Resenha: O Exorcista (1971)

Os piores terrores são aqueles que espreitam a mente humana. O que nos causa medo transita e flui de acordo com o que nos é mais palpável, e nada é mais tangível e simultaneamente desconhecido para nós do que nós mesmos. Exploramos o espaço, as profundezas do mar, mas ainda temos dificuldade de entender como nosso próprio cérebro funciona – nem mesmo sabemos por que bocejamos.

Exatamente por não sabermos do que somos capazes, nós… Não sabemos do que somos capazes. A reserva infinita de possibilidades nos atemoriza, principalmente quando percebemos este poder latente fora do nosso controle – como se estivéssemos ausentes de nós mesmos ou sendo manipulados por forças externas.

Como se estivéssemos possuídos.

o exorcista

“O Exorcista” trata da história de um homem que aceita e vai inexoravelmente ao encontro de seu destino, enquanto crianças e padres desacreditados são peões na guerra entre o inferno e a humanidade. Porém, se o inferno são os outros, estaria a humanidade em guerra consigo mesma?

O livro parte de duas narrativas; em Washington, conhecemos Chris McNeil e sua filha de onze anos, Regan. A mulher é uma atriz reconhecida, atuando em seu mais novo trabalho, sem deixar de ser uma mãe dedicada para a doce e carinhosa menina. Entre as rosas que deixa na mesa de café para a mãe e as esculturas em madeira que faz, Regan transborda sensibilidade e afeto, e não haveria garota no mundo mais repleta de amor.

A menina era tão esguia quanto uma esperança passageira.

O que, claro, torna sua transição muito mais chocante. Chris percebe que sua filha passa a ser atormentada por sua própria mente e, de mãos atadas, assiste Regan afundar cada vez mais. A percepção de coisas se movimentando sem sua influência e os cheiros estranhos em seu quarto passam a ser o menor dos problemas da garota quando algo parece tomar o controle mesmo de suas habilidades motoras, retorcendo seu corpo e a colocando em dores horríveis – e posições impossíveis. Indo de psicólogo a psiquiatra e assim por diante, Chris vê suas alternativas esgotarem e, do alto de seu cinismo, se vê obrigada a buscar ajuda além da ciência, e a procurar refúgio na fé.

O padre Damien Karras, no entanto, não seria o homem mais indicado para ser procurado, naquela fase de sua vida. Atormentado pela culpa por ter abandonado sua mãe e principal suspeito numa série de atos horrendos na igreja local – que envolviam desde a profanação de altares com fezes até relações sexuais com as estátuas da capela -, padre Karras está em xeque, e sua vida precisa tomar um rumo. Refém de sua própria culpa, Karras se sente irremediavelmente impelido a ajudar Chris quando essa lhe procura. Amarrado mais por si mesmo do que por seus votos, Karras inicia uma investigação para descobrir se Regan está sofrendo de alguma doença psicológica ou se realmente há algo além dentro da menina.

Bem, repito que é apenas uma opinião – disse ele -, mas imaginando que seja a histeria de conversão originada de culpa, a segunda personalidade é apenas o agente que aplica o castigo. Se a própria Regan se punisse, seria como reconhecer sua culpa. Mas ela quer fugir dessa noção. Por isso existe a segunda personalidade.

Mas… Não seriam ambas as mesmas coisas? Através do olhar cético e conhecedor de Karras, os traços do que seria uma possessão, de acordo com o Ritual Romano, e os traços de diversas doenças mentais complexas – como histeria e distúrbio de múltiplas personalidades – se misturam em uma cornucópia de dúvidas e descrença. De qualquer forma, a possessão, assim como a hipnose, depende da autossugestão – sua capacidade de crença – para que de fato tome lugar. Em outras palavras, você só seria possesso caso assim cresse.

Por outro lado, para o possuído, há alguma diferença entre um demônio em seu corpo ou uma mente que se dissociou da sua? Quando se tem uma voz estranha em sua cabeça, qual a vantagem de ser uma profunda doença psicológica, virtualmente incurável, sobre a chance de um espírito maligno ter tomado conta?

Enquanto analisamos o caso de Regan sob o olhar perscrutador de Karras, notamos que, possessão ou transtorno, a doença de Regan nasceu de sua culpa mal resolvida. Enquanto transitamos pelos sintomas, percebemos que não há tantos elementos a separarem o padre da possessa; a linha se turva, e subitamente notamos que, ironicamente, a grande sorte do padre é o fato de ele não crer.

Em meio ao caos – e muito vômito, cabeças rodando e garotas descendo as escadas como uma aranha, perseguindo sua babá – um homem vem disposto a cumprir o seu propósito, com a intrepidez que somente pessoas que sabem que irão padecer com um objetivo conseguem possuir. É aí, depois de tantos atos demoníacos/humanamente crueis que “O Exorcista” brilha.

Acho que é aí que está, Damien… A possessão. Não nas guerras, como algumas pessoas acreditam, não tanto. E muito raramente em intervenções extraordinárias como essa aqui. (…) Não, costumo ver a possessão nas coisas pequenas, Damien. Nas picuinhas e nos desentendimentos; na palavra cruel e cortante que salta livre à língua entre amigos. Entre namorados. Entre marido e mulher. Temos muito disso e não precisamos de Satanás para criar nossas guerras. Conseguimos criá-las sozinhos… Sozinhos.

O maior horror de “O Exorcista” é o fato de ele ser universal. Ao se negar a presumir ou recusar a existência de demônios, o livro apela pela ciência às mentes mais céticas, e captura pela alma os leitores mais sensitivos. E, do meio do horror, a percepção da natureza humana brota, e um clássico nasce.

O apóstolo Paulo disse, livremente parafraseado, que “se o mal que não quero fazer, eu faço, mas o bem que quero fazer, este eu não faço, então não sou eu quem o faz, mas sim o mal que mora em mim”. Seja você crente ou descrente, um ponto é inegável: há um mal inerente à humanidade, esteja ele no âmbito psicológico ou espiritual. “O Exorcista” é, desta forma, um livro atemporal, um horror que espelha a possibilidade do que há de mais horrível em nós, somente jogando lampejos de esperança, que são rapidamente apagados.

Mais do que um livro, uma experiência. Mais do que o terror, é “O Exorcista”.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.