Resenha | The Post – A Guerra Secreta (2018) entre o certo e o justo

Nós, como sociedade, precisamos acreditar que a justiça é, por definição, justa. É preciso que aceitemos que as leis, as instituições e os princípios constitucionais que nos regem são merecedores de ocuparem os lugares nos quais estão dentro da nossa organização social, e que suas relevâncias como pedras angulares são óbvias pela redundância em seu nome: a justiça, por ser justa, é o melhor a se fazer. “The Post – A Guerra Secreta” nos aponta um momento histórico no qual uma contradição recorrente se tornou mais óbvia: quando o que era certo e o que era justo assumiram lados diferentes da mesma questão.

Título: The Post – A Guerra Secreta (“The Post“)

Diretor: Steven Spielberg

Ano: 2018

Pipocas: 8,5/10

O filme, baseado em fatos, relata os vazamentos e divulgação do que ficou conhecido como “Pentagon Papers” – os “Papeis do Pentágono”, em tradução livre. Neles, são relatados trinta anos de abusos, mentiras e crimes cometidos pelo governo estadunidense antes e durante a então corrente Guerra do Vietnã. Em posse destes papeis, a dona do The Washington Post, Katharine Graham (Meryl Streep) e o editor Ben Bradlee (Tom Hanks) precisam decidir se publicarão os documentos, violando a Lei de Espionagem e correndo o risco de serem presos, ou se esconderão do público o fato de que os filhos de seu país estão morrendo em uma guerra perdida há anos.

Embora os atores protagonistas e seu diretor dispensem apresentações, é nesse conflito que “The Post” encontra a sua força; Spielberg fez recentemente outro drama de época com Hanks, em “Ponte dos Espiões“, que não chega nem perto de ser tão bom quanto este. O filme constroi seus personagens de forma a que todos os seus dilemas e problemas pessoais apontem e culminem nesta impossível decisão maior: qual crime eu devo cometer?

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O primeiro, mais óbvio, seria divulgar os documentos secretos do governo e cair sob o peso de tornarem-se como espiões, por porem em risco as vidas daqueles que ainda combatiam na Guerra do Vietnã ao entregar informações estratégicas do exército ao grande público. Por mais que se certificassem que nenhuma vida de soldado seria impactada pela publicação dos papeis, isso definitivamente mudaria o rumo da guerra; se ela já estava em vias de se encontrar moralmente perdida dentro do território estadunidense, um golpe como esse poderia encerrá-la como uma amarga derrota para a potência estadunidense também de maneira literal.

O segundo crime seria não publicar estes documentos, cedendo à pressão do governo ao não fazer uso da Primeira Emenda da constituição dos Estados Unidos, a qual concede liberdade de imprensa. Aqui, o crime de passividade seria ter o conhecimento de que, há várias administrações presidenciais, o governo já sabia o quão inviável seria manter a campanha no Vietnam do Sul, mesmo sob o pretexto de conter o comunismo. Seria saber que a guerra era mantida “70% para proteger o orgulho dos Estados Unidos” – de forma que, consequentemente, 70% dos jovens que morriam a 14 mil quilômetros de casa, morriam por um orgulho que nem mesmo era merecido. Não publicar os documentos seria mais do que uma recusa passiva a um direito constitucional, mas também se poria como uma quebra dos princípios que regem – ou ao menos deveriam reger – a relação de confiança entre a sociedade civil e a imprensa.

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Se qualquer resposta parece fácil neste contexto, então ela é provavelmente a resposta errada, ou ao menos não se considerou todas as implicações da escolha tomada. O que propele o filme adiante é a percepção de que, embora a justiça seja justa, por definição, isso não a torna necessariamente a melhor via a se seguir, nem a faz ser automaticamente a opção correta. É exatamente sobre isso que “The Post” se debruça, e a habilidade do mestre Spielberg é demonstrada nas escolhas de abordagem dentro do roteiro escrito por Liz Hannah e Josh Singer. Embora o filme opte por aprofundar os personagens de Streep e Hanks, eles não o fazem somente para que o público se importe mais com o que aconteceria com eles – até porque a História dá cabo desta preocupação. Mesmo os desenvolvimentos de personagem se dão com o objetivo de acertar o cerne da questão entre certo vs justo.

Se Spielberg mostra mais uma vez ser um mestre de sua arte em seus enquadramentos desconfortáveis e trêmulos nos momentos de decisão, frente àqueles contemplativos que assume nos diálogos menos tensos, Streep e Hanks também demonstram serem senhora e senhor da profissão que escolheram para si. Meryl Streep traz o maior peso sobre si, visto que o arco de Katharine – de herdeira acidental à líder destemida – demanda que Streep varie entre fragilidade e força, e todas as nuances entre esses pontos, com bastante frequência. Sua vigésima-primeira indicação ao Oscar foi merecida e esperada.

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Mesmo com todo o peso dos nomes nos cartazes – que ainda incluem atores como Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Alison Brie, dentre outros -, “The Post – A Guerra Secreta” demonstra em seu ótimo subtítulo brasileiro onde ele consegue ganhar destaque. Trabalhando uma zona cinzenta entre dois princípios morais distintos, é honestamente difícil saber qual escolha faríamos no lugar daqueles personagens, mesmo com a história nos apoiando. Enfrentar uma deficiência crônica da nossa sociedade e entender que muitas vezes o certo será injusto nos tira da zona de conforto; mesmo se não fosse um bom filme, “The Post” valeria simplesmente por nos trazer até aqui.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.