Resenha: Snowden – Herói ou Traidor (2016)

Snowden

Título: Snowden: Herói ou Traidor (Snowden)

Diretor: Oliver Stone

Ano: 2016

Pipocas: 8,5/10

Em 2013, um ex-funcionário da CIA resolveu vazar vários documentos de programas de vigilância global que eram encabeçados pelos Estados Unidos e amplamente suportados por empresas de comunicação e governos europeus. Foi assim que o nome de Edward Joseph Snowden se tornou conhecido no mundo inteiro. Como o próprio título brasileiro para o filme aponta, a atitude do jovem  dividiu opiniões, já que ele violou inúmeras normas do próprio país para trazer tais informações à tona. Filme, dirigido por Oliver Stone, conta a história de quando Snowden foi dispensando do exército e entrou para a CIA, até os dias de hoje, em que o rapaz se encontra refugiado na Rússia, depois de seu passaporte ter sido rejeitado em inúmeros países.

 

O roteiro de Snowden é baseado em dois materiais: o livro biográfico Os Arquivos Snowden, do jornalista Luke Harding e a ficção biográfica Time of the Octopus, escrito por Anatoly Kucherena, o advogado russo de Snowden. Este último, ainda não possui tradução para o português. A pré-produção do filme envolveu muitos impasses para a aquisição dos direitos dessas obras. Além disso, o próprio Snowden não sabia se gostaria de ver sua vida em um filme e Stone tinha dúvidas se conseguiria fazer um filme biográfico, ou algo ficcional baseado na história do vazamento das informações.

Por fim, Ed decidiu participar da produção, embora a ele não tenha sido dada nenhuma participação criativa ou lucrativa. Joseph Gordon-Levitt foi quem interpretou o jovem hacker. Ele foi à Rússia conhecê-lo pessoalmente, o que pode ter ajudado bastante na sua atuação precisa, embora não muito trabalhosa, afinal de contas, Snowden parece uma pessoa normal, apesar de toda a controvérsia por trás de sua figura.

Um último detalhe curioso para a produção desse filme é que, os prazos ficaram realmente muito apertados, porque não houve dinheiro americano entrando no filme, mas sim alemão. Justamente por isso, o filme teve de ser filmado na Alemanha, fazendo com que Oliver Stone, inclusive, não pudesse ir ao funeral de sua mãe nos EUA, visto que ele não teria esse tempo se quisesse que as filmagens ficassem prontas.

Ed Snowden e Lindsay Mills

Este último fato, por si só, revela o quanto esse filme é importante, a despeito de sua qualidade cinematográfica (que não deixa a desejar). Snowden, ao “leakar” as informações, não apenas revelou um escândalo, mas o quão hipócritas podem ser os governantes do país mais livre do mundo. Basicamente, a ideia é que existe sim liberdade, mas ela está nas mãos de funcionários do alto escalão do governo e das agências nacionais, bem como outros extratos da sociedade diretamente ligados a essas pessoas. Não necessário dizer que a discussão é relevante e problemática de tantas formas que talvez ainda vamos descobrir com o tempo.

Voltando o olhar para o filme em si, podemos dizer que, como fio que conduz a história é personagem principal, não existem tramas secundárias que convirjam para algum lugar. Nesse aspecto, o relacionamento com Lindsay Mills (Shailene Woodley) fica um pouco romantizado demais. Entretanto, existem diálogos entre os dois que são essenciais para mostrar os posicionamentos políticos de Snowden ao longo do tempo. Ele começa de maneira bastante conservadora, logo após ser dispensado do exército, defendendo o governo Bush, até ter contato certas informações. Assim, ele acaba por depositar sua esperança na eleição de Obama e, em seguida, decepciona-se ao perceber que os programas de vigilância global haviam alcançado níveis absurdos, ao contrário do que era dito nas campanhas políticas do presidente eleito.

Edward Snowden

Por fim, a dificuldade para fazer esse filme acontecer já é um grande indicador do quão importante ele é, principalmente quando a ideia é apontar que o país mais livre do mundo tem várias ressalvas quanto à privacidade dos seus cidadãos. Discussões sobre o assunto num mundo cada vez mais globalizado e interconectado são extremamente relevantes e quanto mais pessoas tiverem acesso a esse tipo de discussão, melhor. Assim, talvez esse seja um filme que vale mais pelo que ele representa, do que pelo valor cinematográfico em si, o que não tira o mérito de sua produção, que foi suficientemente competente para transmitir o que se propôs.

 

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