Resenha: Desventuras em Série I: Mau Começo (2001)

Ah, meu caro leitor, se você soubesse como essa resenha descreve um livro terrível – o qual, por sua vez, relata uma história cruel e infeliz de três jovens órfãos, e todas as suas desventuras, que pareciam nunca acabar. Pelo contrário: o primeiro livro redigido pelo corajoso Lemony Snicket conta somente o início de uma série de infortúnios vividos pelas crianças – que logo mais ganhará uma série pela Netflix.

Estas são as Desventuras em Série, e este é somente o seu “Mau Começo”.

mau começo 1

No primeiro livro, conhecemos os irmãos Baudelaire: Violet, a mais velha, é uma inventora nata, e sempre move os cabelos para trás da orelha quando as engrenagens do seu cérebro começam a girar. Klaus é um garoto muito inteligente, e um leitor ávido, além de ser o irmão do meio. Sunny Baudelaire é praticamente um bebê, que tem dentes fortes e adora morder coisas – e também é mais inteligente do que aparenta, embora somente se comunique por sílabas aparentemente desconexas. Logo no início do livro, os pais das crianças morrem em um incêndio suspeito, deixando uma enorme fortuna para os Baudelaire, que são enviados para viver com um parente que, além de ser estranho, era um estranho.

O livro é redigido de maneira terrivelmente formidável; aliterações alucinantes e alegorias alarmantes somam-se a uma narrativa cadenciada que é redigida com esmero. O fato de o autor também ser um personagem acrescenta riqueza logo no prólogo da história.

Para Beatrice – querida, amada, morta.

Isso marca um ponto muito importante do estilo de Snicket: a metalinguagem. Enquanto ele relata a história, algumas de suas experiências também surgem no livro, e sua visão do que ocorre com os irmãos Baudelaire sempre transpiram um pouco de si também. Outro exemplo deste estilo que o autor usa é quando ele explica para o leitor palavras muito claras, fazendo-nos sentir menosprezados, como se fôssemos burros – exatamente como os irmãos se sentem quando os adultos são condescendentes e explicam coisas óbvias para eles.

Entre a onisciência de sua pesquisa e suas percepções enviesadas, Snicket nos dá uma visão única de uma história macabramente singular.

Sunny estava numa idade em que a maior parte do tempo a criança fala por uma série de gritos ininteligíveis. A não ser quando ela usava as poucas palavras de verdade que constavam de seu vocabulário, como mamã, mamá e dá!, a maioria das pessoas tinha dificuldade para entender o que Sunny estava dizendo. Por exemplo, nessa manhã ela disse ‘gá!’ muitas e muitas vezes, o que provavelmente era para se entender como ‘vejam só essa figura misteriosa surgindo do nevoeiro!’

Caso o estilo de Snicket já não compensasse a leitura do livro, a maneira como ele conduz sua drama – digo, trama – nos apresenta a personagens deveras intrigantes. Fora os irmãos, que têm um relacionamento tão belo quanto o seu futuro é sombrio, um vilão memorável surge das páginas horripilantes de “Mau Começo”: Conde Olaf, um homem mau e misterioso, parte de uma seita escusa, que parece claramente mais interessado na fortuna dos Baudelaire do que no bem-estar das crianças.

No entanto, Olaf logo descobre que as crianças só terão acesso à fortuna dos pais quando Violet alcançar a maioridade. Até lá, somente circunstâncias muito absurdas poderiam levar essa fortuna para as mãos de outra pessoa – como, por exemplo, as de um certo conde…

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“Mau Começo” é uma leitura rápida – em pouco mais de uma hora você mata, e deixa o livro morto tal qual nossa saudosa Beatrice -, e horrorosamente divertida e curiosa durante sua viagem. Ao terminar, você certamente terá vontade de desbravar o que mais haverá no futuro sombrio dos jovens Baudelaire. Para te poupar o trabalho, posso te dizer que o que acontece no próximo livro é terrível, tenebroso e… Escamoso?

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.