Resenha: Mulheres do Século XX (2016) – Com quantas mulheres se faz um homem?

“Você pode vê-lo como uma pessoa no mundo. Eu jamais poderei.”

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Título: Mulheres do Século XX (20th Century Woman)

Diretor: Mike Mills

Ano: 2016

Pipocas: 10/10

Momentos de mudança podem ser extremamente complexos. Se isso é verdade para indivíduos na forma como eles se enxergam, imagine num âmbito maior das relações humanas. Com isso em mente, chegamos em Mulheres do Século XX (20th Century Women), filme que o diretor Mike Mills considerou como a sua “carta de amor” às mulheres que o criaram. Apesar de encarar o filme assim, o cineasta sabe que o que acontece na tela não é totalmente auto-biográfico. As pessoas são o ponto de partida das personagens que, assim como gente do mundo real, não funcionam de maneira óbvia e possuem diversas facetas que nem sempre são claras e simples de serem compreendidas.

Mulheres do Século XX

O filme conta a vida de Dorothea (Anette Bening) e Jamie (Lucas Jade Zumann). Mãe e filho passeiam por um momento complicado na história — o ano de 1979. Os problemas com a maternidade são os conflitos da personagem de Bening, pois, além de, no momento em que vive, ela ser a mãe solteira de um adolescente, Jamie nasceu quando ela já estava numa idade consideravelmente avançada. Dorothea não é uma mulher tradicional, mas o conflito de geração com seu filho é uma batalha que se estende ao longo do filme quase todo. A visão menos ortodoxa dela sobre o mundo e o fato de, de certa forma, ela estar disposta a entender pelo que o filho está passando dão uma complexidade interessante para a personagem, pois isso entra diretamente em contraste com a incapacidade que ela tem de se relacionar abertamente com o filho e, principalmente, entender seus anseios e ansiedades. Para isso, entram na história duas outras mulheres importantes: Abbie (Greta Gerwig) e Julie (Elle Fanning).

Mulheres do Século XX

Quando Dorothea comissiona Abbie, uma inquilina da sua casa sempre em reformas, e Julie, a melhor amiga de Jamie, para “cuidar” do garoto, ela não está apenas reproduzindo um comportamento que aprendeu durante a Grande Depressão, mas adicionando à vida do filho perspectivas femininas que ela mesma poderia passar, não fosse o abismo que existe entre a sua geração e a dele. Outra dificuldade da mãe é lidar com sua excessiva introspecção, que faz com que ela pouco fale de si própria, apesar de ter bastante auto-conhecimento. Dessa forma, Abbie auxilia Jamie a lidar com o mundo exterior, enquanto Julie dá alguns lampejos do que é um relacionamento e como estar com alguém complexo pode ser igualmente revelador e frustrante.

Abbie é uma fotógrafa aficionada pela cena punk. Com os seus livros sobre o feminismo, ela mostra pra Jamie que existe toda uma outra perspectiva sobre as relações entre homens, mulheres, sociedade e sexualidade que ele deveria considerar — todas elas, é claro, partem do ponto de vista da mulher. Assim, o garoto se torna consideravelmente mais elucidado do que os seus iguais e isso faria com que ele sentisse na pele o peso do conhecimento.

Julie, por outro lado, é a filha de uma terapeuta que, assim como Jamie, não consegue se relacionar com a mãe. Porém, sua revolta é velada, mostrando à progenitora um lado estudioso e correto, mas, em segredo, saindo com vários meninos, bebendo e adotando comportamentos excessivamente subversivos e até mesmo perigosos para uma menina da época. Seu relacionamento com Jamie faz com que ele perceba que a garota de quem ele gosta é uma versão idealizada que só existe para si. Isso lhe é transmitido através dela mesma, quando, num determinado momento, deixa claro que o garoto não é capaz de entendê-la como um todo. A isso, Mills chamou de admitir suas limitações em escrever personagens femininas. De fato, o filme não se propõe pretensiosamente a explicar a mulher, mas o diretor se coloca humildemente como alguém que tem uma ou duas coisas a dizer sobre experiências que fizeram dele a pessoa que ele é hoje.

Mulheres do Século XX

Por fim, todo esse turbilhão emocional é permeado por uma saraivada de mudanças que aconteceram de fora para dentro. No mundo. Em diversos momentos, as cenas do filme são entrecortadas com narrações em off. Elas falam sobre fatos ocorridos na época, discursos de políticos, fotos da cena punk e, em determinados momentos, até se adiantam no tempo para o mundo e para os personagens e dizem o que irá acontecer. As imagens de arquivo somadas às narrações adicionam contexto às perspectivas dos personagens e isso ressalta o momento de inflexão em que todos eles vivem; quando não havia mais soldados lutando por causas nobres como na segunda guerra — a guerra da vez (no Vietnã) era amplamente criticada e considerada sem sentido. Além disso, a beleza de Casablanca e As Time Goes By tinha dado lugar para uma trupe de gente revoltada que, aos berros, falava muito rapidamente sobre suas frustrações. Assim, a inadequação e afastamento de Dorothea ficam, a cada tentativa que ela faz de se aproximar, mais visíveis e justificadas.

Foi amarrando tudo isso que, por fim, Mike Mills trouxe uma história original com personagens complexos e extremamente interessantes. Em Mulheres do Século XX, a ambiência interna e externa das pessoas cria uma história de lições sobre a relação dos indivíduos consigo mesmos e com o mundo. Assim sendo, suas personalidades são iguais à casa em que vivem: constantemente em reforma.

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Hippie com raiva.