Resenha | Scream – Resurrection (2019): ressuscitou o mais do mesmo

Lá na primeira temporada da série “Scream”, em 2015, nos pequenos momentos de metalinguagem que a versão da MTV conseguiu passear, o personagem Noah (John Karna) falou algo interessante: apesar de já termos muitas séries de horror, fazer uma envolvendo o slasher seria um pouco complicado, uma vez que séries de TV precisam esticar um poucos as coisas. A partir daí, o desafio para o show estava lançado, e teria que driblar essa própria verdade para estabelecer o seu espaço. Quatro anos depois, agora na terceira temporada, com um reboot batizado de “Scream: Resurrection” prova que o show continua aquém do espírito da franquia de filmes na qual é baseada.

Scream - Resurection crítica

Título: Scream: Resurrection
Ano: 2019
Criação: Brett Mattews
Estrelas: 1,5/5

Deion Elliott (RJ Cyler) é um grande jogador de futebol prestes a decolar a carreira na faculdade, no entanto, acontecimentos do seu passado voltam a assombrá-lo na pele de um assassino mascarado que está determinado a ameaçar sua vida e de seus amigos. 

Hello, Deion, qual o seu filme de terror favorito? quero saber como você é por dentro!

O porquê da franquia “Pânico” ser rentável e reconhecida começou lá em 1996. Numa era em que a mesmice do subgênero não estava chamando mais tanta atenção, o longa dirigido por Wes Craven e roteirizado por Kevin Williamson pegou todo o histórico por trás de vários títulos e criou um conceito para ser trabalhado: a metalinguagem, a fórmula contrariando uma fórmula existente no mundo de serial killers perseguindo vítimas estereotipadas. Parecia previsível, mas foi proposital mostrar como as películas acompanhadas por anos tinham um padrão desgastado. Assim, o icônico Ghostface ganhou os holofotes, cativou o público e fez o neoslasher ser a nova moda.

scream resurection
Deion, o primeiro protagonista masculino da história de “Scream”.

Por isso, trazer de volta o visual da máscara de fantasma levantou as expectativas de que teríamos algo crível, nessa empreitada de apenas seis episódios exibidos num evento de três noites. A espera de longos dois anos não compensa, e aqui estamos nós, reunidos por um espetáculo frouxo e trama manjada. 

O que mais implica sobre essa versão televisiva de “Scream” é o fato de se inspirar numa quadrilogia admirável, sendo assim, fazendo com que o espectador espere que a linguagem da franquia seja aplicada, e o melhor, como essa tarefa será feita. Apesar de muito se especular sobre série, é totalmente frustrante chegar num reboot e os roteiristas não tirarem o pé do raso para mergulharem num ponto mais revigorante, pois foi também o que os filmes fizeram para o subgenêro.

“Scream: The TV Series” até costurou seu conceito, mas não foi muito longe na primeira temporada, se enrolou ainda mais na segunda, e pela terceira vez o show cava o próprio buraco. A abertura desse reinício pode ser considerada a mais – única, na verdade – confusa e mal pensada somando os filmes e as antigas alternativas. Primeiro, começa com uma refilmagem da marcante abertura de 13 minutos envolvendo Drew Barrymore, no papel de Casey Cooper: mesmo que em dois minutos, a cena conseguiu ser debochada e apontar para um caminho empolgante, mas logo em seguida, direcionou para a narrativa que realmente alavancaria o enredo aqui. 

Scream - resucrection resenha
Becky (Paris Jackson) na abertura da temporada.

HELLO, VOCÊ GOSTA DE SPOILERS? SENÃO, PULE PARA O PRÓXIMO PARÁGRAFO.

O problema de fato foi ter duas ideias e não tê-las aproveitado de um jeito mais elaborado. O início foi brutal, mas mostrar uma personagem usando um modelo de Iphone num período e 8 anos depois novos personagens usarem também não parece coeso. Assim, a introdução que acompanha o passado do protagonista Deion poderia ter sido apresentada e depois a cômica cena com a Becky para assim darmos as boas-vindas ao Ghostface em Atlanta. A homenagem a Casey divertiu, mas, comparado aos próximos episódios, se assemelha a um caso isolado do rumo desastroso que a história toma.

FIM DOS SPOILERS.

Diante do episódio de estreia, foi possível perceber que “Resurrection” estava mais empenhado em explorar a tão magnífica metalinguagem vista nos filmes, e para isso, assim como Randy (Jamie Kennedy) foi conhecedor dos slashers movies nos dois primeiros longas de “Pânico”, Beth (Giorgia Whigham) é afiada para falar dos estereótipos e das regras que regem o subgênero. 

