Resenha: Lady Bird: A Hora de Voar (2018): a síndrome do ninho cheio

Para muitos, deixar seu lar é um exercício difícil e até possivelmente traumático. Romper com laços para alcançar novos destinos muitas vezes é penoso, e não é incomum que pais (e, em certa medida, os filhos) sintam a chamada Síndrome do Ninho Vazio – a sensação de ausência gritante após seus rebentos saírem de casa. “Lady Bird: A Hora de Voar” conta a história de uma perspectiva oposta: de uma garota que não nasceu para ser engaiolada, e sua luta contra o mundo ao seu redor para conseguir, de fato, voar.

Lady Bird - A Hora de Voar : Poster

Título: Lady Bird: A Hora de Voar (“Lady Bird“)

Diretor: Greta Gerwig

Ano: 2018

Pipocas: 8/10

O filme conta esta história, da moça chamada Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan) que, próxima de completar 18 anos e terminando o colégio de freiras no qual estuda, não vê a hora de largar a cidade de Sacramento, Califórnia, e partir rumo à Costa Leste para seguir seus sonhos artísticos e culturais. Enquanto Lady Bird não vê a hora de ir para longe dali, sua mãe, Marion (Laurie Metcalf), acaba sendo um obstáculo enquanto tenta manter sua filha perto de si.

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Todo o longa se passa neste curto recorte temporal, entre o fim do período anterior da vida de Lady Bird e o começo da próxima etapa. Em outras palavras, a garota vive um tempo de vazio crônico: ela não está inteiramente em Sacramento, mas também ainda não foi para Nova Iorque. “Lady Bird” versa exatamente sobre a dificuldade de se viver um interregno desses, mas também como ele é uma ferramenta de amadurecimento como nenhuma outra.

Isso se dá porque, no vazio de suas definições, Lady Bird se vê obrigada a definir a si mesma independente do seu contexto. Se antes ela estava na escola, ela era aluna, filha, menina; quando estiver na faculdade, ela voltará a ser aluna, mas independente e mulher. Não estando nem lá nem cá, nenhuma das duas configurações de fato se aplicam. Lady Bird então parte a explorar, voando dentro da sua gaiola, tentando se descobrir em amores, diferentes amizades, crenças e hobbies. De galho em galho, ela vai percebendo que nada disso é capaz de preencher a lacuna de identidade que ela tem em si – e talvez, só talvez, ela consiga finalmente se sentir plena somente através da história que ela rejeita.

lady bird

É um relato sensível que a diretora Greta Gerwig (a protagonista de “Frances Ha”) desenvolve com carinho, e isso claramente se deve ao teor autobiográfico de Gerwig, que também saiu de Sacramento para estudar artes em Nova Iorque. Com delicadeza, Gerwig observa Lady Bird se contorcer para saber quem ela é para além do nome que deu a si mesma, com a câmera muitas vezes próxima ao rosto da personagem, capturando cada uma das suas reações, e se afastando quando Lady Bird explode em seus rompantes explosivos e em seus momentos de isolamento.

Com este cuidado e bom ritmo, o filme se desenvolve em uma adorável história e belamente conduzido. “Lady Bird” pode não ser globalmente marcante, mas é intimista e sincero o suficiente para gerar identificação e marcar uma geração – como “As Vantagens de Ser Invisível” fez anteriormente. Os anseios e inseguranças da moça, assim como as decepções que ela enfrenta ao longo do caminho, tão corriqueiras, são colocadas na perspectiva correta para que sintamos o peso de suas escolhas e erros. É o simples feito com excelência.

Do meu viés masculino, não parece ser adequado colocar “Lady Bird” no clichê dele ser “um filme de uma menina transformando-se em mulher”; isso seria reduzir uma jornada a um recorte cronológico. Ele versa sobre a autodescoberta independente de uma mulher que já o era antes mesmo do filme começar. Além de uma ótima película, “Lady Bird” é um excelente abrir de asas na direção para Gerwig.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.