Resenha | Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (2019): um festival de horror e ascensão

Vindo de trabalhos com curtas metragens, é um tanto fascinante e empolgante a habilidade que Ari Aster tem como diretor. Em seu segundo longa, mais uma vez o cineasta apostou no terror psicológico para desenrolar uma trama efervescente. Um bom uso de luz, combinado de contrastes claros, antropologia, folclore e rituais pagãos foi tudo o que a mente por trás de “Hereditário” precisou para fazer de “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” um culto de horror sobre ascensão. Recolha as expectativas para o solstício de verão, pois o festival já começou.

Título: Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (“Midsommar”)
Ano: 2019
Direção: Ari Aster
Pipocas: 7,2/10

Em menos de um minuto em tela, a película já inicia com Florence Pugh (“O Passageiro“) brilhando em cena. Abrindo com uma excelente carga dramática, conhecemos Dani, a protagonista da história. Desesperada e instável, a jovem tenta lidar com uma crise familiar, ao mesmo tempo que sofre pelo rumo que a sua relação com Christian (Jack Raynor, “Transformers: A Era da Extinção”) vem tomando. Em meio a esse turbilhão de emoções, ela decide partir em viagem junto com o namorado e seus amigos para uma vila sueca. Um evento peculiar era o que imaginavam encontrar, só não esperavam como seria.

Imagine que você estivesse num estado de aflição tão grande, mas tão grande, que qualquer coisa que significasse uma sensação diferente poderia compensar, e o que surge é uma viagem que não estava nos planos, e ainda assim, você se joga para não perder a oportunidade. O destino então se mostra um lugar agradável, com clima e cores diferentes da realidade de outrora, e tudo que você mais quer é se conectar inteiramente com o local e aproveitar a brecha de alívio que poderá ter.

Tudo indicava que seria assim, porém, o que se revela é uma comunidade com uma cultura “incomum” com direito a rituais, alucinógenos, imolação e auto imolação.

É perceptível que, em apenas dois filmes, Aster conseguiu reunir características similares entre suas obras para traçar o escopo que define as tramas. Luto, personagens em crise, rituais, subtrama sobrenatural e o mais interessante, mulheres fortes como cabeças da história. Tendo Toni Collette chamado a atenção pela sua performance em “Hereditário”, Pugh só acrescenta para esse aspecto poderoso, perante sua atuação intensa e equilíbrio para com o papel de Dani.

Além de trazer discussões semelhantes do seu trabalho anterior, Aster reforçou seu estilo pela maneira minuciosa que executou as cenas. Em pelo menos três vezes o espelho foi utilizado para explorar as nuances pungentes em que os personagens se viam envoltos, apontando assim, para desenvolvimento mais intimista entre a protagonista e coadjuvantes.

A exuberância da direção fica mais evidente quando Aster aplica um pouco de determinação em cenas que poderiam resultar em algo comum – como quando Dani e os demais estão na estrada e a câmera fica de cabeça para baixo – ou quando capturou do alto o tour que os personagens fizeram para chegar no local onde o festival aconteceria, inserindo apenas um efeito sonoro.

Diferente das reações exageradas de Collette e Alex Wolf no longa antecessor, Aster divide as reações dos personagens com o público. É como se o espectador sentado na poltrona do cinema fosse convidado, com todos os pensamentos e julgamentos acerca do que está vendo, para acompanhar tal acontecimento.

O engraçado é que em nenhum momento o filme oculta o que irá se suceder, desde pinturas, figuras e quadros na parede há uma dica do que vem pela frente. O primeiro frame do longa, inclusive, é um exemplo de demonstração. E o que acontece é intencionado para causa alguma reação ao público. Para um festival que decorre uma vez por ano, perante a completa convicção na tradição que mantém, a comunidade da vila sueca fará de tudo pelo objetivo que defendem.

Mesmo as expressões excessivas do elenco não sendo requisitada aqui, Aster apela com persistência para causar desconforto através de imagens gráficas e exposições viscerais que provavelmente causarão embrulhos em estômagos mais fracos. E mais do que incomodar com figurações violentas, o intuito é passar a veracidade do fim que o ritual terá.

Para alguém como Dani, que buscava uma cura para sua ansiedade, em qualquer artifício ou orientação, seria de grande valia, mas o que se abriu foi um abraço parecido com aquilo que perdera: a segurança do elo familiar. E ser arrebatada para a dança foi como deixar ir o que de fato não lhe dava paz, nem felicidade, e sim, uma sobrecarga que ela não  conciliava. O caminho para tal finalidade não é nada agradável, mas desolador e agonizante.

Com a trilha sonora assumindo um aspecto estridente e agudo, juntamente a uma fotografia de encher os olhos, ao se designar formalmente com o figurino e ornamentações excêntricas e uma ambientação bucólica. Ao mesmo tempo em que ganha pontos por alguns aspectos, “Midsommar” fraqueja pela trama calculada de que faz parte.

Mesmo tendo a sorte de ter Pugh no papel principal, os demais personagens destoam da relevância que apresentaram no começo, assim como o drama fantástico com o qual iniciamos o filme. De fato, tinha algo de valioso ali que elevou a essência da coisa sem preliminares, mas que aos poucos foi redirecionada para algo ainda válido, mas não tão potente.

Apesar de dar ao espectador a noção do que pode acontecer, “Midsommar” sofre com os resquícios da previsibilidade de um roteiro frouxo. É possível até ver os desenhos de uma fórmula sendo inserida nas circunstâncias, o que em algum momento possibilita uma atmosfera enfadonha sobre a narrativa, ofuscando o ritmo e o ápice final.

De todo modo, “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” é um filme que faz jus ao que se propõe como um terror psicológico. E, apesar de tanta beleza técnica, a longa duração só não conteve o talento fabuloso de Florence Pugh. Em suma, ainda rende uma experiência incômoda, conflituosa e extravagante.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.