Resenha: Santa Clarita Diet (2018) em uma segunda temporada deliciosa

“Santa Clarita Diet” é uma série completamente racional dentro da sua insanidade. A premissa é simples: Sheila (Drew Barrymore) estava presa em uma vida forjada em aparências, superficial e frustrada, até que morre e finalmente começa a viver. Não fosse isso o suficiente, sua nova energia e vivacidade despertam o desejo das pessoas ao redor seguirem seu exemplo e buscarem renovação para si mesmas. Tudo seria equivalente a uma boa série de ioga se Sheila não tivesse se tornado um zumbi canibal depois da sua morte, agora precisando do suporte de seu marido e de sua filha para conseguir comida (vulgo “gente ruim”) sem incriminar a ela mesma e sua família. É uma premissa bizarra e a série sabe disso, de forma que a segunda temporada de Santa Clarita Diet abraça tudo o que tem de ridículo e, mantendo sua crítica, dá um passo além no absurdo.

segunda temporada de "Santa Clarita Diet"

O primeiro ano da série terminou com Sheila acorrentada no porão de sua casa para impedi-la de matar pessoas compulsivamente, enquanto seu marido Joel (Timothy Oliphant) era internado em uma clínica psiquiátrica – por motivos óbvios. Logo nos primeiros episódios, todo isso é jogado de lado, e a série logo se envereda em várias tramas paralelas, passando a investigar a origem da metamorfose (?) de Sheila, acionando desdobramentos em relação às investigações policiais e mesmo incluindo um grupo dedicado a exterminar a praga zumbi e sua fonte – e isso tudo em somente dez episódios. Se a primeira temporada focou no beabá da transformação de sua protagonista, a segunda abriu dezenas de portas para a série escolher por onde seguir no futuro.

E isso é o que destaca esta parte da história em relação à sua antecessora. A série, por mais que mostrasse a que veio, parecia receosa em suas decisões – o que é completamente plausível, ou você consegue imaginar como foi propor fazer um programa com essa premissa? Agora, provavelmente bem engatilhada dentro da Netflix, a segunda temporada de “Santa Clarita Diet” não teme a ninguém enquanto coloca cabeças falantes, vômitos com patas e outras anomalias em cena. Nesse sentido, esta temporada claramente se apresenta como uma ponte para o futuro do programa, testando por onde seguir de agora em diante.

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Se o gore nojento e sua história absurda decoram a série, é seu tom sarcástico constante que dá base para tudo o que o show quer fazer. É uma relação de justificar, de certa forma, o que ela está apresentando: certo, de fato a Drew Barrymore acabou de morder e arrancar um pedaço da garganta de uma pessoa – ou duas -, mas isso é um lembrete de que ao se tornar menos humana, ela de alguma forma se tornou mais gente do que os que estão ao seu redor. Isso, inclusive, é elevado de subtexto a texto dentro da trama: Sheila fala diretamente que, dentro do seu código de conduta torpe, ela pelo menos consegue ser ela mesma, enquanto todos ao seu redor escondem suas identidades, sexualidades e desejos sob uma máscara hipócrita de pretensa “normalidade”.

O peso da normalidade impõe a todos nós uma dificuldade de conciliar o que precisamos e o que queremos com o que se espera de nós. Não só no lado tradicional; a juventude viajante de Instagram, eternamente na estrada e jamais tendo um dia tedioso, estabelece em seu discurso de “para viver tudo o que quiser basta se empenhar” a mesma opressão que os valores tradicionais do faculdade-bom-emprego-casamento forçam goelas abaixo. Para que atendamos as expectativas, nos encaixamos em padrões absurdos de graduações indesejadas, trânsitos intermináveis e casamentos infelizes para que o vazio posterior seja preenchido com um “pelo menos eu me encaixo” – que é um preenchimento tão satisfatório quanto comer uma folha de alface em uma churrascaria por rodízio. E tão insosso quanto.

segunda temporada de Santa Clarita Diet

Para fins narrativos, Sheila rejeita radicalmente a normalidade – e, talvez, até sua humanidade – na tentativa de abraçar quem realmente é. O ponto não é o canibalismo, visto que a série continua a fazer com que seus personagens mostrem seu repulso a ela, de forma que qualquer acusação de apologia é inócua e sem sentido. O foco reside na certeza de que não há nada mais humano do que rejeitar padrões para buscar a construção de sua própria identidade, e é isso que a segunda temporada de “Santa Clarita Diet” nos lembra, tanto dentro de sua história quanto com os elementos ridículos e divertidos que se propôs a abordar, sugando com sucesso até o tutano dos ossos de sua premissa absurda.

 


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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.