Resenha | O Quebra Nozes e os Quatro Reinos (2018) – Beleza impecável, enredo deselegante

Se não deu certo na primeira vez, você pode tentar de novo, e talvez uma terceira vez, depois a quarta… em algum momento a coisa pode dar certo… Tudo ocorrendo bem desde o começo, por que não mexer uns pauzinhos para fazer dar certo de novo? Hollywood trabalha assim: não importa quantas versões já existem sobre uma obra, não há nada de errado em ter mais uma. Sendo um filme da Disney, a casa de filmes prestigiados, encantadores e emocionantes, “O Quebra Nozes e os Quatro Reinos” já carregava as expectativas de ser mais um título certeiro da casa do Mickey. De longe, tudo é mais bonito; na prática, o longa não passa de um recheio de desserviço e uma experiente perda de tempo.

 

Título: O Quebra Nozes e os Quatro Reinos (“The Nutcracker and the Four Realms”)

Dirigido por: Lasse Hallström, Joe Johnston

Ano: 2018

Pipocas: 4,5/10

 

A trama não poupa a simplicidade (ou a falta de criatividade) para ser o pilar das “altas aventuras” que se desenrolam. Clara (Mackenzie Foy, de “Interestelar” e “Invocação do Mal”) é uma jovem garota inteligente, curiosa e talentosa que, mesmo inclinada a fazer suas coisas, a saudade da falecida mãe, Marie Stahlbaum (Anna Madeley) e o relacionamento complicado com o pai, Sr. Stahlbaum (Matthew Macfadyen), são um incômodo para ela. O curso das coisas muda quando Clara recebe um presente misterioso do seu tio (Morgan Freeman), deixado por sua mãe, o qual traz promessa de que tudo que ela precisa está no presente. Obviamente, a moça não perde tempo para ir em busca de desvendar os segredos do que acabara de receber, partindo para uma realidade paralela.

Esperar que todo o filme da Disney seja fabuloso é como ter Meryl Streep indicada ao Oscar: se for, não tem nenhuma surpresa; o que não é o caso aqui. O problema de “O Quebra Nozes” começa no básico de sua história, que é conseguir conectar o espectador ao que está sendo contado, criar motivações o suficiente para que se sinta empatia, além de fazer ser interessante o que o roteiro está defendendo. Mas nada disso a película consegue.

Os personagens são as grandes peças desperdiçadas nesse jogo, que não cansa de mostrar que há grandes descobertas quando os mocinhos são testados e caminham por trilhas inimagináveis. Chega a ser desanimador e desinteressante o fato das rasas complexidades serem esquecidas facilmente, uma vez que o longa não se arrisca para não ser mesquinho e faz exatamente o esperado. Logo, não adianta muito criar um conflito emocional para Clara, por exemplo, e no final entregar uma resolução repetitiva e desgastada, sem um pingo de emoção e profundidade. Uma completa de vergonha alheia.

Por mais que o longa não tenha a capacidade de somar elogios quanto ao seu enredo vazio de originalidade, lançar Clara para um mundo paralelo (que lembra muitíssimo a transição em “As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa”) é o que salva o ingresso investido de ser totalmente desperdiçado. É nesse mundo diferente que o longa consegue fazer o público esquecer o quanto a história é ruim para inserir elementos que embelezam, encantam e impressionam na produção (é a Disney não deixando a peteca cair). De fato, é contagiante a arte sendo explorada com belíssimos números de danças, teatro, além de combinar o momento com cores vivas e alegres, depois surpreender com excelentes efeitos especiais e maquiagem.

o quebra nozes

Infelizmente, quando a atenção para a beleza se torna menos importante, “O Quebra Nozes” volta a ser desvantajoso com o seu enredo, ainda mais quando percebe que não vai muito longe sem ao menos honrar e tornar relevante os “Quatro Reinos” que ilustram o título do filme. A trama até tentou uma reviravolta, e se forçar interpretação, pode-se encaixar um contexto de subversão dos personagens, pois as aparências enganam, mas o próprio filme entrega a tal – tentativa de – reviravolta, já que, faltando vinte minutos para finalizar a história, alguma coisa aponta que não poderia terminar ali de um jeito fácil e precoce, uma vez que Clara precisa ser lapidada até os limites para encontrar o seu objetivo. Talvez a sacada de surpreender funcione em outra adaptação.

“O Quebra Nozes e os Quatro Reinos” é o tipo de filme em que se percebe resquícios de outras histórias enquanto tenta ser inédito. Tirando a Mackenzie Foy, a crescida filha de Bella Swan, que conseguiu convencer com sua atuação e apelo para a personagem Clara juntamente com sua interação com o Philip (Jayden Fowora-Knight), os demais do elenco estão sofríveis. No geral, o longa se resume com um pacote de beleza visual impecável e bem aproveitado, enquanto o enredo não pode compartilhar da mesma elegância.

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.