Resenha | Slasher 3ª temporada – Solstício (2019): a brutalidade e as redes sociais numa sociedade tóxica

Pode não ser a série tão aguardada quanto o reboot de “Scream“, mas é inegável o fato de que “Slasher” conquistou o seu lugar no mundo do horror. Por se tratar de uma antologia, eis que temos o principal motivo para voltarmos à próxima empreitada. Quase dois anos depois desde a segunda temporada, a atração está de volta com uma temática relevante, porém atrelada ao estilo tosco que a conhecemos.

Slasher resenha

Título: Slasher: Solstício (“Slasher: Solstice“)
Ano: 2019
Direção: Adam MacDonald
Estrelas: 2,5/5

É noite do Solstício de Verão, e com muita música, fantasias, álcool, drogas e sexo, alguém vestido de preto e uma máscara peculiar de neon persegue friamente um homem até finalmente tragar sua vida. Um ano depois, a cidade está no clima para comemorar outra vinda do verão, ao mesmo tempo que é surpreendida por uma onda de assassinatos. Estaria o nomeado Druída retornando para terminar o que começou?

Não vale para todo caso, mas comumente vemos em filmes do subgênero slasher cenas de perseguições às escuras – e os estúpidos mocinhos indo para o matadouro -, porém, como a série aqui é instruída no inusitado, não poupa tempo nem lugar para trazer a presença do killer protagonizando a matança. Da mesma forma, fica nítido o nível de mortes que os demais episódios terão: perversidade ao extremo, do tipo que fará os de estômago fraco pularem a cena ou virarem o rosto.

Enquanto mais mortes acontecem, “Solstício” aproveita a era atual a qual estamos imersos para fazer um retrato de comportamentos: não importa a brutalidade inferida contra a vítima, lá estão os millennials tirando fotos, filmando e divulgando nas redes sociais. O que não é algo muito diferente da nossa realidade em que a tragédia, o assalto, uma discussão seja o que for, não merece tanta humanidade se antes não registramos tudo ao passo que contemplamos a cena pela tela do smartphone.

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“a Internet precisa saber o que eu acho”

Mas antes mesmo da Internet ser a vilã, assuntos tomam variadas proporções porque há diferentes pessoas, com suas modificadas formas de pensar, se relacionar e administrar seus acessos conectadas a todo tempo na web. Por isso, a terceira temporada de “Slasher” faz o seu maior trunfo através dos personagens, ao colocá-los tão bem como representantes da sociedade que convivemos: racista, preconceituosa, enfurecida, hipócrita, intolerante, conservadora, insensata, indiferente, antipática; todos eles moradores do complexo prédio de apartamentos que é alvo do Druída.

Mereciam essas pessoas serem punidas pela toxidade que manifestam de tantas formas? Assim, a série se posiciona em mostrar as consequências de tais ações sendo refletidas nas plataformas sociais online, expondo como a imprudência, a atitude de querer se justificar para Internet, tanto como documentar digitalmente qualquer momento íntimo termina dominando coisas comuns que poderiam ser feitas despercebidas pela net.

Nisso, a superficialidade é o que resume tantos perfis conectados, a ponto de twittar sobre uma morte como se fosse algo banal, sem nem ao menos ponderar sobre a vítima, a família, e até a gravidade do que aconteceu. O que vale é ter um pouco de atenção, curtidas e views depois de compartilhar.

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Apesar da crítica ousada, a temporada deixa a desejar na narrativa. Cada episódio se passa no ciclo de três horas, até o oitavo, todos acontecimentos no total se passam em 24 horas. No intervalo do tempo presente, flashbacks são inseridos (como de costume) a fim de explicar o que culminou nos assassinatos, e da mesma forma, para que conhecêssemos os personagens.

O problema é que tal narração não é tão engajada para que pudesse sustentar o que é projetado, tanto que é fácil ter a impressão de que tantas passagens não ocorreram num só dia devido às mudanças apresentadas. O que faz lembrar do formato periódico, são as caracterizações do elenco e os nomes dos episódios.

Não bastando isso, “Slasher” volta ao molde do seu primeiro ano ao se aventurar no exagero e num assassino meio teatral traçando vítimas pela cidade, e como não poderia de ser, que age como um fantasma, mesmo sendo detalhista nos rastros que deixa nos corpos.

Se tornando enfadonho no caminho, “Solstício” cai cada vez mais nas conveniências e obviedades, perdendo o gás da turbulenta trama que tinha arquitetado — nisso, nem a revelação do Druída encontra seu ápice, já que era sabido sua identidade antes da reta final da série. Com o público e o buzz aumentando em torno da popularização do show, é certo que veremos muito mais de “Slasher” numa possível quarta temporada. Tudo depende do que o criador tem na manga.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.