Resenha: Plano 9 do Espaço Sideral (1959)

-…um disco voador? Daqueles lá de cima?
-Sim, ou isso ou algo parecido.

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Título: Plano 9 do Espaço Sideral (“Plan 9 From Outer Space”)

Diretor: Ed Wood

Ano: 1959

Pipocas: 10/10 ou 0/10, você é quem sabe

Se Michael Rennie ficou doente n'”O Dia Em Que a Terra Parou“, foi provavelmente por ter visto “Plano 9 do Espaço Sideral”. Considerado por muitos o pior filme já feito, “Plano 9” é o vovô dos filmes trash, juntando muitos elementos que se consagrariam no gênero: diálogos ridículos, cheio de falhas de continuidade e com uma participação especial de peso.

Bem vindos ao pior filme de todos os feitos. Você vai adorar.

Isso se você gosta de filme trash – e quem não gosta? Na trama deste pináculo da Sétima Arte, alienígenas descem sobre a Terra para impedir que os seres humanos construam a maior de todas as armas: a bomba de Solanita, que teria poder para explodir o sol – e, assim, “todo o universo” (não. O universo não funciona assim, parça). Para tentar impedi-los, o piloto de aviões comerciais Jeff Trent (Gregory Walcott), o coronel Edwards (Tom Keene) e o tenente Harper (Duke Moore) tentarão impedir o plano dos invasores. Para isso, precisarão enfrentar um exército (de três pessoas) de zumbis e vampiros (?) ressuscitados pelos aliens.

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O filme é ruim de fora a fora, mas vamos começar com o roteiro. Já na narração de abertura (comum em filmes do gênero na época), já tem coisa estranha: o narrador, Criswell, diz:

“…e lembrem-se, meus amigos, eventos assim lhes afetarão no futuro. Vocês se interessam no desconhecido, no misterioso, no inexplicável. É por isso que vocês estão aqui. E agora, pela primeira vez, nós lhes trazemos a história completa do que houve naquele fatídico dia.”

E é isso. Você já entra no filme sem saber se é passado, futuro ou se o narrador está em uma instituição psiquiátrica aguardando a chegada dos remédios dele. Mas essa não é a pior parte.

A chegada dos alienígenas é por eles justificada ao dizerem que os seres humanos estão progredindo assustadoramente na construção de armas, citando desde a granada de mão até a bomba de hidrogênio, “capaz de explodir o próprio ar” (releva a inconsistência científica, eles não são daqui). Então Eros (interpretado pelo ator Dudley Manlove – talvez o nome mais homoerótico da história), um dos alienígenas invasores, continua sua explicação e diz que o próximo passo óbvio para a raça humana é a construção de uma bomba que exploda as partículas solares – uma bomba que eles chamam de Solanita. Quando o piloto Jeff Trent questiona o fato, visto que as partículas do sol nem mesmo são visíveis, Eros se dedica a explicar toda a ciência e como fazer a bomba acontecer.

Em suma, ele dá o conhecimento para a fabricação da bomba que, segundo ele, “explodiria o sol” e “todo o universo” para um civil e dois militares que não tinham ideia de como fazer isso caso ele não explicasse o passo-a-passo.

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Mas continuemos, meus amigos! Os alienígenas invadem a Terra porque querem que os humanos reconheçam sua existência e superioridade, de forma a aceitarem o comando de parar de construir novas armas. Só que ao mesmo tempo que eles querem ser vistos, eles matam todas as testemunhas de suas aparições “por segurança” – enquanto mandam várias naves sobrevoarem Hollywood e adjacências (discrição é a palavra-chave aqui).

Como bem sabemos, no entanto, os planos dos alienígenas seriam rapidamente frustrados pelas forças militares dos grandiosos Estados Unidos da América. Para conseguir fazer frente ao poderio militar da ‘Murica, os invasores brilhantes resolvem ativar o famoso “Plano 9”, hábil e convenientemente descrito pelo Comandante (“The Ruler”, no original) para (o público?) seu lacaio – que acabou de propor o plano.

“Plano 9? Ah, sim. O Plano 9, aquele que lida com a ressurreição dos mortos. Raios de eletrodos de longa distância disparados nas glândulas pineal e pituitária dos que morreram recentemente.”

Que plano fantástico. Sério. Me leva até mesmo a perguntar quais seriam os oito planos anteriores que falharam. De qualquer forma, o Plano 9 é levado a cabo, ressuscitando primeiro a esposa do chamado Homem Velho (interpretada pela atriz Vampira), que volta como um zumbi, e depois o próprio Homem Velho, interpretado pelo mestre do terror Bela Lugosi, que volta como um… Vampiro.

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Ô, que terror!

Isso é explicável, no entanto; Lugosi vinha trabalhando em diversos filmes com Ed Wood no ano anterior à sua morte. Quando o ator de fato morreu, os projetos foram arquivados… Mas não para sempre. Ed Wood recuperou as filmagens, que simplesmente não têm nada a ver com o filme, para colocar em “Plano 9”. Então posteriormente os alienígenas ressuscitam outro morto, de forma que temos dois zumbis e um vampiro – com direito a virada dramática de capa – no exército deles.

E é literalmente esse o exército. Em um dado momento do filme, Eros se aproxima do Comandante e diz que está tendo dificuldades com o Plano 9, ao que o Comandante responde que, embora ele tenha ressuscitado com sucesso três humanos (?!), aparentemente eles precisariam de mais do que isso para que sua empreitada (!?) fosse concluída.

Se eu fosse listar todos os diálogos toscos ou bizarros do filme, eu ia acabar transcrevendo o roteiro, então passemos à produção em si. O filme é mais conhecido por seus erros: microfones visíveis na tela, atores lendo do roteiro em frente às câmeras, diálogos desconexos e muitos – muitos! – erros de continuidade.

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Muitas dessas falhas em cena são explicadas pelo fato de que o filme foi reproduzido e distribuído, posteriormente, num formato diferente do que Ed Wood o filmou. No formato original planejado, o equipamento não apareceria.

A história da ruindade do filme de Ed Wood se espalhou nos anos 80, com diversos críticos colocando-o no topo de suas listas de “Pior Filme de Todos os Tempos”, e se popularizou ainda mais depois do filme biográfico dirigido por Tim Burton e (obviamente) estrelado por Johnny Depp sobre o making of de “Plano 9”. A fama se alastrou e, como bem sabemos, para que um filme ruim se torne um clássico cult, ele só precisa ser bastante ruim.

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Será que algum diretor vai fazer algo semelhante e contar como diabos Tim Burton convenceu todo mundo a fazer “Sombras da Noite”?

E realmente… Quando somadas as partes – que já eram bem ruins por si só -, o todo é ainda mais aterrorizador – e do jeito certo! A seriedade e paixão com que Ed Wood conduziu o longa só acrescenta mais uma camada de charme ao último filme a ter o mitológico Bela Lugosi em seu elenco. Caso você não tenha visto, faça-o agora mesmo! O filme está disponível inteiramente no YouTube (e você consegue encontrar a versão colorida na internet com facilidade).

Sim. E de nada.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.