Resenha | Projeto Gemini (2019): o clichê e a vanguarda não se combinam

Toda experiência no cinema é única. Levar a pipoca, o refrigerante, as guloseimas e lanches gordurosos, são detalhes que acabam somando para o filme que iremos assistir. Transportar as expectativas junto à película escolhida pode muito bem influenciar na opinião final, mas, há algo de valioso em pagar para ver na tela grande sem muito preparo e em troca ficar perplexo. A nova investida de Ang Lee, “Projeto Gemini”, traz para os amantes da Sétima Arte um formato inédito para ampliar a análise cinematográfica, contudo, tal formato precisa ser lapidado para ser melhor aceito.

Título: Projeto Gemini (“Gemini Man”)
Ano: 2019
Direção: Ang Lee
Pipocas: 6/10

Na história que traz um elenco de peso, Will Smith vive Henry Brogan, o melhor assassino profissional do mundo, mas que vê sua cabeça ameaçada pela antiga agência de defesa para a qual trabalhava, quando decide se aposentar. Além de ter a vida por um fio, ao mesmo tempo em  que tenta sobreviver, Henry descobre que possui um clone. Envolto num segredo obscuro, o agente implacável terá de desvendar a terrível trama para se manter vivo.

Pela descrição, perceber-se que “Projeto Gemini” não se trata de algo inovador, e que é comum esbarrarmos em enredos com tais inspirações. Mas a curiosidade está exatamente nisso. Em nenhum momento na divulgação foi omitida a trama policial de um importante agente sendo caçado por alguém idêntico a ele na sua forma mais jovem; as maiores apostas foram feitas nos materiais de ponta usados para a filmagem do filme, e o que isso proporcionaria à audiência.

Hancock persegue Robert Neville.

Filmado em extrema qualidade (na maior taxa de frames, em 120), realizado por uma câmera 3D nativa (rejeitando a conversão depois de uma gravação convencional) “Gemini Man” (no original) oferece para apreciação da computação o 3D+ exibido a 60 quadros por segundos (um up para os 24 normalmente oferecidos). O resultado se mostra empolgante durante as cenas de ação, altamente intensas, conseguem alcançar o propósito de mais imersão e injetar adrenalina para o espectador na poltrona. Ainda assim, para um público não familiarizado com os 60 FPS, enquanto rodar os jogos nessa quantidade de frames é sinônimo de melhor fluidez, aqui as seletas sequências explosivas parecem que foram avançadas na edição.

Não só pelas cenas impetuosas, o 3D+ valeu também para aproveitarmos a captura de movimento e rejuvenescimento usada em Will Smith. O cuidado para transmitir naturalidade e fisgar a credibilidade de que há duas pessoas idênticas contracenando é notável e Ang Lee seguiu com planos fechados arrancando o máximo das expressões faciais do protagonista. Apesar disso, não foge aos olhos quando a captura derrapa com o abrir e fechar de boca durante os diálogos.

eu quando tinha 25 anos.

Indo além da beleza dos quadros, “Projeto Gemini” faz um bom proveito do elenco. Inserindo um humor que acerta no timing, o retrato que fica ao juntar Mary Elizabeth Winstead, Benedict Wong e Smith é como de uma equipe num típico filme de espionagem, o que funciona. Mas quem se sobressai de verdade é Mary. Vinda de papéis memoráveis em obras dramáticas e de suspense, a atriz se apresentou voraz e poderosa nas cenas de ação. Com bala na agulha e treinamento aguçado, sua personagem poderia ser mais primorosa, se não estivesse apenas como suporte ao protagonista.

Mesmo se deslocando em diferentes ambientações para explorar a ação, o longa detém uma subtrama interessante para falar de humanidade. A ideia de trazer um clone como um precursor da trama foi uma alegórica conversa sobre o que constitui nossas virtudes. Foi como sentar na frente do espelho e confrontar nossas escolhas e características mais pertinentes, escavar e encontrar as raízes de traumas e arrependimentos e nos questionar: o que ainda nos faz humanos? Novidade zero, contudo, funciona.

Por mais imbatíveis e fortes que tentemos parecer, não ter emoções e a ausência da dor é negar a humanidade que poderíamos praticar. É como um machucado dolorido: magoá-lo faz lembrar de poder sentir alguma coisa. A todo momento, “Projeto Gemini” não deixa de desenvolver seu arco dramático com um texto repleto de frases de efeitos, mas que não deixa de funcionar para a proposta manjada sobre o que nos faz humanos.

Assim, essa mais nova façanha de Ang Lee entrega um resultado frenético de ação, esbanjado em 60 FPS e um 3D vantajoso, que dentro disso, trabalhou com tantos recortes de tramas vizinhas, que mais parece ter selecionado uma história pré-pronta para inserir o esquema de clonagem.

E no mais comovente relato sobre a humanidade, foi como ter a última colagem para esse retrato de coisas tão comuns para  o gênero sci-fi. O que valeu em “Projeto Gemini”, foi a demonstração divertida do que teremos para o 3D daqui para frente.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.