Resenha: Luke Cage – 1ª Temporada

Ao longo dos seus treze episódios a primeira temporada de Luke Cage colhe muitos louros por diversos motivos diferentes. Dentre tantos, colocar mais uma pedra extremamente sólida no universo urbano que a Marvel está construindo na Netflix é algo notável. O planejamento para que essa faceta dos personagens da editora chegue ao público é realmente invejável, pois vai desde a colocação de fatos que entrelaçam os personagens até então apresentados, até as cores temas das séries, o vermelho (Demolidor), o roxo (Jéssica Jones) e o amarelo (Luke Cage). Caso você não esteja totalmente familiarizado com o personagem da resenha a seguir, o pessoal do Cinescópio TV pode te ajudar com o Quadrinhoscópio de Luke Cage.

Obs.: talvez haja spoilers leves abaixo, nada que estrague a sua experiência com a série, claro. Caso não queira spoilers, veja nossas Primeiras Impressões da série.

Luke Cage - Primeira Temporada

A trama principal da série é contar a origem de Luke Cage (Mike Colter) e dos personagens do seu universo, algo feito com muito sucesso. Ao mesmo tempo que algumas coisas precisaram ser modernizadas, outras foram mantidas e referenciadas com muita competência. Nesse aspecto, a série é capaz de agradar muito mais do que causar polêmica. Como dito, a jornada de Carl Lucas para se tornar Luke Cage não é a única trama a ser desenvolvida. Talvez o ponto mais extraordinário da primeira temporada desse super-herói seja o fato de que ela conseguiu devolver vários personagens simultaneamente de maneira extremamente harmônica. Os vilões “Cottonmouth” (Mahershala Ali), Mariah Dillard (Alfre Woodard) e “Diamondback” (Erik Laray Harvey), são completamente humanizados e suas atitudes hediondas quase são justificadas pelo background que lhes é dado. A detetive Mercedes “Misty” Knight (Simone Missick) é muito bem trabalhada e se torna uma coadjuvante de muito peso e, por fim, se as participações de Claire Temple (Rosario Dawson) foram muito rápidas e, talvez, até insatisfatórias nas outras séries, em Luke Cage ela ganha brilho e importância. Aliás, a participação feminina nessa série chama a atenção pela quantidade, qualidade e relevância.

Outra grande sacada da Marvel ao produzir Luke Cage foi fazê-la pertencer a um gênero, primeiramente, para depois inserir a figura do herói superpoderoso. Isso faz toda a diferença para dar frescor a um tipo de história que, sejamos honestos, é tão amado quanto cheio de clichês. Dessa forma, é possível ver características muito evidentes de Blaxploitation na série, algo que, de certa forma,  também está permeado nos quadrinhos do personagem. Assim, o ideal da série de Luke Cage é mostrar a cultura das ruas de Nova Iorque (especificamente do Harlem), os problemas urbanos – como o preconceito, a violência, o mundo do crime e os caminhos que, normalmente, levam as pessoas até eles – e, por fim, a trilha sonora – Black Music da melhor qualidade em suas mais diversas vertentes.

E é nesse ambiente bem construído e apresentado que o homem à prova de balas está inserido.

Luke Cage - Primeira Temporada

Entender essa estrutura é a diferença entre aproveitar a série ao máximo e reclamar do “ritmo lento” com o qual ela se desenvolve. Com isso em mente, é possível dizer que a série foi bem sucedida em todos os sentidos. Primeiramente, por mostrar a realidade feia e desconfortável de segmentos marginalizados da sociedade, vítimas de preconceito e com pouquíssimos caminhos a seguir, sendo que a maioria dessas vias têm consequências desastrosas. Em seguida, Luke Cage usa a figura do super-herói como algo muito mais palpável do que ser o baluarte da ordem moral e dos bons costumes. O personagem representa isso também, mas de uma maneira muito mais próxima, não apenas para os jovens da periferia (do Harlem ou de qualquer lugar), mas para mim e você, que somos inocentes de algumas coisas, mas culpados de tantas outras.

Por fim, Luke Cage consegue fazer crítica político-social e promover representatividade enquanto é uma excelente série de super-herói com direito a quebra-pau e discursos inspiradores. Definitivamente, o melhor de dois mundos.

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