Resenha | Notas de um Velho Safado – Bebida, cigarro e poluição

“Pense nisso você mesmo: liberdade absoluta para escrever qualquer coisa que você quiser. Foi mesmo uma época muito boa, e séria também, às vezes; mas eu senti principalmente, à medida que as semanas iam passando, que a escrita ia ficando cada vez melhor. Esta é uma seleção de aproximadamente catorze meses passados nessas colunas”  – Notas de um velho safado

Tudo começou com a criação do jornal alternativo OPENCITY por John Bryan ao final da década de 1960. Bryan já havia trabalhado com o jornalismo tradicional durante alguns anos em São Francisco, mas foi após pedir demissão e começar seu próprio jornal que pode criar algo que realmente fizesse sentido para si. Para tornar seu projeto ainda mais intenso, buscou referências únicas e escritores que nadassem contra a corrente acadêmica, de modo a criar um jornal que refletisse Los Angeles sem floreios.

Foi então que resolveu contratar Charles Bukowski. Pouco importava a gramática ou a escolha do tema, desde que fosse Bukowski. Assim surgiu a coluna “Notas de Um Velho Safado”, que além de trazer à tona um dos apelidos mais populares de Bukowski até hoje, resultou em um livro homônimo.

A compilação de contos, crônicas e pequenas histórias contadas por Bukowski em “Notas de um velho safado” são, sem sombra de dúvidas, uma forma de conhecer um pouco mais do autor e de sua visão sobre a América naquele período.

Bukowski nunca vivera nas áreas glamourosas de Los Angeles e por isso sabia como a segunda guerra e a guerra fria afetavam cada dia mais o cidadão que era obrigado a viver na marginalidade. Enquanto muito se era dito sobre o “american way of life”, Charles Bukowski contava sobre a realidade crua e depravada, mostrando a violência visível e a violência mascarada.

Contudo, os relatos não eram escritos em momentos de sobriedade e por isso não passavam por nenhuma forma de revisão. Bukowski apenas embriagava-se o suficiente e começava a escrever seguindo um fluxo desprendido de regras. Por vezes sua coluna trazia letras maiúsculas, frases intensas e diálogos mal diagramados, mas isso fazia parte do que Bukowski entendia por literatura necessária e por isso não realizava nenhum tipo de edição após escrever.

“a diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável”

“Notas de um velho safado” não trazia um gênero fixo. Em alguns momentos, o autor brincava com suas histórias e fazia relatos autobiográficos, contando sobre as bebidas, as mulheres e as tão amadas corridas de cavalo. Quando decidia criar personagens, Bukowski fazia questão de questionar a América dos anos 1950 e as sequelas psicológicas deixadas no povo americano.

Assim como o OPENCITY, a coluna de Bukowski não fora pensada apenas para o público tradicional e por isso o autor sentia-se livre para dialogar com o todo e não apenas com uma seleção culta de leitores. Isso fez com que um número cada vez maior de leitores se apaixonasse pelo velho safado, chegando até a oferecer dinheiro para que Bukowski não deixasse de produzir (reconhecimento hoje que se popularizou com o crowdfunding).

notas de um velho safado

 “o indivíduo bem-equilibrado é insano.”

Vale questionar, no entanto, o motivo pelo qual tantas pessoas enxergam “Notas de um velho safado” como um livro ruim. Dentre os pontos levantados como problemáticos, os posicionamentos ideológicos do autor e a diagramação crua e desprendida são as principais queixas. Não é um bom livro para quem quer começar Bukowski, mas pode ser uma experiência rica para quem já conhece o autor e deseja decifrar um pouco mais de sua história e de seus propósitos como escritor.

Se não levarmos em consideração o gosto pessoal “Notas de um velho safado” cumpre fielmente com sua proposta, trazendo reflexões e questionamentos que por muito tempo foram engavetados por diversos autores norte-americanos. A coluna de Bukowski nunca tivera o intuito de ser filosófica ou trazer uma crítica social todas as semanas, mas sim de apontar a vida no subúrbio de L.A. através dos olhos de quem respirava poesia junto à fumaça de cigarro e poluição.

 


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