Resenha: Um Lugar Silencioso (2018) em um mundo perigoso

Silêncio. Ferramenta útil desde o nosso cotidiano, quando falta em sala de aula ou quando é necessário durante uma discussão, até para a construção das mídias, seja para honrar quem se foi ou para preparar um jump scare, o silêncio é parte integral e mãe de toda a comunicação, mas, assim como o escuro, também vem instintivamente como um elemento a se temer, embora inevitável. É neste espaço que encontramos “Um Lugar Silencioso”: um excelente filme sobre como da mesma forma que é impossível vivermos em silêncio absoluto, também não é factível protegermos completamente a nós mesmos e aqueles que nós amamos.

Um Lugar Silencioso : Poster

Título: Um Lugar Silencioso (“A Quiet Place“)

Diretor: John Krasinski

Ano: 2018

Pipocas: 9,5/10

Esta realidade atinge a família de Lee (John Krasinski) e Evelyn (Emily Blunt) quando eles se veem em um mundo no qual seres atacam qualquer coisa que faça barulho. Galhos quebrando. Um passo mais firme. Um “olá”. Qualquer som é suficiente para atrair a atenção dessas criaturas. É nesse ambiente hostil e extremamente perigoso que Lee e Evelyn criam seus três filhos, tentando se comunicar através da linguagem de sinais e instalações luminosas para se adaptarem a esta nova realidade – até que, um dia, as coisas não acontecem como deveriam.

Para a narrativa funcionar, “Um Lugar Silencioso” trabalha exatamente com o som e a ausência dele, constantemente gerando o efeito de que mesmo um alfinete caindo no chão pode se tornar um estrondo caso o silêncio se estenda por tempo o suficiente. Revezando a quietude com a boa trilha incidental e os efeitos sonoros – que crescem com os riscos apresentados, como de fato deveria ser -, o longa mantém uma ascendente constante para falar sobre a falha inevitável em nossos propósitos, principalmente nos que envolvem proteger a quem amamos.

um lugar silencioso

O mundo extremamente perigoso que vemos aqui demanda mais de seus habitantes – mais atenção, mais estresse, mais desgaste -, mas não se diferencia tanto da realidade na qual estamos inseridos. Entre greves da polícia, a chegada de novas facções à cidade e a violência generalizada, nos aquartelamos por trás dos muros dos condomínios, esperando que possamos resguardar a nós mesmos e aqueles sob nossa responsabilidade. No entanto, o acaso – ou o azar, ou o próprio mundo – vez ou outra atinge as pessoas que queríamos proteger, e nos deparamos com como nossos esforços são vãos.

Por outro lado, essa dedicação para salvaguardar quem amamos encontra fim em si mesma. Quando protegemos nossos filhos ou irmãos mais novos, estamos encontrando e reafirmando nossa identidade como pais e irmãos mais velhos. Mesmo que sejamos mal sucedidos, o esforço gera a própria retribuição ao afirmar quem somos e nos dar um propósito de vida. Ainda assim, quando falhamos, o gosto amargo é inevitável: se não podemos protegê-los, quem somos? O que resta?

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É este subtexto que encontramos sob a ótima direção de Krasinski. Embora não busque ousar, o diretor conduz a história co-escrita por ele, Bryan Woods e Scott Beck à contento, apoiando-se em uma excelente equipe técnica, principalmente na mixagem de som, para conseguir contar sua história. Como suspense, o filme alcança a tensão desejada, mantendo a audiência em um estado de ansiedade constante, e, como terror, salpica os elementos necessários para o gênero, trazendo traços de “Sinais” (2002) e do universo “Cloverfield” (2008, 2016 e, infelizmente, 2018), sendo certamente melhor do que o primeiro e se aproximando de “Rua Cloverfield 10”. Ainda assim, a soma de suas partes entrega algo maior, de forma que a película consegue apresentar-se como algo original graças à sua sólida construção de personagens.

“Um Lugar Silencioso” é uma ótima experiência cinematográfica assustadora que será melhor aproveitada em salas escuras e silenciosas, seja no cinema ou em sua casa, desde que com ótima qualidade de som. As atuações e direção acima da média tornam a sua mensagem ainda mais poderosa, fazendo com que percebamos que precisamos continuar a cumprir resignadamente nossos papeis junto àqueles que amamos – mesmo, ou talvez principalmente, quando tais esforços pareçam inúteis.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.