Resenha | Quando os Anjos Dormem (2018) – quem nos protege?

“Tantas pessoas maldosas no mundo, e a desgraça acontece logo com um pai de família”. Talvez, em algum acontecimento trágico com uma pessoa de boa fé, essa linha de pensamento tenha sido proferida por alguém inconformado com o ocorrido. E a reflexão que desce é como não controlamos o nosso futuro, mas podemos atentar para o que semeamos no presente. Aparentemente afiado, “Quando os Anjos Dormem” instiga a pensarmos quando estamos envoltos em situações fora do controle, mas perde a força com a execução enfadonha e repetitiva.

Quando os Anjos Dormem resenha

Título: Quando os Anjos Dormem (“Cuando los Ángeles Durmen”)
Ano: 2018
Direção: Gonzalo Bendala
Pipocas: 5/10

“Sou um cidadão de bem, trabalho, não roubo, mato, ou faço qualquer outro mal a alguém”. Perfis assim são comuns – e daí mesmo surge a atitude de furar a fila de pagamento de boleto – do mesmo modo que é para Germán (Julián Villagrán), um homem tímido que não consegue se opor ao tratamento rude que recebe dos colegas, e que depois de um dia cansativo de expediente, precisa chegar o quanto antes para o aniversário da filha Estela (Sira Alonso). O que veio para interromper esse simples objetivo foi Germán ter atropelado a jovem Gloria (Asia Ortega), impulsionando uma noite de caos para o moço íntegro.

Sabe quando você imagina que a história se sucederá de um jeito, mas ela se mostra o oposto de maneira totalmente decepcionante? Bem, é o que aconteceu aqui. Misturando drama e suspense, o longa abre nos introduzindo ao protagonista desse vendaval. Germán realmente é gente como a gente, e é fácil sua situação e personalidade passarem empatia e levar as apostas para que tudo ocorra bem.

quando os anjos dormem crítica

O chute no estômago é quando se levanta o questionamento sobre aquilo que pregamos ser e dizemos nunca fazer, e quem é a pessoa de tantas virtudes no momento em que o desespero toma todo o corpo e consome a mente. O pai da pequena Estela apenas queria chegar em casa, mas não estava disposto a aceitar e encarar as consequências do que fez, mesmo que tenha sido um acidente. Isto porque não queria deturpar a boa imagem que tem carregado há tantos anos.

A decadência, o desconstruir da pessoa “incorruptível” que faz de tudo para se safar, não importaria tanto se no final alcançasse a consolação de que tudo ficaria bem e a certeza de que poderia tocar a vida como era antes: um bom executivo, bom pai, e marido que precisa melhorar com a esposa. 

“Quando os Anjos Dormem” até tinha um contexto provocativo estabelecido, mas Bendala fez o infortúnio de dar voltas no mesmo lugar, estendendo a narrativa em escolhas estúpidas dos personagens – o cúmulo de correr perigo, com o celular em mãos e não ligar para polícia –  quando poderiam alternar para um caminho inteligente e partir para a direção que estava claro que seria seguida. Assim, o suspense habilidoso já estava desgastado e ofuscado por uma série de mesmices da própria trama.

Mesmo com todo o tédio que foi acompanhar essa história, ao menos o diretor conseguiu manter a sua última questão a ser permeada na mente da audiência: o sentimento de revolta perante o triunfo da impunidade. A coisa foi previsível, seguiu por um caminho entediante, mas encontrou o seu espaço.

Se os anjos dormem, quem nos protege? Deixamos de ser nós mesmos e toda a normalidade vai por água abaixo? Por fim, os anjos poderão ficar acordados e o espectador dormindo depois do efeito sonífero dessa investida.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.