Resenha | Tartarugas Até Lá Embaixo (2018) – a luta para sobreviver

Desde o lançamento de A Culpa é das Estrelas – que recebeu uma excelente adaptação em 2014 -, em 2012, o autor John Green estava há pouco mais de quatro anos sem publicar um novo livro – e em 2016, o tio verde revelou em um vídeo que estava sentindo uma enorme pressão para escrever. Felizmente, no ano passado saiu a notícia do seu novo trabalho, titulado “Tartarugas Até Lá Embaixo”. Depois de muito tempo, valeu a pena esperar por uma novidade, pois, perante uma das obras aparentemente mais simples de Green, o autor se apresentou de forma pessoal e arrebatadora aos seus leitores.

Não é um spoiler, mas “Tartarugas Até Lá Embaixo” não se trata de uma história com um adeus para personagens, com apego e ranço para outros; John Green quis aqui dialogar com o seu leitor de maneira delicada, e sobre algo tão delicado que poucos compreendem. Aza Holmes é uma adolescente de 16 anos que, convencida pela sua melhor amiga Daisy, se inclina a resolver um mistério sobre um bilionário desaparecido: quem de fato encontrá-lo ou ajudar com uma pista relevante, receberá a recompensa de 100 mil dólares. Até aí tudo bem, esse é apenas um plano de fundo do livro, pois Aza é uma adolescente que sofre de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e ansiedade, vivendo dividida entre o viver e a luta para sobreviver.

Título: Tartarugas Até Lá Embaixo (“Turtles All the Way Down”)

Ano: 2018

Autor: Jonh Green

Marcadores: 5/5

“Tartarugas Até Lá Embaixo” é o tipo de livro que cativa o leitor desde as primeiras páginas. Aqui não há espaço para apontar um fator mediano ou que não fluiu muito bem na leitura, pois o que o leitor se dispõe a ler é o acompanhamento da dolorosa luta de Aza contra ela mesma. No final do primeiro capítulo, Green trouxe uma frase que com certeza define a maior mensagem do livro: “Qualquer um pode olhar para você, mas é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu”. O que é verdade. No decorrer da leitura, se confirma um dos maiores conflitos em que Aza se encontra: ser compreendida sem julgamentos e sem magoar e incomodar a quem ama.

O foco apresentado sobre o TOC de Aza relacionou-se a como a personagem se sente no que diz respeito a bactérias e germes. Apesar da limitação – porque o transtorno não se resume no hábito de lavar as mãos e organizar coisas – foi possível me identificar muitíssimo com Aza: o medo, a insegurança, os pensamentos intrusos e indesejáveis que conseguem afetar totalmente um dia e torná-lo um desastre; a inquietação, o desespero, a incapacitação, a preocupação e muitas outras sensações provenientes de compulsões opressoras. Para quem sofre do transtorno – ou pode ter se deparado em pequenos indícios sem saber e até mesmo conhecer alguém que sofra – facilmente deverá se identificar com Aza e se encantar pela forma crua com que John Green descreveu todo o sufocamento que a personagem vive.

Assim como é uma verdade para o John Green – que sofre do transtorno desde a infância, e pelas suas palavras nos agradecimentos no livro, a obra foi uma forma dele descrever o que passa  – é também para Aza, e é aí que se encontra a maior luta da personagem – e como a mesma descreve: a sua mente é como um espiral de pensamentos que se afunilam sem parar. Nesse caminho, Green também abordou os impactos gerados para quem sofre da doença: por mais que Aza tente parecer uma pessoa normal, fazendo coisas que pessoas não extremamente ansiosas e compulsivas não fariam, se encontra ainda mais presa em si. É como estar aprisionada numa caixa sem poder explorar outros espaços; permanecer num lugar escuro sem poder dar um passo firme porque não tem luz para se permitir caminhar.

Tartarugas Até Lá Embaixo

Outro aspecto importante, foi como Green descreveu como a doença não afeta apenas quem sofre, como também as pessoas próximas, e para isso usou da figura materna de Aza (um dos maiores exemplos de quem quer ver Aza melhorar e sofre com esse desejo), sua amiga Daisy, (uma representação de quem quer compreender, mas acaba se machucando nesse trajeto, ainda mais por amar Aza) e Davis (um exemplo da dificuldade de Aza não conseguir namorar alguém). Além disso, vale somar aqui como Green abordou situações extremas e delicadas para relatar o quão difícil e perturbador é a mente vítima do transtorno – falando também sobre sensações, desconfortos e culpa – e usar de todos os arcos, por mais que parecessem manjados, em favor da trajetória de Aza. Sem deixar esquecer, típico do Green, foi acrescentar o humor devidamente combinando com o tom do livro, e desenvolver personagens sempre marcantes e carismáticos, como também o cenário conhecido de Indianápolis.

“Tartarugas Até Lá Embaixo” é um livro pessoal de John Green para o seu leitor – até mesmo para quem quiser entender como o transtorno funciona, aqui vai uma excelente recomendação -; tão belo, tão íntimo, arrebatador e envolvente que traz um retorno maduro e íntimo de Green; uma verdadeira raridade para quem ama ler. Aza se sente presa no espiral que é a sua mente; não dá para se encontrar e saber como começou, mas se compara como tartarugas empilhadas até lá embaixo: pensamentos em cima de pensamentos que se afunilam sem parar. Aza não sabe como será o amanhã ou quando poderá finalmente saber que está livre, mas entende a dificuldade e que terá que ser forte para sobreviver.

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.