Resenha | Meu Amigo Totoro (1988): a amabilidade em forma de desenho

O cinema ocidental aprendeu com o tempo e a resposta das multidões que a ousadia e imprevisibilidade fazem grandes histórias. Os plot twists assumiram um caráter central na estrutura narrativa, e os maiores filmes passaram a ser lembrados por sua virada inesperada. O cinema japonês, com sua formação diferente, deu à luz o Estúdio Ghibli, que tradicionalmente busca encontrar o fantástico no cotidiano. Ao contrário do denso “Túmulo dos Vagalumes“, “Meu Amigo Totoro” veio para apresentar não só o personagem-símbolo do estúdio, mas também para estabelecer o cuidado e a adorável simplicidade que seriam icônicos para suas produções.

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Título: Meu Amigo Totoro (“Tonari no Totoro”)

Direção: Hayao Miyazaki

Ano: 2018

Pipocas: 10/10

Satsuki e Mei são duas meninas que se mudam para o interior como parte de uma série de medidas da família para que possam cuidar da mãe doente. Enquanto se adequam à nova casa e sua nova realidade, as meninas encontram espíritos na floresta que fazem com que sua mudança se transforme em uma aventura. Isto é tudo o que, superficialmente, se vê no roteiro. A trama é tão simples quanto é linear, contando somente com um conflito trivial que é resolvido facilmente. Isso se dá porque “Meu Amigo Totoro” sabe que seu ponto forte não é sua complexidade, mas a amabilidade e a delicadeza com que explora o cotidiano a partir do ponto de vista de crianças.

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Assim, é interessante pensar no filme como um mergulho na realidade infantil de uma adaptação difícil. A poeira se torna criaturas em fuga, o mistério do que há dentro da floresta logo se revela como um gigante gentil, a percepção distorcida do tempo explica como sementes crescem da noite para o dia, e a insegurança do horário de chegada do pai é amenizada quando algo inexplicável surge na escuridão. Assim como nós preenchíamos as lacunas da nossa infância com realidades alternativas – porque só porque é imaginário, não significa que não seja real -, Satsuki e Mei aliviam os incômodos da mudança e da ausência da mãe através de uma magia pura e infantil.

Dito isso, muito mais divertido é enxergar o filme de forma literal. Se o seu nível de suspensão de descrença for alto como o meu, tudo o que as irmãs vivem em sua floresta é real, do Gatônibus aos susuwatari, passando, é claro, pelo nosso amigo Totoro. Por esta visão, o místico deixa de ser uma forma de preencher vazios, e a natureza passa a conspirar pelo bem das crianças que também a querem tão bem.

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Soma-se a essa delicadeza uma animação com beleza à altura e uma trilha sonora apaixonante, e é a inocente mistura resultante que faz com que esta seja uma animação tão amável e inesquecível. Ao mergulhar na capacidade da imaginação, o longa estimula crianças enquanto reaviva as memórias de dias mais simples que jovens e adultos guardam com tanto carinho. Se fosse necessário escolher um filme somente para ver com uma criança… Provavelmente seria “Toy Story“, certo. Ainda assim, “Meu Amigo Totoro” vem apertado em segundo lugar, trazendo o que há de melhor na infância para todas as faixas etárias.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.