Resenha | Jogador Número 1 (2018) é um ótimo tributo à cultura pop

Muitos artistas, ao longo de sua jornada artística, dedicam um momento para lançar uma coletânea de greatest hits: suas canções mais famosas, às vezes com uma tratativa nova ou uma música inédita, são compiladas para agradar os fãs e conquistar novos adeptos. Steven Spielberg, com sua extensa carreira, pode se dar ao luxo de lançar seu próprio “melhores momentos”, com a diferença de não falar diretamente da sua obra e o passo além de incluir… Bem, toda a cultura pop. É isso que o diretor realiza com sucesso em “Jogador Número 1”.

jogador número 1

Título: Jogador Número 1 (“Ready Player One“)

Diretor: Steven Spielberg

Ano: 2018

Pipocas: 8,5/10

No longa, Wade “Parzival/Z” Watts (Tye Sheridan) é um rapaz que vive na parte empobrecida de um mundo futurista em 2045, onde todos se reúnem dentro de um mundo virtual melhor do que a realidade: o OASIS. Lá, Watts e seu amigo Aech lutam para encontrar o Ovo de Halliday, um easter egg colocado no jogo pelo seu criador James Halliday (Mark Rylance) que dará uma herança trilionária e poder executivo sobre o OASIS para quem encontrá-lo. Na busca pelo item, Z se deparará com possíveis aliados e uma corporação sinistra que quer dominar o OASIS para seus próprios fins sinistros.

E se isso parece uma sinopse de um ótimo filme da Sessão da Tarde, não é à toa. Desde os primeiros acordes de “Jump”, do Van Halen, até os créditos com sintetizadores, “Jogador Número 1” é uma obra-homenagem feita por Spielberg como um culto à cultura pop. É um banho de referência: das visuais, com pôsteres e objetos dos anos 80 e 90, até diretas em diálogo e sendo usadas dentro da trama – o longa surra o espectador com inúmeros ambientes e itens conhecidos pela Geração MTV e aquelas que a sucederam. As referências mais divertidas vêm na forma nos avatares que as pessoas assumem dentro do jogo. Prestando atenção, você verá Freddy Kruegers e Jason Vorhees explodindo, bem como motos de animes, soldados de Halo e… Bastante “De Volta Para o Futuro”, incluindo trilha sonora – mas voltamos nesse ponto daqui a pouco.

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Essa abrangência de décadas faz com que “Jogador Número 1” seja um filme que vai alcançar nostálgicos de maneira igualitária, independente da idade, o que por si só é um fenômeno digno de destaque. A nostalgia, por definição, acontece dentro de um nicho – seja por uma década específica, como os anos 80, ou fãs de uma banda ao longo do tempo. Aqui Spielberg rompe essa concepção, e vemos algo raro: a capacidade de conseguir incitar memórias de todos, de forma atemporal. Isto faz com que o filme, assim como o livro de qual ele foi adaptado, tenha chances grandes de ser um sucesso absoluto. Ele consegue uma nostalgia universal, um mérito único para uma obra pop.

Assim, tudo funciona quando estamos dentro do OASIS. A busca pelas pistas dentro das memórias de Halliday, um viciado em cultura pop, justifica o maremoto constante de referências, de forma que não fica forçado, e o instinto aventuresco do filme é impulsionado pela incrível qualidade visual. Em uma das primeiras sequências, temos umas das mais impressionantes cenas de corrida já feitas, e a experiência de vê-la em IMAX e 3D é algo singular, gerando a percepção imediata de que o longa foi feito para ser visto na maior tela possível. Merece o ingresso.

Agora, quando desligamos o OASIS e vamos para o mundo real, o filme perde ímpeto. É um paradoxo: “Jogador Número 1” tem seu foco no mundo digital, mas para que haja o senso de urgência na trama, ela precisa se apoiar no mundo real – o qual, por não ser o foco do filme, tem pouco tempo de tela, e não é desenvolvido o suficiente para se tornar interessante. Desta forma, embora Spielberg seja bem sucedido em pôr um perigo constante sobre os personagens, nem mesmo as boas atuações de Sheridan e Olivia Cooke (de “Bates Motel“) conseguem distrair do deslocamento que o filme demonstra quando lida com personagens de carne e osso. Se ele consegue ser oitentista com sucesso ao utilizar cenas de fuga improváveis e um vilão cartunesco, falta para ele personagens mais carismáticos, como aqueles que eram concebidos naquela década.

Isso é pungente mesmo na trilha sonora de Alan Silvestri – compositor lendário, inclusive do mencionado “De Volta Para o Futuro”. Ela se encaixa perfeitamente quando estamos imersos no OASIS, vendo os anos 70 a 2010 misturados em uma cornucópia digital, mas quando saímos do jogo, ela subitamente parece forçar um senso de anos 80 que não está presente no universo de 2045.

Ainda assim, “Jogador Número 1” é um excelente compilado, executado com perfeição pelo pai dos blockbusters e um dos grandes mestres do cinema popular. Com alta qualidade técnica, um mundo digital impressionante e uma história simples e bem executada, o longa vem para agradar espectadores, independente se eles jogaram AdventureHalo ou Minecraft. Divertido e imersivo, “Jogador Número 1” é um ótimo greatest hits da cultura pop.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.