Resenha: O Passageiro (2018): é preciso saber dizer “chega”

De uma maneira geral, inclusive. Nós, brasileiros, somos um povo muito complacente, e tendemos a aceitar situações inaceitáveis e acatar decisões que não fazem sentido. No mundo ocidental, não aceitar fins é uma regra, e franquias e séries se veem esticadas ao ponto de se tornarem caricaturas de si mesmas. “O Passageiro” também sofre desse mal; é um competente filme de ação, até se recusar a acabar e descarrilar nos seus minutos finais.

O Passageiro

Título: O Passageiro (“The Commuter”)

Diretor: Jaume Collet-Serra

Ano: 2018

Pipocas: 6/10

A película conta a história de Liam Neeson sendo Liam Neeson: um homem aparentemente comum com um treinamento de combate no passado – neste caso, policial – que precisa resolver um mistério para salvar sua família. Se em “Sem Escalas” ele estava preso num avião, em “O Passageiro”, Neeson está encurralado em um trem. Aqui, ele precisa encontrar um passageiro que não costuma fazer aquele trajeto antes que o veículo chegue em sua última estação. Caso contrário, será o fim da linha para ele.

Seguindo com o trocadilho de trem, “O Passageiro” avança em um passo ótimo para um filme de ação, somente descarrilando em seus vinte minutos finais. A parte que funciona possui todos os elementos essenciais para o gênero: o ritmo é constante, as sequências mais explosivas se desenrolam de forma natural, sem parecerem forçadas, e conseguimos nos importar com os indivíduos em risco, mas principalmente com o Michael, protagonista de Liam Neeson neste filme.

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Para desenvolvê-lo, o longa vai além, utilizando-se de elementos políticos para gerar maior identificação de Michael com o público. Colocando-o como um rejeitado pelo capital às vésperas de sua aposentadoria, o longa chega ao ponto de por Michael literalmente dando o dedo do meio para a Goldman-Sachs. Pouco sutil, mas, honestamente, não se espera sutileza de blockbusters de ação.

A edição e montagem do filme merecem destaque. Embora não sejam brilhantes, ambas conseguem sucesso em trabalhar ora a claustrofobia das paredes do vagão e ora a fuga para fora de suas janelas, para quebrar a monotonia. Sob a batuta do diretor Jaume Collet-Serra (de “A Órfã”), “O Passageiro” não se demonstra espetacular, mas dedicado, e um aprazível filme de gênero.

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Na verdade, seria, caso não tivesse seus últimos vinte minutos. Com seu último suspiro, o filme decide ser mais complexo do que ele de fato é, colocando cenas de ação exageradas e não condizentes com o que fora desenvolvido até ali, além de viradas no roteiro que, além de falhas e mal construídas, são simplesmente desnecessárias. Assim, o longa de Collet-Serra abre mão de ser um filme simples e bem executado para ter um final remendado, que acaba parodiando tudo o que ele construiu antes ao se propor uma película de gênero.

É desta forma que “O Passageiro” se nega a cumprir uma promessa consideravelmente simples: ser um bom filme de ação. Com boas propostas, atuação competente e direção esforçada, acaba por tentar ser mais do que de fato é – e fracassa. É assim que ele se perde e sai dos trilhos, faltando tão pouco para chegar ao ponto desejado, tornando-se menos do que poderia ser. Fica a lição: no pôquer, nos filmes de ação e na vida, saia enquanto estiver por cima.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.