Resenha | Medo Viral (2018) – desperdiçando potencial com muita competência

A tecnologia cada vez mais se vende para nós com melhorias para tornar nossas experiências excepcionais. Com a Internet das Coisas, fica difícil deixarmos de optar por acessórios que facilitam a tradicional rotina. Mas um desses acessórios que nunca deixamos de lado, é o amiguinho smartphone. Se este ano o terror já se propôs a falar do hábito de tirar selfies, com o ridículo “Selfie Para o Inferno”, a análise da vez dedicou-se a discutir a maneira que usamos o celular. A faca e o queijo estavam na mão perante o conceito ambicioso por trás de “Medo Viral”, mas a mania de levar o gênero com sustos baratos, desperdiçou o potencial em pauta e o transformou em um filme oco.

Título: Medo Viral (“Bedeviled”)

Direção: Abel Vang, Burlee Vang

Ano: 2018

Pipocas: 3/10

 

Antes mesmo de tirar a roupa ao chegar do trabalho ou de qualquer outro lugar, é muito mais fácil ficarmos paralisados checando as curtidas no Instagram, Facebook, os retuítes, ou as mensagens no Telegram e WhatsApp. Além desses apps mais famosos, existem muitos outros que adquirimos e moldamos no cotidiano; seja um reprodutor de vídeo, editor de fotos, um jogo, etc. E para não ficarmos sem, acabamos cedendo a tão requerida permissão de acesso para os nossos dados – isso quando é o básico. E se essa permissão se convertesse em um incomodo constante para a sua privacidade e afetasse o seu dia a dia? Claramente pensaríamos duas vezes antes de permitir qualquer informação para os apps que instalamos.

Bem, é com esse tipo de realidade que Alice (Saxon Sharbino) e os seus amigos tiveram que lidar depois que aceitaram o convite de um app com uma espécie de Siri demoníaca, que garantia muitos auxílios, mas depois revelou ser mais que isso ao trazer à tona o medo de cada um e persegui-los até a morte.

Saxon Sharbino como Alex.

Quando as funções do aplicativo deram as caras no longa, parecia se tratar de uma película totalmente diferente da sua cena inicial – prova viva de que saber assustar seria o ponto fraco de “Medo Viral” -: um tipo Siri bem mais ousado, aberto a mais respostas e intimidade além do esperado, assim se apresentou o chamado Sr. Bedeviled – o personagem do app de nome desconhecido. É realmente engraçado e absurdo como a dublagem de um aplicativo é a única coisa carismática e envolvente nesse filme, conseguindo deixar qualquer cena chata algo hilário e envolvente. Felizmente é mais um caso dos vilões roubando a cena.

Ficando claro que nem a protagonista conseguiria passar empatia, ao menos poderia se esperar a luz vinda do coadjuvante ou qualquer outro membro do elenco, mas a situação é tão séria que o elenco e personagens são sem alma mesmo. Temos aqui personagens sem autenticidade, inclinados a motivações vazias, com discursos precoces e vazios simplesmente jogados em tela para provar não sei o quê. Bedeviled é o protagonista.

medo viral
Da esquerda para a direita, Carson Bateman, Alexis G. Zall Brandon Soo Hoo e Victory Van Tuyl.

Se nenhuma virtude ou complexidade pareceu convincente com os personagens, o que restou foram os seus medos, os quais Bedeviled tinha ciência e estava disposto a usar e garantir o terror para os protagonistas e público. A impressão que ficou é que os roteiristas selecionaram os primeiros piores medos que vieram na cabeça e inseriram no longa, o que fez o filme pecar no quesito terror, mas ganhar no terrir.

Assim, se fez “Medo Viral”, um filme corriqueiro e vago, que entregava as “cenas aterrorizantes” para em seguida mostrar uma cena plena. Aconteceu mesmo, voltaram atrás ou terror do filme se resume a gritos, jumpscares e figuras bizarras que não convencem em momento algum?

Um filme para ser assustador não precisa de bizarrices e sustos fáceis, mas de uma boa trama coerente que consiga prender o telespectador, coisa que Abel e Burlee Vang não souberam fazer aqui. A crítica voltada para o vício que nos impomos usando o smartphone, expondo intimidades, bem como a vulnerabilidade cedida nos aplicativos, estava muito bem colocada quando “Medo Viral” colocava o pé no chão. Outro bom ponto foi quando “Medo Viral” introduziu uma figura interessante na trama, e na maneira pessoal de mostrar como um app poderia ser invasivo. Mesmo que corresse o risco de ser comparado a “Black Mirror” – ainda que não tenha o apelo – o longa poderia ter sido bem mais aproveitado do que se resumir como mais um fraco terror que logo será esquecido.

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.