Resenha: Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987)

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Pôster original do filme, escrito em língua Persa

 

Título: Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (Khane-ye Doust Kodjast?)

Diretor: Abbas Kiarostami

Ano: 1987

Pipocas: 9/10

No dia 04 de julho de 2016 faleceu o diretor iraniano Abbas Kiarostami. Sua obra mais conhecida é o ganhador da Palma de Ouro de Melhor Filme, Gosto de Cereja (1997). Jean-Luc Godard, renomado cineasta francês, certa vez disse que “o cinema começa com D.W. Griffith e termina com Abbas Kiarostami”, revelando, assim, como o diretor tinha conceito.

Kiarostami tem o que os críticos chamam de Trilogia Koker. Entretanto, o próprio diretor não concordava com isso, visto que, segundo ele, o único elemento em comum nos três filmes é o nome do lugar onde eles se passam. Os componentes dessa trilogia são os filmes Vida e Nada Mais (1991), Através das Oliveiras (1994), e o primeiro de todos, Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, sobre o qual falarei hoje.

A premissa desse filme é extremamente simples. Um garoto chamado Ahmad pega, por engano, o caderno de seu colega de classe. Esse colega havia sido ameaçado ser expulso da escola se na próxima aula não fizesse o dever de casa em outro lugar que não fosse seu caderno. Ahmad, então, após descobrir o equívoco, foge de casa para tentar entregar o caderno ao menino.

Os atores que participaram desse filme não são profissionais, algo que nos remete ao neorrealismo italiano. Em algumas cenas, inclusive, os atores infantis olham diretamente para câmera, descuido que eles rapidamente consertam. Erro que poderia ser condenável em qualquer filme, mas nesse não, visto a proposta do mesmo, que envolve o altruísmo e a inocência infantil.

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A jornada de Ahmad em busca da casa de seu colega chega a ser agonizante. Ele corre, passa por becos estreitos, conversa com desconhecidos que praticamente não lhe dão atenção. E nessa jornada toda, começa a anoitecer, mostrando, assim, que todos esses elementos são metáforas de um mundo é doentio, difícil e que tem o egoísmo em proeminência. A única pessoa que realmente tenta ajudar o garoto é um homem muito velho. Ele, apesar da dificuldade em se locomover, não hesita em ajudar Ahmad, revelando esperança, bondade e altruísmo, que talvez sejam conseguidos depois de muito sofrimento na vida.

Além do egoísmo presente, a obra aborda a repreensão causada pelo tradicionalismo do lugar onde o garoto vive. Isso começa a ser observado pelo próprio professor, no início do filme. Extremamente rígido, ele não permite que os alunos falem nada a não ser que ele lhes pergunte, não permite que deveres de casa sejam feitos em folhas separadas, e sempre toma atitudes drásticas em função de simples erros de seus alunos. Outro exemplo de repreensão é o avô do garoto, que em um longo discurso, defende a rigidez na educação das crianças. E, no final do filme, apesar de não muito explícito, temos o pai de Ahmad, que em um jogo de cenas que nos aflige, olha para o garoto com ar de desaprovação, levando o menino ao desconforto e a falta de vontade de jantar.

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Onde Fica a Casa de Meu Amigo não é um filme comum. Além de pertencer a um mundo cinematográfico praticamente desconhecido por muita gente (cinema iraniano), ele não é um filme óbvio, necessita de uma sensibilidade mais apurada para ser compreendido e adorado. Para quem ainda não assistiu e quer se arriscar deixo uma dica: sinta com os olhos e veja com o coração, pois provavelmente poucos filmes são tão singelos e profundos quanto esse. O verdadeiro encontro da simplicidade e perfeição.

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