Resenha | Jogador Número 1 (2012) – O limiar entre real e virtual

“Todos os dias, cada vez mais pessoas tinham motivo para procurar consolo dentro da utopia virtual de Halliday e Morrow.” – Jogador Número 1/Ready Player One

jogador numero 1

Na trama de “Jogador Número 1” (“Ready Player One“), o ano é 2044 e o mundo real está longe de se parecer com aquilo que fora previsto nos filmes de ficção científica dos anos 1980. Diante de tamanha pobreza, escassez de recursos e desamparo social, o mundo virtual se torna não apenas uma distração, mas a única saída viável para não enlouquecer e manter uma vida relativamente comum. O sistema educacional e os empregos foram transferidos para o sistema virtual, de modo que os gastos fossem reduzidos; para não presenciarem constantemente a triste pilha de sucata em que o mundo se transformara, as crianças brincavam e cresciam em um mundo virtual, lúdico e belo: o OASIS.

O OASIS nada mais é que a simulação do mundo real dentro de um console, porém sem a pobreza, as tragédias e o pânico constante, uma verdadeira utopia para a distopia que se tornara realidade. Dentro do OASIS todas as pessoas são livres para viver e se expressar como melhor desejarem, para explorar novos mundos e desfrutar de novos conhecimentos, artes e outras culturas. Com apenas óculos de realidade virtual e luvas sensoriais, encontradas com certa facilidade nas pilhas de lixo eletrônico, qualquer pessoa pode adentrar o OASIS e usufruir de tudo aquilo que sua realidade não pode oferecer.

ready player one

Wade, um garoto pobre e recentemente órfão, cresce e se desenvolve na linha tênue entre o OASIS e o mundo colapsado onde é obrigado a caminhar para fugir de sua tia. O dia seria apenas mais um para Wade, se não fosse pela notícia da morte de Halliday, o criador do OASIS, que após se descobrir como portador de um câncer reprogramou o sistema de seu mundo virtual para possibilitar uma Caça ao Easter Egg, entregando toda sua fortuna para aquele que encontrasse três chaves em todo o OASIS e que conseguisse encontrar o verdadeiro ovo escondido por Halliday.

Ao contrário do esperado, o Ester Egg não é encontrado nos primeiros dias, tampouco nos primeiros meses ou anos e a busca pelas chaves se torna uma necessidade quando uma companhia privada de internet entra na disputa para herdar a fortuna de Halliday, conquistando o total controle da sociedade. Wade, assim como outros caçadores de ovos, se vê na obrigação de batalhar contra o tempo para salvar o OASIS. Assim começa o jogo, mas os riscos são muito maiores que simplesmente perder o histórico e ter de começar do zero.

“Criei o OASIS porque nunca me senti à vontade em casa. Eu não sabia como me relacionar com as pessoas. Senti medo durante toda a minha vida. Até eu saber que estava terminado. Foi quando eu percebi que, por mais assustadora e dolorosa que a realidade possa ser, é também o único lugar onde se pode encontrar felicidade de verdade. Porque a realidade é real. Entendeu?”

A trama de “Jogador Número 1” é muito mais do que uma história de ficção científica; todo o processo de busca pelo Easter Egg é baseado em um estudo aprofundado sobre os anos 1980, década onde Halliday vivera seus melhores anos. O leitor, assim como Wade, descobre e relembra muito dos filmes, músicas, clássicos culturais e, especialmente, jogos que marcaram essa época, navegando pelos grandes nomes e sucessos e desfrutando em cada página pequenos Easter Eggs deixados através de frases e situações-problemas.

Fan art para "Ready Player One".

A leitura é leve, fluida e nostálgica, sendo uma excelente recomendação para quem deseja conhecer mais sobre os anos 1980 e até mesmo para aqueles que (assim como eu) nunca foram apaixonados por videogames. Além disso, é um livro que pode ser apreciado por diversas idades, divertindo desde adolescentes até pessoas mais velhas que não possuem tanto interesse em ficção científica.

Publicado pela primeira vez em 2011 por Ernest Cline nos EUA, e pela Editora Leya em 2012, no Brasil, “Jogador Número 1” traz uma discussão que esbarra em questões extremamente atuais, como a forma na qual a tecnologia está cada vez mais inserida no dia a dia e como nós estamos deixando que o mundo virtual tenha mais valor que a realidade na qual estamos inseridos. Cline também pontua as verdadeiras vantagens da tecnologia imersiva e faz com que surja dentro do leitor a vontade de acessar o OASIS e vivenciar, mesmo que por um curto momento, uma realidade utópica, mágica e deslumbrante.

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Marília Molinari é graduanda em Letras e viciada em comprar livros. Leitora apaixonada de Ayn Rand e Bukowski, tem preguiça de séries de TV muito longas e não entende muito de tecnologia. Você pode segui-la no Twitter e no Instagram.