em “Viva – A Vida é Uma Festa”, a Pixar se propõe a responder a estes dois pontos de uma só vez, versando sobre a morte com uma beleza singular.

Título: Viva – A Vida é Uma Festa (“Coco“)

Diretor: Lee Unkrich

Ano: 2018

Pipocas: 9/10

Na animação, Miguel Rivera (Anthony Gonzalez/Arthur Salerno) é um menino de 12 anos que é secretamente apaixonado por música, visto que sua família rejeita qualquer forma de expressão musical em seu meio. Inspirando-se no maior cantor da história do México, Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt/Nando Pradho), Miguel rejeita sua família e se rebela para se apresentar no show de talentos da cidade no feriado do Dia dos Mortos. Sem instrumento, ele se vê obrigado a roubar o violão de Ernesto de la Cruz de dentro do mausoléu do cantor. O que Miguel não esperava era que isso o transportasse diretamente para o mundo dos mortos, obrigando-o a contar com a parte falecida de sua família para tentar voltar para casa.

Viva - A Vida é Uma Festa

Interpretar o filme literalmente tem seus benefícios e seus problemas. Em termos culturais, é uma jornada incrível dentro da cultura mexicana; a festa do Dia dos Mortos é talvez a comemoração mais importante do país, e trazê-la às vistas do mundo sem estereotipá-la faz um grande serviço em apresentar uma festividade tão importante do México. Por outro lado, para famílias que rejeitam a ideia de mortos comunicando-se ou interagindo com vivos, o próprio conceito do filme pode afastá-los de uma experiência positiva com a animação – ou mesmo impedi-las de vê-lo por completo.

Assim sendo, é mais confortável pensar em “Viva – A Vida é Uma Festa” sob um olhar mais metafórico, dentro da sua mensagem principal; “Viva” não é sobre a morte, mas sobre aceitar e adaptar-se dentro de sua família. Neste tema, embora o longa encontre ecos nos conflitos de “A Pequena Sereia” e “Mulan”, por exemplo, é com o mais recente “Moana – Um Mar de Aventuras” que “Viva” dialoga melhor. Enquanto Moana precisa sair da sua zona de conforto, abrindo mão de sua família, para descobrir quem é, Miguel sabe muito bem que nasceu para ser músico, e vê na rejeição de seus familiares a única forma de ser quem já é. Em outras palavras, se Moana resistiu à vontade de partir e explorar sua identidade durante anos, Miguel aproveitou a primeira brecha que teve para finalmente conseguir se expressar.

Resultado de imagem para coco movie

Sob este prisma, Moana se torna um filme sobre o individual em prol do coletivo, enquanto “Viva – A Vida é Uma Festa” faz o caminho inverso, trazendo a importância do coletivo – nesse caso, a família – para o indivíduo. É lindo e simbólico o fato de que Miguel inevitavelmente precisa da “bênção” de sua família como única forma de retornar ao mundo dos vivos e seguir em frente – com ou sem a música. A família Rivera não só dá um sobrenome para o garoto, como também um senso de pertencimento que permitirá que ele seja a melhor versão de si, seja como sapateiro ou violeiro. Explorar essa mensagem faz com que o filme renda muito mais para as famílias. Aquelas que se incomodam com a apresentação literal dos mortos, ou que podem se perturbar com a beleza e a atração que o mundo dos mortos pode causar, precisam ser mais ativas para diferenciar realidade de fantasia para suas crianças.

Além do rico tema de valorização da família, também é muy rica toda a parte visual do filme. Abusando de pontos e estruturas luminosas em ambientes escuros ou de penumbra, “Viva – A Vida é Uma Festa” salta aos olhos o tempo todo – principalmente no 3D, aqui sendo bem utilizado. Toda a elaboração do universo – tanto dos vivos quanto dos mortos – é trabalhada de maneira natural e intensa, de forma que os mortos não são como zumbis, mas apresentam características decorativas que os diferenciam entre si. Acima da camada temática, o roteiro é divertido e simples, de forma que as viradas inesperadas da história surpreendem de forma positiva. As canções são, literalmente, um show à parte, com destaque para a belíssima “Lembre de Mim“.

“Viva – A Vida é Uma Festa” não é um culto aos mortos, mas uma celebração da família para que, em vida, possamos valorizá-los como grupo e como ela nos molda e nos dá suporte para nos tornarmos mais quem somos. A Pixar embolsa outro sucesso, em todos os aspectos, e nos mostra que devemos valorizar nossos familiares em vida e não nos esquecer daqueles que se foram. Entendendo a expectativa e a fé na vida após a morte também pode ser uma fuga da realidade, é através da família que conseguimos segurança para encará-la. Se para morrer basta estar vivo – como diziam e dizem nossas vovós -, a vida deve ser vivida como a festa que é, com as pessoas que nos importam, antes que as luzes se apaguem.

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.