Resenha | Infiltrado Na Klan (2018) – razoabilidade, ódio e fatalismo

Em 1979, o policial Ron Stallworth (John David Washington) notou um anúncio curioso nos jornais de Colorado Springs. A ideia do classificado era convocar membros novos para a Ku Klux Klan da cidade norte-americana. Ao ver um número de telefone, o agente, que foi o primeiro negro na polícia da cidade, deve ter pensado “por que não?” e, ao telefonar, atuando como um típico supremacista branco, marcou um encontro com os membros da KKK e, ao longo do tempo, tornou-se o primeiro e (imagino) único negro membro do grupo de ódio. Stallworth falava com os membros da organização por telefone e, nas reuniões do grupo, o agente Flip Zimmerman (Adam Driver) era enviado para gravar e produzir material contra a Klan. A investigação “infiltrado” na Klan durou nove meses.

Resultado de imagem para infiltrado na klan poster

Título: Infiltrado na Klan (“BlacKkKlansman”)

Diretor: Spike Lee

Ano: 2018

Pipocas: 9,5/10

O caso, que realmente aconteceu, foi mantido em segrego até 2006 e em 2014 se tornou um livro que em 2018 foi adaptado para o cinema por Spike Lee, que optou por contar a história de Stallworth desde sua entrada na polícia até o desenrolar da operação na KKK. Naturalmente, ódio racial é o tema principal do roteiro, abordando desde as dificuldades que Ron encontrou ao chegar no departamento de polícia – vale lembrar que estamos nos EUA dos anos 70, que tinham acabado de assinar a Lei dos Direitos Civis que proibiam a segregação racial no país . Além disso, existe espaço para falar de identidade cultural e religiosa, brevemente abordada através de Flip, que, em suas palavras, dizia nunca ter pensado profundamente sobre sua origem judaica, mas que, ao longo da operação, vê-se refletindo sobre assuntos que até então não lhe importavam. Zimmerman é praticamente ficcional já que a identidade real do parceiro de Stallworth na operação nunca foi revelado.

Resultado de imagem para infiltrado na klan

No meio disso, ainda existe um espaço metalinguístico em que o filme faz referências à própria história do cinema. A princípio, temos Ron e sua namorada Patrice Dumas (Laura Harrier), uma universitária ativista radical do movimento negro em Colorado Springs, discutindo sobre os principais ícones negros da cultura pop até então e sobre as mensagens dessas representações. Num momento à frente, após a cerimônia ritualística da Klan, o grupo se reúne para assistir “O Nascimento de uma Nação” (Birth of Nation, 1915), um filme mudo, baseado em romance e peça cujo nome original era  “The Clansman”, que representa, em poucas palavras, os negros como os grandes inimigos sociais e políticos dos brancos, e estes como heróis lutando para a manutenção da ordem e de valores nobres. O filme chegou a ser banido em vários lugares pelo racismo ao mostrar os homens negros como animais irracionais e estupradores além de ficcionalizar a ação da Ku Kux Klan de maneira heroica.

klan
Poster de “O Nascimento de uma Nação”

Contudo, talvez a grande sacada do filme seja abordar de maneira prática o desafio que é ser razoável enfrentando situações absurdas. Ao longo de “Infiltrado na Klan”, Ron engana Patrice para que ela não saiba que ele é policial, pois, graças à sua experiência, a moça vê na polícia, enquanto instituição, um símbolo de opressão e injustiça, o que até 1964 tinha, inclusive, legitimidade estatal. Nesse caso, Ron passa a conhecer por dentro um sistema que é preconceituoso e massacrante, mas o usa para aproximar-se do principal grupo de ódio racial do país para combatê-lo de dentro.

O personagem entende que a sua própria existência e ações podem provocar mudanças indeléveis na sociedade. Patrice, por outro lado, não consegue crer que o que Ron esteja fazendo seja possível ou tenha algum resultado prático. Nesse caso, a cultura do ódio cria uma espécie de fatalismo que impossibilita mudanças, levando cada grupo a odiar seus algozes e agir contra os mesmos, seja como um mecanismo de ataque visando uma suposta preservação de pureza de raça, ou como tática de defesa contra séculos de escravidão, tortura, massacres e monstruosas mazelas absolutamente injustificáveis e irreparáveis. O que o Ron personagem parece nos mostrar é que ações radicais para minar os grupos de ódio se fazem necessárias e elas precisam ir além de defesas que protejam os agredidos sem exterminar a organização dos agressores ou aquilo que os motiva.

infiltrado na Klan

 

Talvez, um único “ponto baixo” do filme seja o fato de ele ter sido propagandeado como uma espécie de comédia nos trailers. Embora o humor seja parte da história de alguma forma e existam algumas piadas aqui e ali, a comédia está longe de ser o trilho desse trem como foi sugerido. E se esse era o objetivo, podemos constatar uma falha em algum nível.

Spike Lee soltou esse filme em um momento, infelizmente, muito oportuno e evidentemente não há coincidências nisso. Durante “Infiltrado na Klan”, existem relatos biográficos em tom documental sobre o histórico de violência racial nos Estados Unidos, além das terríveis imagens das passeatas neo-nazistas em Charlottesville e atentados às manifestações do movimento Black Lives Matter, que buscam questionar e trazer visibilidade para casos de abuso do poder policial motivados por racismo entre outras disparidades no tratamento da comunidade afro-americana.

Mais do que contar uma inusitada estória, “Infiltrado na Klan” deve evocar discussões que podem mudar a história.


 

The following two tabs change content below.