Resenha | Nós (2019): a face do imprevisível (sem spoilers)

Finalmente o esperado longa-metragem de Jordan Peele está entre nós! Mais conhecido como ator e produtor, a estreia do cineasta na direção se deu em 2017, com o filme “Corra!” – o qual lhe rendeu o Oscar de melhor roteiro original na edição de 2018. A segunda película comandada por ele traz o brilhantismo ao reforçar o que tange o seu estilo em entregar o terror psicológico de maneira imprevisível, somando ao que faz o espectador experimentar.

 

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Título: Nós (“Us”)

Ano: 2019

Direção: Jordan Peele

Pipocas: 8,5/10

 

É assim, sem muito a apelar, que o diretor já nos convida para atentarmos aos detalhes ao evocar o sensorial através da percepção da pequena Adelaide Wilson (Madison Curry) e toda a ansiedade perante a curiosidade no parque de diversões. Destacando belíssimos tons de amarelo e azul na fotografia, enquanto nem imaginávamos que essas seriam as paletas mais coloridas que teríamos antes do horror tomar forma — o suspense calçava a sua entrada.

Partindo para os dias atuais, agora acompanhamos uma Adelaide adulta (Lupita Nyong’o, de “Pantera Negra”) seguindo com os dois filhos Zora e Jason (Shahadi Wright Joseph e Evan Alex, respectivamente) e o marido Gabe (Winston Duke), para aproveitarem as férias numa casa de lago. O que o destino havia reservado era a chegada de quatro estranhos próximos à casa da família, para então descobrirem que se tratavam de pessoas idênticas a eles. A intenção era apenas uns dias de férias; a realidade, um confronto em nome da sobrevivência.

Qualquer semelhança é mera coincidência, mas não para Jordan Peele. Embora o filme pareça estar envolto numa atmosfera previsível e até expositiva demais para um projeto que despertou tantas expectativas, na verdade, faz com que tudo coopere para a construção de sua marca, a subversão daquilo que é, primeiramente, estabelecido.

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Madison Curry, como a pequena Adelaide

Em boa parte da audiência, sem dúvidas, deve ter surgido a ideia de que o longa trabalharia em cima de uma temática simplória, “nós somos nosso maior inimigo”, embora todos esperassem que o resultado trouxesse mais do que isso – e trouxe. Como um bom terror psicológico que valha a proposta, Peele introduziu o trauma para ser um dos pivôs que incrementaria toda trama: a dificuldade em se comunicar, o olhar perdido e perturbado no tempo em que o desconforto gritava por Adelaide estar próxima ao lugar que a transformou quando criança. Some tudo isso ao proceder que nos fez perguntar se, de fato, o enredo seria tão comum (mesmo quando sabíamos que ainda era só o começo do filme).

Felizmente, antes mesmo de partir para o segundo ato, imergidos numa fotografia escura, aterradora e desesperadora, somos fisgados a conhecer de vez o conceito de Peele, embalados pela trilha sonora cômica e tensa de Michael Abels – outro aspecto impactante e marcante do filme, digno de nota. É então que vemos um dos pontos que mostram a criatividade do diretor: demonstrar que a questão vai mais além das impressões por similaridades e contextos de complexidades óbvias.

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Para isso, depois de instaurar o terror com intensidade e aflição, o cineasta faz questão de colocar a narrativa em lugares inesperados – que outrora pareciam que não iriam passar do raso – para então explorar mais do seu conceito. E o feito inegável é a criação de um universo que dialoga sobre o pior em nós, mas não do jeito que pensamos.

Seguindo a construção de subversão, é louvável como o longa aproveita os personagens, destacando as incríveis e horripilantes atuações de seus interpretes, com destaque para o forte protagonismo de Lupita, seja como matriarca, ou, ao romper os limites para proteger a quem ama, ou não se limitar ao papel de esposa submissa – vale salientar como a direção deixa Gabe fluir em características esperadas, mas sempre inteirando a importância de Adelaide para a história.

Não sendo poucos os momentos de pavor, brutalidade, sangue, agonia e impaciência – ou resumindo, puro terror – Jordan Peele deixa claro, ao término do terceiro ato, que não se conformaria em finalizar a sua obra num lugar comum, elevando assim o conceito ademais do que tínhamos entendido. E para quem ficou desconcertado ou inconformado, como supracitado, aqui não há coincidências ou resoluções forçadas, as pistas estavam à porta.

“Nós” é o tipo de película que entrega bem mais do que audiência poderia esperar. Dentre muitas mudanças – no bom sentido, claro – a consequência foi um terror psicológico e social mesclado com o humor alcançando o resultado de uma obra imprevisível.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.