Resenha: Nerve: Um Jogo Sem Regras (2016)

“Você é um Jogador ou um Observador?”

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Título: Nerve: Um Jogo Sem Regras (“Nerve”)

Diretor: Henry Joost / Ariel Schulman

Ano: 2016

Pipocas: 7/10

As crianças que nasceram já nos anos 2000 – os chamados Millennials, ou Geração Y – jamais conhecerão o mundo sem internet. Entre Snapchat, Whatsapp, Facebook e Twitter, não há possibilidade de integração entre seus pares se você não estiver transmitindo sua vida em tempo real; você não tem mais colegas, mas seguidores, e sua vida se torna entretenimento para o mundo.

“Nerve” extrapola esse conceito e faz uma pergunta muito pertinente para esta geração: quais os limites que você estabelece na sua busca por adoração de seus iguais – ou, por outro lado, o que você demandará de seu ídolo para que você continue a adorá-lo?

Em outras palavras: você é um Jogador ou um Observador?

A história gira em torno de Vee Delmonico (Emma Roberts, de Scream Queens), uma garota normal com certa timidez e insegurança oriunda da perda de seu irmão, que está às vésperas de formar e partir para a faculdade. Depois de ser constrangida em público por sua falta de coragem, Vee entra em um jogo chamado Nerve, no qual Observadores desafiam os Jogadores em provas estranhas em troca de seguidores e prêmios em dinheiro. Logo na primeira prova, Vee conhece Ian (Dave Franco, de “Irmão de James Franco”); os Observadores gostam do casal, e fazem com que eles enfrentem os desafios juntos. No entanto, o jogo fica gradativamente mais perigoso, e Vee logo nota que a brincadeira não é tão inocente e pode custar uma vida – talvez a sua própria.

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O filme passeia em temas pertinentes à essa Era da Internet com a destreza de quem conhece seu público; a câmera não para um segundo, sempre acelerada como uma sequência de Snaps, e o ângulo muitas vezes é invertido, como se fôssemos a máquina observando o usuário – o “internauta” (expressão que só o Fantástico usa) que fala com você, do outro lado da tela. Aliando essa linguagem atualizada com o excesso (muito mesmo. É demais. Sério.) de neon, logo notamos que o filme é um thriller feito para o Jônatas e o resto desta nova geração.

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Os temas do filme em si estão expressos nas três leis do Nerve – que, ao contrário, do que mais um título errado brasileiro diz, tem regras muito severas. A primeira reza que todos os desafios cumpridos devem ser filmados pelo celular do Jogador desafiado; além de acrescentar dificuldade ao desafio, o cumprimento disto evita fraudes por parte dos competidores. Em um mundo de nicks e anônimos, não basta fazer; você precisa provar quem você é, em todos os sentidos.

A segunda regra é que você só sai do jogo se falhar ou se desistir. Caso isso aconteça, você perde todo o dinheiro acumulado até ali – que facilmente acumula milhares de dólares em somente alguns desafios. Com o fracasso do Jogador, o dinheiro se vai, e ele perde todos os Observadores que o seguiam. Como a transmissão é ao vivo, seu fracasso é ridicularizado em tempo real, e como os Observadores são estimulados a filmarem os Jogadores também, você dificilmente escapará da humilhação, mesmo que desligue seu celular – não muito diferente da vergonha de pessoas que tem suas fotos nuas espalhadas na internet, ou as milhares de vítimas de cyberbullying mundo afora.

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A regra mais grave, no entanto, é a terceira, a qual diz que dedos-duros serão punidos – ou seja: se você denunciar o jogo para a polícia, os próprios Observadores e outros Jogadores irão castigá-lo, inclusive fisicamente. É em torno dessa regra que o conflito do filme se constrói; por trás do conceito de pessoas anônimas arquitetando situações e desafiando pessoas a cometerem atos impensados e arriscados com a garantia de impunidade. Esta falta de responsabilidade é ao mesmo tempo uma das grandes vantagens de se esconder na internet (como quando povos oprimidos se organizam de maneira anônima contra governos opressores), mas também o caminho pelo qual ela é demonizada.

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No Nerve, os anônimos têm questões de vida ou morte na ponta do dedo, e muitas vezes não temem em colocar um Jogador sob um trem, ou coagir outro a esmurrar um adversário. Embora isto possa parecer algo muito distante, mas certamente não era para Amanda Todd – a jovem de 15 anos que se matou no Canadá, depois de ser chantageada com suas fotos nuas. A garota trocou de escolas diversas vezes, mas a internet encurta distâncias, não é? Os abusadores a perseguiram, distribuindo suas fotos para seus novos colegas, professores e mesmo pais de colegas da nova cidade onde ela ia morar.

Embora Nerve seja um filme no qual o conceito é abordado de forma mais leve ao ser expandido, Amanda Todd passou por um Nerve próprio, do qual infelizmente ela não saiu com vida.

Enquanto eu assistia o primeiro ato do filme, no qual os desafios são divertidos e emocionantes, eu me perguntava qual tipo eu seria – se seria um Observador, dando ideias diferentes de desafios, ou se seria um Jogador, correndo riscos em troca de emoções, fama e dinheiro. Minhas respostas variavam, e enquanto o filme ganhava em tensão, eu crescia em dúvidas. Ao final (meio decepcionante e brega) do filme, eu já sabia: todos nós, atrás de nossos celulares e computadores, somos ao mesmo tempo Observadores e Jogadores, buscando nos destacar em um mar de rostos iguais em pixels.

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Este é um filme efetivo em seus propósitos, embora por vezes se exceda visualmente e tenha um final que abuse da boa vontade da audiência. Com atuações carismáticas, uma trama acelerada e roteiro comunicativo, “Nerve” vale a pena ser visto, especialmente se você for o público-alvo.

Calma, calma! Antes de fechar esta aba, só me diga: o que você está disposto a arriscar para se mostrar como alguém? O que você faria para viver de sua fama?

Você é um Observador ou Jogador?

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.