Resenha | Insatiable (2018) – não é o que você achou que seria

Julgar sem entender ou conhecer é injusto, não é mesmo? Com o tempo aprendemos com os nossos erros, adotamos novas perspectivas, tentamos compensar atos estúpidos fazendo as coisas do jeito certo e até deixamos de viver com as mesmas opiniões formadas sobre tudo. Os internautas justiceiros bem que seguem essa tendência: não mais se aceita um comediante hétero dar vida a um personagem gay ou uma mulher interpretar um homem trans. “Insatiable”, a nova série da Netflix, sofreu com o julgamento precoce por apoiar a gordofobia, já que o seu trailer passou a ideia de que o body shaming (a depreciação do corpo feminino: magra demais, gorda demais, não tem bunda, etc) é algo positivo.

O esperado aconteceu e a internet logo levantou uma petição online (com mais de 120 mil assinaturas) contra o cancelamento do show. A Netflix seguiu firme e forte, rebatendo as críticas e confiante de que a série deveria ser lançada. No dia 10 de agosto, pudemos então conferir a série e descobrir se as críticas estavam certas. Dessa vez, o senso de justiça não estava certo, pois o que você achou sobre “Insatiable”, não o é.

Título: Insatiable

Ano: 2018

Criação: Lauren Gussis

Estrelas: 2,5

 

A trama da série segue a história da jovem Patty Bladell (Debby Ryan) tímida e insegura por constantemente sofrer bullying por conta de seu peso. Após levar um soco na boca e não conseguir comer nada sólido, acabou perdendo trinta quilos, o que a levou a buscar vingança contra os que zombavam de seu corpo agora que é popular. De certa forma, o próprio trailer vendeu o enredo desse jeito, destacando uma Patty furiosa e insaciável para conseguir compensar todo o sofrimento que passou.

Na verdade, “Insatiable” é uma atração difícil de se encarar, principalmente se depender do seu piloto – o qual não consegui assistir de uma só vez sem fazer uma careta de desaprovação – brega, mal construído e repleto de situações jogadas que não puderam passar humor algum. O caminho é desastroso, mas até o final do primeiro capítulo, provavelmente você acabará gostando do que viu e dando uma chance à série – na boa, se passou do piloto, os onze episódios restantes não serão difíceis.

confira o trailer que gerou polêmica

 

Não bastando “Insatiable” ser acusada de gordofobia, logo também foi apontada como uma série homofóbica. A situação chega a ser engraçada, porque se uma obra se propõe a discutir um tema, deverá abordá-lo com todo o cuidado de alguma forma, e no caso da nova série aqui, decidiu falar também sobre sexualidade, homofobia, pedofilia, cyberbullying e muitos outros temas utilizando o humor negro. O show até que acerta na comédia, mas foi uma escolha que corroborou ainda mais para a polêmica gerada bem antes de sua estreia.

O mais injusto é que a gordofobia foi apenas um ponto de partida para que “Insatiable” alargasse as tendas para explorar outros pontos que poderiam ser debatidos, se tornando um pano de fundo no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens – com exceção de Brick (Michael Provost), que nada acrescenta – especialmente Patty. Realmente parecia que a maior contradição estava centrada na protagonista, mas é através dela e do carisma e força de Debby Ryan em representar a jovem que a série se sustenta em meio aos tropeços.

Que ninguém é perfeito, é um fato, assim como saber que não seremos pessoas melhores de um dia para o outro. Somos pessoas complicadas, podendo ser ótimas em algumas coisas e terríveis em outras. Com personagens tão amplos, “Insatiable” apresentou personalidades obsessivas, fragilizadas, vaidosas e magoadas, colaborando assim para os aspectos positivos. Mas foi por meio de Patty que a trama encontrou o seu maior feito: impulsiva, egoísta, instável, revoltada, insegura e cheia de culpas e arrependimentos para carregar. Muito diferente do que aparentava (da personagem sendo usada para favorecer a dita polêmica), a série explorou todos os limites (dos insanos aos extremos) para mostrar o quanto a impulsividade da revolta a leva por caminhos que abalam-na cada vez mais.

Talvez o que mais vivifique “Insatiable” é perceber o quanto se arrisca sem ligar para como o resultado irá parecer. Ao chegarmos na reta final da série e compararmos com seu piloto estranho, perceberemos que acompanhamos uma jornada inesperada e desajeitada, visto que o show se inclinou a falar de tantas coisas, das maneiras mais mirabolantes possível.

insatiable
Nonnie (Kimmy Shields), a melhor amiga de Patty.

Se encaixando como mais uma aposta de comédia para a Netflix, “Insatiable” provou ser uma empreitada hesitante que ora acerta, ora erra, ora soube engatar, ora perdeu o ritmo, ora fez rir, ora forçou o humor e depois de passar numa prova de fogo, ousou em deixar um gancho para um possível retorno. Para quem quer assistir uma série sem compromisso sabendo que não vai achar a queridinha do momento e terá tendência a se incomodar com as piadas escrotas, a ideia até que vale uma mordida.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.