Resenha | Riverdale – 3ª Temporada: abriu mão de algo contido em prol da enrolação

Já é notório para o público a essa altura do campeonato que “Riverdale” é o nome de uma cidade que dita as próprias regras e, como qualquer outra, tem uma história. Se no primeiro ano do show tivemos um conteúdo teen primoroso depois de algum tempo na televisão, a segunda fase da série deu uma derrapada que pôs as boas coisas em dúvida. No final da temporada atual, ficou claro que a queridinha da CW está longe de ter esse quadro preocupante alterado, uma vez que prefere se dispersar em tantas coisas do que ser formidável.

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Título: Riverdale
Ano: 2017 –
Criação: Roberto Aguirre-Sacasa
Estrelas: 1,5/5

Os episódios

Iniciando a partir da complicada situação em que o protagonista Archie (KJ Apa) se viu anteriormente, adentramos sabendo que esse arco não se sustentaria a ponto de manter a leva de 22 episódios interessante. Sabíamos também que finalmente tomaram a decisão de trazer certos personagens para chacoalhar o vale do rio, e que precisariam lidar com algumas questões que não foram exploradas.

Uma dessas questões foi a introdução da Fazenda. Por muito tempo esperava-se que essa seria uma importante sacada para dar uma engatada na série, mas aqui vai um dos exemplos problemáticos deste terceiro ano: permanecer no raso, repetindo resoluções sem ter alguma perspectiva de ir direto ao ponto. E, claro, isso se deve ao fato de os roteiristas se atentarem ao fato de que precisariam de material para alcançar a encomenda completa da temporada.

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Cena do 3×13 dando o vislumbre da Fazenda.

Agora a pergunta é, precisávamos mesma desta quantidade de episódios? Na segunda temporada ficou evidente que não, e aqui ficou mais que comprovado que isso só atrapalhou o desenvolvimento crível do que deveria ser o auge de “Riverdale”. O pior é a prova de que, depois de assistir tudo, a afobação em produzir tantos episódios se mostra injustificável uma vez que tal formato não funciona como antes.

O que se torna incontestável é que deixando de adotar esse “padrão”, evitaria-se colocar a coesão da história a mercê da confusão imposta com tantas coisas sendo trabalhadas ao mesmo tempo. Dentro disso, podemos citar o empecilho que a série empurrou para a audiência, sem perceber que era uma cilada. O que quero dizer é que, nesta escolha, vimos por várias vezes uma turbulência de eventos começar num episódio e nele mesmo finalizar. O resultado nas continuações fez parecer que os personagens não tiveram os reais impactos pelo que passaram, visto em seguida a nova aura em que se encontravam.

Os personagens

Vejamos: Não é segredo para ninguém que Archie não é um protagonista querido, e vê-lo se aventurar em arcos medíocres não ajudou em nada. Primeiro a passagem dele na prisão e foi lá mesmo que encabeçaram seu novo período como boxeador. Do mesmo modo, em menos de cinco episódios o cara tinha se tornado profissional. Como se não bastasse resolver as questões rapidamente, ainda teve a mudança brusca, sendo que outrora ele tinha o sonho de ser cantor.

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Archie no 3×15 se preparando para uma luta.

Depois, ao acreditar que Hiram Lodge (Mark Consuelos) nunca iria deixá-lo em paz, decide ir embora da cidade, abandonando juntamente o namoro com Veronica (Camila Mendes). Nessa trajetória acirrada, quase foi morto por um urso, e na sua recuperação teve o encontro psicológico que o fez entender o quadro em que estava: não era sua culpa e sim do sogro, que causou caos em tudo que lhe dizia respeito. Aí vem algo que ainda não faz sentido, ou seja, qual o problema entre os dois. Sério que as intrigas de ódio se resumem num intuito de um pai não querer um homem envolvido com a filha?

Assim, essa birra continuou chata de acompanhar. Não bastando a etapa de lutador, que rendeu vários acréscimos entediantes, ainda inventaram de apelar para romances bestas sem fundamentos. Ela mesma, Josie (Ashleigh Murray). Sejamos sinceros, ainda bem que a cantora foi soprada para outra série do canal (o segundo spin-off, depois de “O Mundo Sombrio de Sabrina“), pois não dava mais para aguentar o quão desmotivada os escritores a transformaram e não adiantou muito encaixá-la com um par romântico.

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Josie soltando a voz no 3×3.

Felizmente, nem tudo estava perdido para os pecadores e olhando para a jovem empreendedora Roni é possível perceber isso. Em um dos seus maiores ensejos, foi de extrema importância vê-la determinada e voraz lutar para tirar o poder do pai, eliminar o domínio dele sobre mãe e recuperar o real significado da família que ele sempre falava ser essencial na vida de uma pessoa. Ainda que nesse trajeto os produtores tenham a inserido em trechos opacos com Archie, ela concluiu seu objetivo sabendo que muito lhe renderá futuramente.

