Resenha: Trama Fantasma (2018) – Tânatos, o possuir e a criação

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, nos esforços de explicar como a humanidade e a própria vida funcionavam, desenhou os conceitos de “Eros” e “Tânatos”. O Eros seria a pulsão de vida, aquela responsável por criar, avivar e garantir a reprodução da espécie. O Tânatos, por outro lado, seria a pulsão de morte, através da qual tudo se desfaz e é destruído. Em vez de colocá-los como opostos, Freud os posicionou como indissociáveis; é necessário destruir um vegetal ou um animal sob a força do Tânatos para que possamos nos alimentar em Eros. Este ciclo se reproduziria de uma forma geral, de maneira que toda criação se alimenta de uma destruição para que possa gerar algo novo. “Trama Fantasma”, de Paul Thomas Anderson, deglute este conceito e demonstra como a deterioração da vida alimenta a arte – e como todos nós, inevitavelmente, estamos presos neste ciclo.

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Título: Trama Fantasma (“Phantom Thread“)

Diretor: Paul Thomas Anderson

Ano: 2017

Pipocas: 9/10

O longa gira em torno de Alma Elson (Vicky Krieps) e Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis). Garçonete e homem rico e prestigiado da alta costura, Alma e Woodcock passam a se relacionar quando este vê nela a sua próxima musa inspiradora – e ela, por sua vez, se encontra e se deixa enlaçar pela força criativa e destruidora que o costureiro representa.

A ausência da palavra “se apaixonam” neste resumo é proposital e essencial para o filme. O que Reynolds e Alma compartilham é algo não necessariamente além, mas muito diferente da definição que se possa pensar de “amor”. O que eles têm um pelo outro é uma paixão que não se enquadra em romance; não é a vontade de dividir uma vida, mas sim de consumir por completo um ao outro, e de subsumi-lo dentro do próprio desejo.

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Reynolds faz isso ao colocar Alma na posição de musa. Ao contrário dos clássicos, que dedicam suas obras à musa com gratidão e louvor, Reynolds a coloca abaixo dele mesmo. É um homem egocêntrico que vive para sua arte depois de perder seu verdadeiro amor – sua mãe, e nada seria mais freudiano do que isso. Quando questionado se seria casado, logo no início do filme, Woodcock responde que não, explicando que não é possível visto que “eu faço vestidos”. Não há espaço para amor na vida do costureiro, mas há para uma inspiração, da qual ele sugará cada gota de criatividade, quebrando auto-estima, senso de valor e qualquer possibilidade de respeito mútuo no processo.

Ou isso seria o que ele faria com outra musa, caso Alma não trouxesse seu próprio padrão de destruição para este relacionamento. Embora ela aprenda com Woodcock como por esta força em prática, Alma claramente aceita esta dinâmica porque ela, também, suga a vitalidade do costureiro para conseguir torná-lo dependente dela. Ela o derruba não só porque sabe que ele precisa ser parado de tempos em tempos, mas porque quer sentir que ela é capaz de domar essa força destrutiva da natureza que Woodcock representa; o homem temido e respeitado por todos precisa dela. Se Reynolds a destroi para criar seus vestidos, Alma o desmonta para submetê-lo ao amor do jeito que ela deseja.

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Estas duas pulsões simultâneas também geram seu próprio rastro de caos por onde passam, e o mundo de Reynolds e Alma passa a girar em torno dos dois. Os desenhos e as costuras, o trabalho das senhoras do estúdio de Woodcock e mesmo a rotina de alimentação da casa agora precisa sair do caminho quando os dois buscam devorar um ao outro enquanto constroem algo lindo e bizarro à sua forma.

Este mundo de “Trama Fantasma”, posto em meados da década de 50, na Inglaterra, é perfeitamente recriado por Anderson, em seu primeiro filme rodado fora dos Estados Unidos. Todo o desenho de produção é fantástico, dos ambientes detalhados aos belos vestidos, e se o primeiro ato do filme falha em ritmo, a beleza da fotografia compensa e ajuda a segurar o espectador. A trilha sonora de Jonny Greenwood, colaborador frequente do diretor, repete seu tema ao piano toda vez que Woodcock e Alma manifestam seu tânatos, e costura a trama muito bem em seus diversos momentos.

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Daniel Day-Lewis não foi indicado ao Oscar como melhor ator mais uma vez à toa, e a construção de seu personagem – centro único dos holofotes até o segundo ato do filme – só funciona porque o brilhante ator faz deste seu último papel no cinema uma chave de ouro. Contracenando, Vicky Krieps não só responde a atuação de Day-Lewis à altura como assume o foco do filme no momento oportuno, e passa a conduzir a película até o seu final. Este equilíbrio de atuações que ilustra as alterações da balança de poder no filme é só mais uma demonstração de maestria por parte de Anderson, que além de dirigir também escreveu o longa.

“Trama Fantasma” não é o melhor trabalho do diretor, nem em enredo nem em condução, mas é um filme instigante que, mais do que estudar seus personagens, também coloca a forma como nos relacionamos sob o microscópio. A dinâmica de nossas relações, das quais sugamos o que podemos e nos revoltamos quando somos sugados, é refletida em um grau acima na dança macabra entre Alma e Reynolds; estamos o tempo todo cirandando com nossa vontade de consumir por completo o que nos faz criar. Independente dos méritos técnicos ou se é um filme que pode não agradar particularmente, “Trama Fantasma” nos lembra que somos, o tempo todo, Tânatos e Eros costurados como um só, tanto para aqueles ao nosso redor quanto para nós mesmos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.