Resenha | Vingadores: Ultimato (2019) – os efeitos da desolação (sem spoilers)

11 anos, 21 filmes, 11 séries, e chegamos finalmente ao encerramento dessa grande jornada. Em “Guerra Infinita” vimos um “filme” que entregou entretenimento de qualidade, enquanto apresentava uma história com início, conduzida num ritmo constantemente intenso, mas sem nenhuma pretensão de findar o seu arco em pouco mais de duas horas e vinte de projeção. Disposto a selar de vez esse evento estrondoso, “Vingadores: Ultimato” é muito do você esperava, mas que casa com um desfecho satisfatório.

 

Título: Vingadores: Ultimato (“Avengers: Endgame“)

Ano: 2019

Direção: Anthony e Joe Russo

Pipocas: 8,5/10

Com certeza, os danos causados por Thanos (Josh Broslin) são efeitos inesquecíveis, e “Ultimato” abraça essa urgência ao nos remeter ao acerto de contas entre os remanescentes do cinquenta por cento dizimado da população contra o detentor das Joias do Infinito. Mas como lidar com a perda de tantos entes queridos? Determinados a reparar isso, Natasha e Steve lideram a equipe para então confrontarem o titã louco.

Depois de tanta espera, “Vingadores: Ultimato” já abre com alta dose de imediatismo, arrancando o hype como pirulito da mão de criança, para então mostrar que não entraríamos com tanta facilidade para a batalha imaginada. Se despindo do tom vigoroso, repleto de ação e esmero da cena finalizada com um estalar de dedos, a tal revanche começa a desenhar o caminho simples que irá traçar, mas com enormes cargas de emoções para fazer valer a pena o verdadeiro encontro de personagens lutando por um único objetivo.

Seguindo o que bem acompanhamos na fórmula Marvel, o longa não poupa tempo para inserir a conhecida comédia na interação entre os heróis, e mesmo sendo bem aplicada visando a descontração, não deixa de ser um elemento repetitivo. E, de novo, voltando para sacada de deslocar os personagens em muitos cenários, os dividindo em seus respectivos arcos, ao menos suas localizações não caem no esquecimento com prontidão.

Apesar dessas familiaridades, aqui acontece uma das maiores apostas dramáticas do MCU. Intercalando com a recuperação e as consequências do caos, contemplamos lentamente os efeitos drásticos que a ausência da metade da sociedade poderia acarretar. Da inutilidade e impotência de quem quer fazer alguma coisa a respeito, dos traumas à maneira que os resistentes arrumaram para sobreviver, ou do desespero para não ter que lidar com a solidão deixada, e os meios tóxicos arranjados para fugir. O que Thanos não previu na maquinação para corrigir um povo corrompido foi a ideia de que o resultado seria cacos de pessoas quebradas, e nem que mesmo o tempo seria suficiente para juntar os pedaços.

Nesse contexto, “Ultimato” não deixa de orquestrar um show que conduz o telespectador a relembrar acontecimentos importantes que pouco a pouco funcionaram com peças que se encaixariam para esse espetáculo, fazendo assim um um atrativo capaz de invocar uma nostalgia divertida, e também memorável afago para os personagens, que durante todo esse processo, são lapidados e desconstruídos.

É inevitável afirmar que, em meio a toda construção melodramática para o conflito vindouro, os irmãos Russo souberam fisgar a audiência para manejar as emoções para as muitas sacadas que o roteiro investe a fim de segurar para o escopo grandioso que se ascende. E chega a ser louvável o fato de que o filme não se acovardou para reverter decisões extremas e necessárias para o fim da fase 4, para assim agradar o ego da inconformidade.

Tendo a excelente escolha de um cenário marcado pela destruição, um filtro escuro, o amarelado compondo o terreno com ruído de uma guerra, “Vingadores: Ultimato” define muito bem o foco da almejada luta que dará o preciso final da história somada de episódios anteriores. Visualmente empolgante, eletrizante do nível de arrepiar todo o corpo e que piscar nem deve ser considerado, o confronto cheio de energia se rende para encher os olhos.

E diante de tal brilho, é possível notar que o longa quer ser representativo, mas não deixou de passar a sensação de que distribuiu o melhor tempo para quem o enredo pedia, enquanto apenas apontava para o grande leque de personagens que tem, mas que ainda não foram tão bem explorados assim, pelos menos não com exatidão.

Poderoso em tantos efeitos, “Vingadores: Ultimato” carrega consigo a satisfação que só o hype pode dar antes mesmo de poder ser destrinchado, e, além dos escombros, realizou com competência o fim de um evento, com menos ação e adotando um esquema comovente e redenção. Da despedida à conclusão consciente da entrega emocionante e épica para encontrar novos horizontes. Que assim seja, sem cenas pós-créditos, a fórmula batida do humor, e então, sacrifícios que determinarão um perfil renovado.

Levantar-se não é a parte mais difícil, e sim a estratégia para superar o duro reflexo da desolação.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.