Resenha: Laranja Mecânica (1962) – O Livro do Seu Desejo Horrorshow

Qual é o propósito de uma laranja?

Estamos falando da fruta, e não da cor; aquela véssiche redonda, cítrica, que te estala os zubes e contorce seu litso. Para quê serve uma laranja?

Se você não serve qual é o objetivo de uma laranja existir, como saber se ela funciona?

“Laranja Mecânica” é um livro escrito em 1962 por Anthony Burgess sobre ser perfeito em algo que você não deveria nem mesmo ser, e sobre a liberdade para ser mal.

Qual vai ser o programa, hein? Venha comigo, drugue. Esse texto vai ser muito horrorshow.

laranja mecânica 1

Começamos “Laranja Mecânica” videando o molodoi Alex, de 15 anos, e seus drugues causando um caos muito horrorshow pelas ruas de sua cidade. Depois de muitos toltchoques e ultraviolência – desde espancamentos espontâneos a estupros e pedofilia -, Alex acaba sendo pego em uma das suas atividades nadsat, e a polícia o joga na cadeia. Dois anos se passam, e Alex acaba envolvido em outra confusão bezúmine na sua cela, e o Estado – grande, maravilhoso Estado – resolve curar Alex de sua psicopatia para poder reinseri-lo na sociedade.

Através de um tratamento de choque – o Tratamento Ludovico -, Alex é obrigado a ver cenas horríveis de conteúdo diverso enquanto seu corpo reage a drogas que provocam enjoo, vertigem e mal-estar como um todo. O tratamento comportamental funciona, e logo Alex não sente mais prazer nos seus atos anteriores, mas uma ojeriza incontrolável.

É assim que Alex perde a capacidade de ser mal, e sua humanidade é posta à prova.

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Como seres humanos, somos a espécie dominante do planeta por termos, dentre outras coisas, a capacidade de discernimento e escolha; sob diversos pontos de vista, um dos pilares de nossa humanidade é o nosso livre-arbítrio, mesmo que isso implique na impossibilidade de cometer erros – e não me refiro a erros pequenos, somente.

Alex é um drugue realmente mau. Alex vê um velho na rua e pensa como seria arrebentar seus zubes. Alex deita em sua cama e ouve um Beethoven horrorshow e fecha os olhos, sonhando acordado, e se imagina estuprando várias mulheres, e ejacula em sua calça em meio a um estupro coletivo imaginário quando a Nona alcança seu ápice. Seus pais o temem e seus drugues o respeitam. Os policiais o conhecem, mas jamais conseguem o prender.

E, como se não fosse o suficiente, Alex se torna um homicida. Aos 15 anos de idade.

Ainda assim, Alex é um ser humano e, por mais que seus direitos de ir e vir sejam restritos por consequência de seus atos, cabe à humanidade a capacidade de restringir sua vontade? Ou, como diz o charlie da prisão:

A bondade vem de dentro, 6655321. A bondade é uma coisa que se escolhe. Quando alguém não pode escolher, deixa de ser humano.

Mas e quanto aos humanos que Alex agride, violenta e mata? No processo de perderem suas vidas, eles obviamente deixaram de ter qualquer possibilidade de escolha, além da dignidade. Se há uma alternativa que neutraliza a ameaça que Alex representa, sem matá-lo, por que não?

Por que não inocular um jovem ultraviolento e terrível e devolvê-lo para ser produtivo na sociedade em vez de usar dinheiro de impostos para custear sua estadia e comida por anos a fio? Por que mesmo gastar dinheiro de promotores e com injeção letal para uma pena capital se eu posso torná-lo uma engrenagem funcional na minha estrutura social?

Por que questionar qual o propósito de sua existência se eu posso usá-lo para o bem maior?

Qual o propósito de uma laranja?

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Alguns ainda haveriam de advogar que o mau é necessário para um balanço universal – se não de forma cármica, cósmica, de uma maneira prática. Além disso, também poderia defender-se que o ser humano é, na verdade, intrinsecamente mau; Alex deve, de fato, ser punido por seus atos terríveis, mas seria algo factível ou desejável extirpá-lo de sua natureza, e de algo que constitui sua identidade?

Mais ainda, a ruindade faz parte do ser, do eu, tanto em mim quanto em vocês no odinoque, e este eu é feito por Bog, ou Deus, e é o seu grande orgulho e radoste.

E este ponto de Alex é provado quando o próprio retorna para a sociedade. Alex encontra um veque no qual deu um toltchoque anteriormente, e este velho – um bom e íntegro professor – se junta a outros idosos e espancam Alex – jogado no chão, impedido de reagir pelo forte enjoo que violência agora suscita em seu corpo. Enquanto implora por misericórdia, provando que cumpriu seu tempo de cadeia e foi legalmente liberto, Alex é espancado por velhos que gritam por vingança.

De lá, Alex segue buscando algum lugar para lhe abrigar, e o destino o põe na mesma casa na qual, há poucos anos, estuprou e matou uma mulher. O marido dela, um engajado escritor que se opõe ao governo e tenta evitar que ele se reeleja, não reconhece Alex, mas vê nele uma oportunidade de usá-lo como uma bandeira contra o governo. Mesmo antes de perceber que foi o rapaz quem matou sua esposa, o escritor não hesita em combinar com seus aliados uma forma de transformar o garoto-monstro em um mártir.

Em outras palavras, se não é somente em Alex que vive o mal, por que somente dele tal força deve ser extraída?

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Você, leitor, é posto no lugar da sociedade, obrigada a assistir toda a crueldade que Alex perpetra pelo mundo. Você não entende a gíria nadsat, que o autor usa à exaustão, e não entende os eslovos que ele usa, perdido entre “horrorshow”, “bitvas” e “toltchoques”. Enquanto Alex e seus drugues estupram uma mulher espancada ao chão, você, ó meu amigo e amiga, só assiste.

Por outro lado, você também é a sociedade que se vinga de todas as formas possíveis; você tortura um Alex reformado, somente para matar sua sede de sangue. Alex cumpriu sua pena devida e é fisicamente incapaz de cometer ultraviolência, e ainda assim você o espanca quando ele está no chão. O quão melhor que ele você é?

Todas essas véssiches tornam “A Laranja Mecânica” um livro profundamente perturbador – e digo isso logo após ler “O Exorcista“, o que é bem relevante. Você, ó caro leitor, vai de espectador impotente frente ao mal para o próprio perpetrador do mal – e você gosta. Você gosta do processo no qual o ser humano é desumanizado porque ele desumanizou alguém antes.

O Tratamento Ludovico acaba, e Alex funciona muito bem – todas as suas engrenagens funcionam como a sociedade quer. Ainda assim, se Alex for uma laranja, não cabe a ele marcar as horas, mas ser amargo e turvar os seus sentidos. Mas agora ele está ali, desumano e funcional, um infeliz membro da sociedade.

E agora? Está satisfeito?

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.