Resenha | Jurassic World: Reino Ameaçado (2018) e sua bela burrice (sem spoilers)

Em um certo ponto de “Jurassic World: Reino Ameaçado”, os personagens discutem como uma invenção tem aplicações diversas, e sobre todo o potencial que ela poderia ter, de forma que a invenção funcionar ou não fica em segundo plano em relação a tudo que ela ainda pode ser. Faz sentido pensar este filme sob o mesmo prisma; embora o novo capítulo da franquia já esteja distante 25 anos e muitos outros anos-luz de seu princípio, em 1993, é relevante considerar o que “Reino Ameaçado” é, mas também tudo o que o filme poderia ser, mas não consegue.

reino ameaçado

Título: Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom)

Diretor: J.A. Bayona

Ano: 2018

Pipocas: 7/10

Na trama, o vulcão da Isla Nublar entra em atividade, e todas as espécies revividas pelo parque Jurassic World agora estão entregues à própria sorte. Elis Mills (Rafe Spall, do episódio White Christmas de Black Mirror) então organiza uma expedição para recuperar o máximo de espécies possível antes de sua destruição. Para tal, convoca Claire (Bryce Dallas Howard, do episódio Nosedive) e Owen (Chris Pratt, “Vingadores: Guerra Infinita“) para capitanear a missão, principalmente para encontrar Blue, um velociraptor especial que tem uma ligação emocional com Owen.

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O filme funciona, de maneira geral, principalmente graças ao carisma de seus atores sob a direção competente de J.A. Bayona (“Sete Minutos Depois da Meia-Noite“). Chris Pratt se consolida com o seu mesmo papel de sempre – é difícil discernir entre Owen e o Senhor das Estrelas -, mas sua simpatia faz com que isso seja positivo. Howard vê sua Claire se tornar mais do que uma coadjuvante para o incrível Sr. Pratt; o crescimento dela a firma como uma protagonista, apesar de não se aprofundarem em sua personagem. O elenco de apoio traz Justice Smith e Daniella Pineda como o geek e a descolada, respectivamente, sendo mais ferramentas narrativas do que pessoas de fato.

Quando Bayona não está dando espaço para a química entre seus atores, ele está compondo belíssimos quadros e construindo tensão de maneira competente. São diversos os enquadramentos que gostaríamos de colocar nas nossas paredes: dinossauros iluminados gradativamente por lava, outros ficando de pé por trás da fumaça e composições entre cavalos e répteis que remontam a diálogos e conceitos do longa. Bayona demonstra ter um ótimo controle sobre seu trabalho, e constroi sequências de suspense competentes; embora apele para jump scares baratos em alguns momentos, o diretor opta, no geral, por colocar o máximo de tensão no mínimo de tempo possível. É impossível dormir nesse filme – o que talvez seja um problema, na verdade.

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Há dois filmes esmagados em um aqui em “Reino Ameaçado”, e isto está bem claro. Sofrendo da “maldição do segundo filme”, ele cumpre uma função dupla de ponte entre o que foi feito anteriormente e o que virá a seguir. A primeira metade serve para encerrar todo um período da franquia, enquanto a segunda parte funciona somente como uma grande introdução. Desta forma, o longa parece desconjuntado, e nenhuma das duas metades é explorada a contento.

Mas talvez o problema mais gritante de “Reino Ameaçado” consista no fato de que seus personagens são agressivamente burros. Todos, do protagonista ao antagonista, em algum momento, fazem alguma escolha absurda em dado momento no filme. As pessoas aqui parecem buscar sempre o caminho mais perigoso e estúpido entre o ponto A e o ponto B. A consequência inevitável é que a suspensão de descrença da audiência é demandada de maneira singular; física, precisão e habilidades atléticas são desafiadas exponencialmente, e é difícil lembrar de que não estamos vendo mais um filme do Universo Cinematográfico Marvel enquanto crianças correm por telhados. Aqui, “se não fosse assim o filme não acontecia” não cabe, sendo que diversas outras soluções, mais interessantes e consideravelmente mais inteligentes, caberiam. Embora o impacto desta questão na avaliação geral do filme varie de pessoa para pessoa, é inegável que os roteiristas sofreram de considerável preguiça ou incompetência na hora de resolver pontos básicos da trama.

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Assim, embora “Reino Ameaçado” consiga retomar a tensão do “Jurassic Park” original, de 25 anos atrás, pouco mais ele consegue ter em comum com seu predecessor. É desleal comparar este capítulo com um filme que revolucionou o cinema à sua época, de forma que o mais que resta da origem neste longa é a lembrança de que ele poderia continuar sendo divertido, incrível e assustador mesmo se fosse menos burro; não é necessário ser estúpido para ter boa ação. De qualquer forma, com dinossauros enquadrados em belas cenas ao lado de atores carismáticos, “Jurassic World: Reino Ameaçado” será um bom entretenimento oco para preencher duas horas de seu fim de semana.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.