Resenha: Moana: Um Mar de Aventuras (2017)

Quem você está destinada a ser?

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Título: Moana: Um Mar de Aventuras (Moana)

Diretor: Ron Clement, Don Hall, John Musker, Chris Williams

Ano: 2017

Pipocas: 8/10

A Disney tem buscado novos horizontes e explorar novos limites com suas personagens – cada vez menos princesas e mais exploradoras e aventureiras. É desonesto falar que isso começou com “Frozen” quando já tínhamos Pocahontas botando para quebrar bem antes disso, por exemplo. Ainda assim, foi com a Rainha do Sorvete e seu lérigou que a Casa do Mickey consolidou seu novo padrão para suas “princesas”, e Moana chega invadindo nossas praias com uma história que nos ganha muito mais por sua mitologia e beleza do que por seus personagens.

“Moana” conta a história de… Bem, Moana, a filha do líder da vila de Motunui, uma pequena ilha na Polinésia. Embora a ilha lhes ofereça de tudo, e eles vivam e subsistam principalmente da cultura de cocos, Moana quer mais, e vê nos barcos pesqueiros atracados na praia um convite para desbravar os mares e matar sua sede de descobertas. As limitações impostas pelo seu pai e o tempo fazem com que Moana aceite seu papel como líder, abrindo mão da sua paixão por explorar, mas tudo muda quando um mal milenar atinge Motunui. Com o futuro do seu povo em risco, Moana é escolhida pelo Oceano para abrir suas velas em busca do semideus Maui, o qual deverá ajudá-la a devolver a joia conhecida como Coração de Te Fiti ao lugar onde pertence para restabelecer o equilíbrio da natureza e salvar sua ilha.

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“Moana” explora, em primeiro lugar, esta nova fórmula da Disney. Dentre as coisas que se mantêm da velha fórmula – como as músicas-chiclete que você vai sair cantarolando do cinema e os animais que funcionam como alívio cômico -, a capacidade de zombar de si mesma e a insatisfação da protagonista moldam as principais diferenças do estúdio que avança século XXI adentro.

O filme mais de uma vez brinca com os padrões que a própria Disney estabeleceu no passado (“se você usa vestido e tem um animal de estimação que te acompanha, você é uma princesa”, aqui, funciona como o “você não pode casar com alguém que você acabou de conhecer” de “Frozen”), e vemos que isso é um traço que o estúdio quer manter para os adultos aproveitarem. Ainda assim, é na construção de personagens que vemos a principal mudança no formato dos filmes.

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Assim como em “Frozen”, em “Moana” temos uma jovem que se recusa a aceitar a posição de princesa ansiando alçar voos mais altos – ou ao menos diferentes do esperado por seus responsáveis e pela sociedade. Este anseio consiste em uma busca de descobrir e aceitar quem ela realmente é – seja libertando seus poderes e gritando “Livre Estou” em um castelo feito de gelo ou indo para alto-mar e cantando “Eu Sou Moana” à plenos pulmões. Curiosamente, não há mais ninguém nas duas cenas senão a protagonista, de forma que a declaração parece ser algo feito mais para si mesma e para o mundo do que para alguém em específico.

Embora carregada de uma mensagem forte de auto-determinação em relação ao seu destino, principalmente para mulheres, o subtexto sozinho não mantém um filme. O fato de “Moana” funcionar como um road movie – um filme de estrada, só que no mar – agrava ainda mais a situação, porque passamos grande parte do longa com somente dois personagens, a própria Moana e o semideus Maui. Ambos são simpáticos, mas não têm carisma suficiente para suster o filme também.

Então o que faz “Moana” funcionar tão bem? A mitologia e o mundo apresentados.

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O semideus, Maui.

Desde a cena de abertura, no qual a Vovó conta a lenda da criação de seu povo, e de como Maui roubou o Coração de Te Fiti há mil anos, soltando caos e destruição pelo mundo, já somos embarcados no universo apresentado. As criaturas, dimensões e locais que são apresentados são maravilhosos em sua concepção, bebendo largamente da mitologia polinésia (embora não sem controvérsias); quando o filme acaba, queremos uma parte 2 que nos mostre mais deste panteão e destes monstros que habitam a imaginação de um povo – e, agora, também a nossa.

Mais do que apenas o conceito, a forma que ele nos é mostrado é belíssima. “Moana” talvez seja um dos filmes mais bonitos que a Disney fez nos últimos anos, com cores vibrantes e cenários exuberantes. O 3D é completamente dispensável, principalmente porque mesmo em duas dimensões o filme já te submerge, seja no movimento das ondas no mar ou em como o cabelo de Moana e Maui balançam ao vento de forma tão realística.

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Destaque para a iluminação dessa cena.

Caso estes dois argumentos ainda não tenham te convencido a ir ver a animação, então vá pela trilha sonora. Com músicas originais compostas por Lin-Manuel Miranda (do venerado musical “Hamilton”, que conta a história de um fundador da democracia americana em forma de rap) e trilha incidental de Mark Mancina, cada canção traz ainda mais dos elementos culturais do filme; ouvir uma parte da letra cantada em tokelauan tem o mesmo efeito de quando ouvíamos a abertura de “Ciclo Sem Fim”/”Circle of Life” em zulu: você se sente .

Vale ainda dizer que as canções funcionam tanto em português quanto em inglês, e que as versões dubladas não deixam a desejar para as originais. Dentre todas as diversas músicas do filme, chamo a atenção para “Pra Ir Além”, que mesmo fora do contexto do filme faz arrepiar até a alma em seu refrão – e destaco o verso “contando histórias do passado, nossa herança se mantém” porque… Que verso, não?

No geral, “Moana” é um filme que consolida o novo formato Disney para suas personagens, transformando-as de princesas em mulheres que inspiram meninos e meninas com uma mensagem de conquista e aceitação de sua identidade e propósito no mundo. Como filme, diverte as crianças e entretém os mais velhos com um universo rico e visuais incríveis. Independentemente do seu papel em Motunui, “Moana” está destinada a ser mais um sucesso da Disney – tanto em bilheteria quanto em seu propósito como arte.


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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.