Resenha | Túmulo dos Vagalumes (1988): explicando guerra e morte para crianças

Há uma beleza trágica na tristeza. As músicas mais bonitas, as cenas mais marcantes e muitos dos filmes mais celebrados têm um elemento de tragédia costurado na sua trama. “Túmulo dos Vagalumes”, de 1988, é um incrível exemplo disso. Embora fuja um pouco da proposta inicial do nosso mês infantil devido ao seu forte teor gráfico, a animação de censura 14 anos oferece um belíssimo retrato da deprimente realidade do Japão durante a Segunda Guerra Mundial, sendo um ótimo trampolim para discussões com adolescentes sobre o custo da violência.

túmulo dos vagalumes

Título: Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no haka)

Diretor: Isao Takahata

Ano: 1988

Pipocas: 10/10

Na trama, dois irmãos precisam lidar com todo o caos e destruição que a guerra impôs ao povo japonês. Seita é um adolescente, ainda em período escolar, que se vê tomando conta de sua pequena irmã Setsuko após a destruição da cidade onde moravam por um bombardeio Aliado. Em meio aos destroços e vivendo com parentes agressivos, as crianças se veem obrigadas a fazerem várias escolhas difíceis para sobreviverem.

Embora tenha sido animado pelo Estúdio Ghibli, “Túmulo dos Vagalumes” não é como “Meu Vizinho Totoro”, por exemplo, no que tange à largura de seu público. Imagens de violência gráfica e o próprio teor pesado do filme fazem com que ele seja mais recomendado para você exibi-lo para aquele ou aquela jovem de seus quatorze, quinze anos; além de já terem tido contato com outras formas de violência bem mais severas (infelizmente), o filme será capaz de despertar percepções e interrogações que talvez não surgissem de outra forma. Sendo o Brasil um país pacífico com outras nações, é sempre válido importar este contexto através de bons produtos culturais – como este.

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É fácil classificar “Túmulo dos Vagalumes” dessa forma, principalmente porque o filme é um primor artístico. A parte estética é linda e, embora ainda não demonstre parte do amadurecimento e foco em detalhes pelos quais o Ghibli se tornaria famoso no futuro, já desponta pelo charme ao mesmo tempo simples e bem elaborado de seus traços. Além do visual fundamentado nos tons de vermelho para demonstrar a intensidade e o calor destrutivo da guerra, o trabalho de som e dublagem é executado com bastante qualidade, sendo a trilha sonora um fio condutor competente nos momentos que o filme fala sem diálogos.

Esta, inclusive, é uma animação com muito a dizer. Versando sobre os impactos que a guerra e, consequentemente, a morte têm sobre as relações humanas – da pessoa ao romper com seu cotidiano e na interrupção de vínculos familiares, por exemplo -, ela trabalha suas ideias com naturalidade. Embora a primeira cena já prediga todas as desgraças que irão acontecer, é impossível não se sentir envolvido enquanto as personagens são construídas tão humanamente à sua frente.

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Para ajudar na construção de sua temática, “Túmulo dos Vagalumes” usa os insetos de seu título como uma analogia aos seres humanos e nossa efemeridade, mas ainda ressaltando a glória mundana de existir. Este último ponto é demonstrado enquanto Seita e Setsuko brincam e iluminam seu refúgio com dezenas dos bichinhos bioluminescentes, tirando contentamento de algo natural e simples. Ainda assim, o dia vem, e Setsuko se vê obrigada a enterrar os corpos que, num piscar, deixam de estar vivos. “Por que vagalumes morrem tão cedo?”, a menina pergunta, e nós, da audiência, nos vemos nos questionando a fragilidade dessa atividade tão prazerosa e momentânea que é viver.

Em pouco menos de uma hora e meia, o filme dá uma aula sobre narrativa, enquanto conta uma história sem grandes reviravoltas com a resignação honrada de quem caminha rumo a um fim já conhecido. Embora não seja de forma alguma recomendado para todas as idades, “Túmulo dos Vagalumes” é capaz de conversar sobre todas as fases da vida, da infância à maternidade, com a naturalidade, o poder e a beleza que seriam sinônimos do Estúdio Ghibli.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.