Resenha | Pantera Negra (2018) é o filme mais poderoso da Marvel (resenha sem spoilers)

E o título, nesse caso, tem várias facetas. Com a estreia de “Pantera Negra”, a Marvel dá um passo em uma direção narrativa, estilística e de posicionamento social diferente do que o estúdio tem feito até aqui. Se um dos traços correntes do MCU era sua visão contemplativa frente à nossa sociedade – e, como entretenimento, não há nada de errado nisso -, ao completar seu décimo aniversário, o estúdio abre novas fronteiras do que seus filmes são capazes de fazer. O resultado é um filme ótimo, capaz de atingir vários públicos de maneira poderosa.

pantera negra

Título: Pantera Negra (“Black Panther“)

Diretor: Ryan Coogler

Ano: 2018

Pipocas: 9/10

O longa conta a história de T’Challa (Chadwick Boseman) a partir da sua ascensão a rei da nação de Wakanda, na África, após a morte de seu pai durante os eventos de “Guerra Civil“. Desafiado a ser um governante melhor do que seu antecessor, T’Challa descobre que armas poderosas feitas com o vibranium de Wakanda serão contrabandeadas mundo afora, de forma que os poderes ancestrais do Pantera Negra serão necessários para lidar com esta crise e com os demônios do passado de seu pai, que voltam para atormentá-lo.

As escolhas visuais e sonoras de “Pantera Negra” são a primeira coisa que chamam a atenção logo nas primeiras cenas do filme. As cores e formatos de Wakanda são ao mesmo tempo modernos e tribais, demonstrando que o povo dali olha para frente sem perder de vista suas tradições e valores passados. Em cores, o dourado, bem como tons de azul e roxo, ganham destaque, com o último representando o vibranium e suas aplicações, e permeia desde o uniforme do Pantera Negra até os detalhes de instalações subterrâneas. O dourado constata o óbvio: Wakanda é rica, apesar da face que prefere mostrar para o mundo.

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Apesar disso, o maior destaque estilístico do filme se encontra na trilha sonora, com músicas originais compostas por Kendrick Lamar. Com elementos que vão desde tambores africanos ao R&B e o rap, as composições envolvem todo o filme, e ajudam a conduzir e ditar o ritmo com que a trama avança. Das músicas à trilha incidental, “Pantera Negra” é um deleite visual e auditivo.

Ainda assim, é importante tirar do caminho o fato de que ele não é um filme perfeito. O roteiro, forte no geral, cede ao entrar em subtramas previsíveis, tentando enganar a audiência com reviravoltas fracas que não surpreendem quem já viu algum filme de superheroi ou leu alguma revista em quadrinho. Além disso, a computação gráfica por vezes é sofrível, sendo talvez o maior ponto fraco do filme. Em cenas simples, que não precisavam de muito CGI para funcionar, parece que estamos vendo uma cena saída direto de “A Ameaça Fantasma” ou “Superstar Soccer”. São elementos que desequilibram o filme, mas não tiram o seu poder.

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Esta força vem principalmente do fato de que a Marvel não teve medo de aceitar todas as consequências de o Pantera Negra existir. Tratando-se de um heroi negro africano, temas como racismo, desigualdade social e o encaminhamento para o crime, a ganância militar e mesmo escolhas entre isolacionismo e intervencionismo se tornam centrais para o filme. Se “Homem de Ferro 2” flertou com críticas ao governo, “Pantera Negra” as abraça como parte de quem ele é, e não se furta de falar o que precisa ser dito.

E o filme não demonstra força somente na parte social. Somado aos aspectos técnicos positivos já citados, a forma com que o roteiro trata o arco de T’Challa enquanto enriquece seus coadjuvantes com excelentes diálogos – pontuados por também ótimas cenas de ação – eleva “Pantera Negra” facilmente ao patamar de melhor filme de origem de superheroi já apresentado pela Marvel. Os destaques vão para Shuri (Letitia Wright), irmã de T’Challa, e Okoye (Danai Gurira), líder da Dora Milaje, tropa de elite de Wakanda. Enquanto Shuri é uma personagem leve, que diminui o peso da trama sem ser relegada à “alívio cômico”, Okoye é nuanceada e rica em seus traços – ao ponto de parecer viável pensar em voltar a explorar as Dora Milaje em uma série, filme ou mesmo em quadrinhos.

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Essa riqueza funciona ao menos em parte em detrimento do humor. Aqui a Marvel entrega um de seus filmes mais sérios, mas escrito e dirigido por Ryan Coogler (de “Creed”) de maneira tão orgânica que o filme não se mergulha em tons sombrios. A trama fala de todos os seus temas com a naturalidade de alguém que vivenciou estas experiências,  e não com o tom de alguém que os está ensinando para a audiência. Reflexo dessa abordagem balanceada que foca no conteúdo e não só na roupagem (como foi o caso de “Thor: Ragnarok”) é a construção do vilão Killmonger (Michael B. Jordan, agora num filme bom de heroi). Talvez o melhor vilão do MCU, ele é elaborado com uma história tão crível que é preciso se atentar para não torcer por ele até o final do filme. A atuação de Jordan também colabora muito para este efeito, e engole grande parte das cenas das quais ele participa.

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“Pantera Negra” é um filme poderoso não só por trazer realidades e novas possibilidades para todo um grupo que é sub-representado no cinema, e também não é somente por ter temas extremamente relevantes apresentados de forma interessante e renovadora que ele merece ser visto. O novo filme da Marvel Studios é entretenimento de qualidade, de sua concepção e escrita à sua execução, e, mesmo com falhas, merece os elogios que recebe tanto por sua forma quanto por seu conteúdo. “Pantera Negra” é uma resposta simples a todas as críticas que a Marvel tem recebido, em somente quatro palavras: “vida longa ao rei”.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.