Resenha | O Juízo (2019): o tédio em sua essência

Vai acontecer ou não? Será realmente desse jeito? O que virá depois? Um bom suspense que se preze, é aquele que sabe fisgar o público e o envolver com as questões inseridas durante uma trama. O interessante do gênero é a versatilidade por poder fazer parte com outras categorias. Falhar na sua habilidade de deixar o espectador aflito se torna um fraquejo para com o próprio gênero. “O Juízo” se trata de um suspense psicológico nacional, chamando atenção pelo elenco, porém, a execução por trás da história só tornou real uma coisa: o tédio em sua essência.

Título: O Juízo
Ano: 2019
Direção: Andrucha Waddington
Pipocas: 4,5/10

Após o acidente de carro por conta do alcoolismo, Augusto Menezes (Felipe Camargo) decide se mudar por um ano com a esposa Tereza (Carol Castro) e o filho Marinho (Joaquim Torres Waddington) para uma fazenda que pertencia ao seu avô. Muito além da recuperação que pensava ter se afastando da cidade, no local reside Couraça (Criolo) e Ana (Kênia Bárbara), antigos escravos que buscam vingança contra os antepassados de Augusto.

Responsável por nos apresentar o filme, cenas de abertura às vezes são eficazes, em outras nem conseguem passar um impacto relevante. No filme em pauta, serviu para trazer para conhecimento o que definiria o acerto de contas que o título sugere, mas ao mesmo tempo, uma das características mais problemáticas se fez presente: a péssima e indistinguível fotografia de tom escuro.

A coisa parecia ser justificada por se passar numa cena noturna, mas para criar uma atmosfera tensa, a fotografia se dispôs a usar de um filtro azulado em passagens diurnas, o que não deu muito certo quando nas cenas sem luz natural. O curioso desse elemento técnico foi dar um perfil para a casa em que os personagens se alocavam: sempre escura, assim como mistério que a família Menezes era arrastada. Combinado com a locação silenciosa, a ausência da internet, e sem iluminação com energia e comodidade num casarão velho, a estranheza e suspense eram notórios.

O drama familiar se estende pela dificuldade de Marinho se conectar na nova moradia, o que o faz explorar o local à sua maneira e também se atrelar com os segredos do passado. Nesse meio, a narrativa proposta trabalha de forma apressada e em cima de aspectos genéricos do gênero, o que começa a colocar o enredo num lugar comum e preguiçoso. Como consequência, a apatia se transfere impedindo de gerar no público o interessante necessário pela trama.

Não, não é o Timothée Chalamet

A ideia por trás do mistério é inteligente, mas tudo o que ganhamos é a sensação da direção não ter encontrado uma execução que fizesse jus, mesmo para um roteiro que não se pretende estender muito. E o elenco ainda conta com Fernanda Montenegro (“A Vida Invisível”) e Lima Duarte destinados para personagens numa trama pronta, que sabe para onde quer ir, mas no caminho, o diretor Waddington só conseguiu manter o espectador na perspectiva das boas intenções da história, que mesmo reconhecendo os pontos fortes e o que poderia resultar dali, não há traços que possibilitem o longa a de fato ser atraente.

Há o alheamento, a perturbação e confusão gradativamente consumindo Augusto. O distanciamento imposto sobre Marinho para com os pais (situação essa que não ganha profundidade) assim como Tereza, sendo a única do trio preocupada com a realidade por estar ali: o marido ainda se embriaga, tirar o filho da companhia dos amigos não foi uma boa escolha enquanto deseja o bem estar de todos. Não sendo pouco a pegada de paranoia, espíritos vingativos, o filme estrelado por Camargo ainda introduz um pouco psicofonia. O incrível disso tudo é que nenhuma dessas colocações são capazes de empolgar.

Assim, deixar o longa num lugar tão escuro e inserir elementos sobrenaturais que mais soam batidos e aleatórios, muito longe de serem aterrorizantes, não se mostrou ser eficiente para a premissa no final. A maldição foi ter um acerto de contas, e apesar de tantas simbologias, o que o destino nos reservou foi um suspense tedioso como juízo.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.