Resenha (sem spoilers): Logan (2017) – a mudança no cenário dos heróis

É assim que é a vida, Logan. Pessoas que se amam, um lar. Se dê um tempo, sinta isso. Você ainda tem tempo.

logan sem spoilers

Título: Logan

Diretor: James Mangold

Ano: 2017

Pipocas: 10/10

Filmes de heróis estão em alta. Sucessos de bilheteria como “Vingadores“, “Batman v Superman“, “Homem de Ferro” e vários outros estão sempre motivando os estúdios a continuar financiando este gênero, nos trazendo mais histórias heroicas, com personagens engraçados e cativantes, com cenas de ação eletrizantes e um final onde o mundo é salvo. Mas, ultimamente o gênero tem, aos poucos, se transformado. Apresentando um clima mais pesado, como em “Homem de Aço” e a trilogia “Cavaleiro das Trevas”, ou até mesmo trazendo uma violência e humor para um público mais velho como em “Deadpool“. “Logan” foi apresentado nos trailers, posters e fotos como um símbolo desta transformação.

O ano é 2029 e todos os X-men estão mortos, com exceção de Logan (Hugh Jackman) e Charles Xavier (Patrick Stewart). Logan está envelhecendo; seu corpo e poderes não são mais os mesmos e, com a ajuda de Caliban, ele cuida de Xavier, que está com uma doença degenerativa. Com seu trabalho de motorista, consegue medicamentos para conter a doença do Professor e se manter vivo. Uma mulher desesperada tenta contato com Logan, pedindo para que ele transporte uma garota do Texas para Dacota do Norte. Inicialmente Logan não aceita, mas após ver que Laura é muito parecida com ele, e sob a insistência do Professor, ele aceita o trabalho.

Laura (Dafne Keen) tem as garras de adamantium, assim como Logan, e também seu fator de cura, além de sua personalidade selvagem e nada amigável. A menina era cobaia para experimentos científicos para a construção de um “super-exército”, mas conseguiu fugir com outras crianças. Um grupo conhecido com “Carniceiros” persegue Logan e Laura desde o início da jornada, tentando recuperar a garota para continuar os experimentos.

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O roteiro já começa ousado quando não se trata de uma história onde o herói pretende salvar o mundo, mas sim fazer um trabalho para continuar seguindo a vida. Contudo, o mais relevante de toda a trama é a desconstrução de personagens tão poderosos como Xavier e Logan, e as relações interpessoais dos protagonistas. Xavier e Logan tem uma relação de pai e filho, e no filme Logan se dirige a ele como pai algumas vezes. Um pai necessitado e um filho preocupado, tentando de tudo para manter ele a salvo e as pessoas em volta também, pois a mente de Xavier foi classificada como “arma de destruição em massa”, e, com a doença, ele já não controla bem seus poderes. Além deste relacionamento, Logan tenta escapar do papel de pai para Laura, que percebe que o homem é como ela e tenta se aproximar, enquanto ele apenas a afasta, por medo de se machucar mais.

A interação entre Logan e Xavier traz muita profundidade para os personagens, revelando medos, decepções, perdas e elementos não muito bonitinhos para se colocar em uma história de “herói”. Já a interação entre Laura e Logan é mais trabalhada para o meio do filme e o final, transformando o clássico personagem em algo que não estamos acostumados a ver.

A violência é extrema, com vísceras e sangue jorrando para todos os lados desde os primeiros minutos do filme. Temos cenas de ação onde a dor é mostrada de perto e os cortes não são tão limpos e precisos. Garras entram na axila, rasgam a coxa, saem pela bochecha, trazendo um tom mais real para o combate. A sanguinolência é trazida de forma importante, para a construção dos personagens, como animais, armas e a transformação para algo melhor.

Não é possível não associar algumas cenas do filme com o jogo The Last of Us, que, assim como “Logan”, conta a história de um homem velho, num mundo pós-apocalíptico, que deve transportar uma garota e tenta não criar um vínculo paterno.

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Com cenas intensas, enredo forte e personagens falhos e densos, “Logan” apresentou uma história de seres com habilidades sobrenaturais, mas com consequências reais. Os anos de violência pesando nas costas de um assassino, a idade consumindo o cérebro mais poderoso do mundo e um futuro duvidoso para uma criança selvagem. “Logan” é um marco para adaptações de quadrinhos para o cinema, mostrando que há mais de uma forma de se contar uma história deste gênero.


 

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caiosantanasilveira

Professor, fotógrafo, sashônico, randômico e Mestre das Orcas às terças-feiras