Dessa maneira, o show pôde promover outros horizontes para Roni e também para outros nomes do elenco regular que, até então, não tiveram momentos relevantes. Nesse caso, foram muito bem aceitas as partes em que ela e Reggie (Charles Melton) contracenaram e passaram por maus bocados juntos. Apesar disso, a conclusão foi amarga e poderá valer mais mesmice romântica.

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Reggie e Roni no 3×13.

Voltando para a decadência dos principais pecadores da cidadezinha, Alice Cooper (Mädchen Amick) e o misterioso enredo da Fazenda não vingaram. Como dito no início deste texto, os autores de cultos pagãos pareciam ser peças preciosas do quebra-cabeça, mas foram desenvolvidos no raso e em especulações que só faziam enrolar. Quando na reta final a coisa se mostrou realmente chocante, terminamos a temporada sem muitas respostas e com “Riverdale” repetindo falhas que insistem consideravelmente em manter. Essa questão da fazenda foi levantada desde o ano antecessor, e nos despedimos desse com a certeza que teremos mais. A incógnita que fica é: empurrarão com a barriga de novo?

O mais decepcionante foi não terem inserido um cenário que ilustrasse com plenitude a bizarrice dos cultos, sendo Alice uma das mais afetadas. Aliás, não sendo pouco a perda de tempo, revelaram por fim que toda a participação dela com o povo da libertação era, na realidade, um meio para outros propósitos. Não combinou com o que foi visto e lá vamos nós (para quem tiver coragem de voltar na fall season) esperar que expliquem direitinho.

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Betty no 3×2.

Mais mistérios e inconsistências de Riverdale

Além dessa bagunça, a temporada de Riverdale ainda teve o mistério do Rei Gárgula para movimentar a trama, o que envolveu o casal Betty Cooper (Lili Reinhart) e Jughead Jones (Cole Sprouse).

Se aprofundando mais com a atmosfera sobrenatural, nunca a cidade do pecado foi tão longe para evidenciar que não estava brincando. O que um jogo de tabuleiro medieval e de tendências maléficas envolvendo demônios, drogas, venenos, alienação e o nome de um temente desconhecido rei poderia resultar? O sentido do jogo Grifos e Gárgulas (G&G) se tratava de uma metáfora da cidade e os seus habitantes, e quem estava por trás da identidade do rei, arquitetou tudo para um acerto de contas contra o lugar que lhe causou tanto mal. Parece tentador, mas em Riverdale é sinônimo de material mal executado.

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Rei Gárgula no 3×20, numa cena em que a série entregou o que tinha de melhor.

A parte boa é que Betty e Jug foram os jovens detetives que a gente bem conhece, mas até o joguinho mostrar a que veio foram muitos furos para estabelecer como funcionava (como Archie tendo acesso a uma partida enquanto alucinava, podia isso?!)

Partindo para a reta final, foi um espetáculo de emoções e de batalha para muitos e foi ali que chegamos no ápice em que tudo fez sentido. O problema foi a maneira didática com que tudo soou, sem falar na obviedade em colocar o quarteto primordial para as cenas. Já que os pais (total de sete, lá no início da temporada no episódio de flashback) dos jovens foram os veteranos do jogo quando eram adolescentes, nada mais justo do que prestar a última fase com os respectivos filhos e não apenas quatro deles.

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Betty, Roni e Jug no episódio 22.

Com esse final, não restaram dúvidas de o quanto o número de episódios atrapalhou um desenvolvimento mais contido da temporada, em que os personagens não ficariam deslocados, em que arcos aleatórios e esquecíveis seriam trabalhados apenas para bater meta. Assim as coisas seriam melhor conectadas, sem as conveniências regendo os eventos, sem aquela caricatura de quando os personagens percebem tudo que estava na cara antes e começam a vomitar seus conhecimentos.

Se em algum momento pensassem em explorar as ideias com mais firmeza, sem estenderem os limites, figuras como Kevin (Casey Cott) não teria um enredo LGBT iniciado para depois ser jogado de lado por inúmeras inconsistências do roteiro, nem tampouco seria chamado por melhor amigo de Betty quando não vimos indícios dessa amizade desde a primeira temporada. Nem Polly Cooper (Tiera Skovbye) apareceria somente como membro que sofreu lavagem cerebral da Fazenda; a ex-prefeita que virou advogada Sierra McCoy (Robin Givens) não surgiria em casos oportunos, e muito menos o antigo xerife se tornaria professor de boxe, é como se reciclassem personagens multitarefas para manter no elenco. Isso tudo é por que a cidade é miserável e pecadora, e qualquer situação – até o filho ajudar o atual xerife nas investigações – pode acontecer?

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Kevin no 3×21.

A terceira temporada de “Riverdale” teve o ano mais irregular de toda a série, finalizando algumas tramas e mantendo outras, sinalizou nos últimos segundos um cliffhanger diferente para o futuro. No mais, para quem tiver paciência, que tenha mais coerência e menos episódios.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.