Bem legal, de fato, e a personagem promoveu diálogos interessantes, mas ao mesmo tempo que a prolixidade rendia, o reboot abandonava a abordagem para voltar pro lugar que a trama de Brandon James cansou de enrolar até manter quase todo o elenco no final da segunda temporada: o joguinho de suspeitas.  

Scream resurection

Optar por esse caminho que outras séries já apelaram não foi o pior, ao menos “Pretty Little Liars”, “Harper’s Island – O Mistério da Ilha” e até nos perrengues de Emma Duval (Willa Fitzgerald) souberam criar tensão, aqui a coisa é tão óbvia que é inevitável não se irritar com o quanto o texto abusa da previsibilidade como se fosse genial – precisava mesmo forçar para dizer que qualquer um ali poderia ser o assassino(a)?

O mesmo se sucede para as famosas cenas de perseguições, a corrida de gato e rato do assassino e a vítima. De maneira nenhuma o Ghostface é o ponto fraco aqui – e ter a dublagem de Roger L. Jackson foi intenso -, mas é nítido que o roteiro enfraqueceu o potencial dos personagens e das possíveis cenas que tirariam a narrativa do tédio. Ora temos sequências banhadas na zombaria, outras à medida que despontam, rapidamente terminam – sem falar as que rolaram em off screen -, e as que de fato se relevam, são poucas: em troca da tensão, o enredo se resume na cultura de adivinhar o rosto de quem está atrás da máscara – os envolvidos esqueceram que isso era a última cartada dos filmes, nada de migalhas espalhadas para cogitações.

scream
acertaram na captura das cenas, mas não no roteiro

O quadro se agrava quando paramos para ignorar que a série se inspira numa franquia de filmes e tentamos entender o seu potencial. O que resta é a comprovação da construção aqui ser feita em arcos repetitivos de tramas vizinhas, e em vez do slasher ser esticado para uma produção contida, contextualizando acerca do reboot, o que se estende é um suspense nada empolgante subestimando o telespectador.

Sidney Prescott (Neve Campbell) sempre foi uma personagem fora da curva. Ousada e sombria, não media esforços para lutar contra o Ghostface, e aliás, todos os momentos de cara a cara entre a final girl e o mascarado elevavam o nível da trama. Nas telinhas, o mesmo não pode se dizer sobre Emma ou Deion. Ambos nos embates que tiveram contra o killler foram rasos: se não era alguma alucinação, acontecia um ataque falso que em seguida era cortado pela edição do episódio.

A falta de cuidado com os personagens não se limita apenas ao protagonista. Tivemos aqui um leque de pessoas interessantes tendo suas interações trabalhadas – Beth, Kym (Keke Palmer) forçando saber dos slashers, Manny (Giullian Yao Gioiello) e Amir (CJ Walace) como os destaques – para que nos importássemos com as mortes. Mas, de novo, todos tiveram seus ideais rebaixados com a premissa de que coincidências resultam num suspense habilidoso. 

Com isso, “Resurrection” se perde fácil ao abrir mão do terror em favor da superficialidade de eliminar suspeitas – sendo que não demora tanto para imaginar quem está por trás das matanças antes do grande final – e não há reviravoltas que salvem a história do fiasco clichê que insiste em ser.

Por outro lado, a mudança de showrunners e produtores para a temporada apostou numa diversidade primorosa que até então a franquia nos filmes, nem as temporadas antecessoras, fizeram: investir num protagonismo negro. Da mesma forma, seguiu para os coadjuvantes e diferentes personagens que surgem no decorrer da trama. Feito esse que podemos ver Jordan Peele explorar cada vez, mas que não era possível ver acontecer com tanta frequência no terror ou em qualquer outro gênero – senão para alívio cômico ou com participações secundárias.

Pânico

Assim como a aposta no elenco, o trabalho técnico é outro aspecto que impressiona e deu identidade para a temporada: um filtro azul sombrio predomina na fotografia, de igual modo, a iluminação corrobora para um efeito que se destaca – e o episódio final é um excelente exemplo disso, ao alternar entre luzes, cenários escuros, cores azuis e amarelas.

A balança já foi posta, e os pesos se equilibram entre a trama que não acertou o tom e o peso dos que acreditam que o tempo de espera da temporada valeu a pena. Seja como for, seria “Scream” capaz de levantar da cova para mais uma investida ou permaneceria cavando e se enterraria de vez? A maior essência sobre filmes que acertaram de fato é que reboot é uma droga. Ela ressurgiu, mas se manteve na superfície.


Gostou do texto? Gosta de escrever também? Seja um colaborador do PontoJão! Entre em contato conosco pelo Twitter, pelo grupo do Telegram ou mande um e-mail para contato@pontojao.com.br

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.