Resenha: Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017): maior, melhor e mais louco (sem spoilers)

-Vocês só gritam um com o outro! Vocês não são amigos.

-Não… Somos família.

guardiões da galáxia 2

Título: Guardiões da Galáxia Vol. 2 (“Guardians of the Galaxy Vol. 2)

Diretor: James Gunn

Ano: 2017

Pipocas: 9/10

Quando “Guardiões da Galáxia” surgiu de dentre as estrelas, em 2014, com sua árvore falante e seu guaxinim abusado, ninguém dava a mínima para o filme – ele era, no máximo, uma suspeita positiva. Mas muito aconteceu nos últimos três anos, e diversas listas colocam o filme entre os melhores da Marvel. Agora, em 2017, o desafio do diretor James Gunn era repetir seu sucesso estrondoso sem a vantagem do elemento surpresa. E adivinhem, muchachos: ele conseguiu. De novo.

guardiões da galáxia vol. 2

“Guardiões da Galáxia Vol. 2” se passa poucos meses depois do filme anterior, e agora a equipe atravessa o espaço cumprindo suas missões em troca de pagamento, contando com o prestígio que acumularam depois de salvar a galáxia das mãos de Ronan, o Acusador. Após um pequeno… Desvio por parte de Rocket (voz de Bradley Cooper), os Guardiões se veem em uma treta cósmica e, em sua fuga, se deparam com um pedaço crucial do passado de Peter Quill (Chris Pratt, “Jurassic World“). Será assim que, um a um, os Guardiões precisarão enfrentar os demônios que têm assombrado suas relações familiares.

E assim como um bom filme dos anos 80, é sobre isso que “Guardiões da Galáxia Vol. 2” trata: nossas complicadas e confusas dinâmicas familiares. Quando vemos Peter ter um relacionamento paternal bizarro com Yondu (Michael Rooker, “The Walking Dead“) ou a maneira como todos precisam cuidar do fofo Bebê Groot (com voz de Vin Diesel), podemos ver nossas próprias relações espelhadas; não importa que os membros sejam azuis ou um broto de árvore: relacionamentos familiares são uma linguagem universal, e nós a falamos com fluência – principalmente se estes forem disfuncionais.

guardiões da galáxia vol. 2

A partir daí, tudo funciona com maestria. Sob o comando do diretor, James Gunn, outra trilha sonora fabulosa costura um filme visualmente lindo. As explosões multicoloridas já vistas em trailers e imagens promocionais do filme estão ali, e tudo parece acender com microviagens de LSD. Todas as sequências são vivas e mantêm o espectador dentro e interessado no filme – mesmo o 3D, geralmente inútil, é bem utilizado e vale seu ingresso mais caro, numa exceção à regra da indústria atual.

guardiões da galáxia vol. 2

Quando os efeitos não estão carregando o filme, os atores, já em casa em seus papeis, o fazem. A Gamora de Zoe Saldana continua sendo o referencial lógico na equipe, e a personalidade de Chris Pratt se mistura com a do Senhor das Estrelas. No entanto, nem a chegada da novata Mantis (Pom Klementieff) e o maior destaque à Nebulosa (Karen Gillan, de “Doctor Who”) conseguem nos distrair de o quanto Dave Bautista está fantástico como Drax, o Destruidor. Estar com os Guardiões mudou radicalmente o personagem, libertando seu lado divertido, sua sinceridade desconcertante e seu jeito tresloucado.

O mesmo pode ser dito de “Guardiões da Galáxia Vol. 2” como um todo: o filme está maior em escala, melhor em seu conteúdo e muito, muito mais louco. As poucas aventuras da equipe no filme demonstraram como o universo que eles exploram, nos levando com eles, é imenso em tamanho e possibilidades; é perceptível como daria para fazer uma franquia de cinema baseando-se só na mitologia dos Guardiões. Unindo isso às sequências mais psicodélicas do filme, vemos como James Gunn tem pleno controle do seu filme, permitindo com que ele chegue perigosamente próximo ao limite da auto-paródia e voltando em tempo de deixá-lo muito divertido.

guardiões da galáxia vol. 2

Dentro desse embrulho incrível temos mais conteúdo do que no filme anterior. Sendo uma história de introdução, o primeiro volume da saga dos Guardiões focava em apresentar os personagens, que aqui já estão consolidados. Assim, o roteiro de Gunn se preocupa a dar dimensão à temática familiar, em suas diversas vertentes, e o faz com muita competência. Vemos relacionamento entre irmãos, pais biológicos e adotivos e até a chegada da adolescência, tudo de forma bem trabalhada, em um filme de pouco mais de duas horas com uma cacetada de personagens e arcos próprios.

Isso é fantástico porque, desde sua formação, é exatamente isso que os Guardiões representam uns pros outros: são uma família – torta, disfuncional e irritante, muitas vezes, mas uma família. Vemos as dinâmicas se desenvolverem em arcos menores dentro da imagem maior: os Guardiões, com seus vegetais falantes, roedores armados e tons de pele anômalos, somos nós. Nossas falhas, nossas limitações e nossa proporcional vontade de funcionar bem em família: está tudo ali, projetado nestes herois cósmicos de um quadrinho (anteriormente) obscuro.

guardiões da galáxia vol. 2

A soma dessas partes faz com que “Guardiões da Galáxia Vol. 2” seja um filme muito carismático, leve, mas ainda com conteúdo. Para todas as idades, a continuação do filme favorito da minha mãe agradou a ela, assim como agradou a mim e ao menino de dez anos que o pai levou na pré-estreia. E talvez seja essa a maior conquista de Gunn e seus Guardiões: falar sobre família para todos os membros de qualquer família, independente de quão fora do padrão eles ou ela possam parecer.

E, só cá entre nós, caso nada disso te convença, só tenho duas palavras para você: Groot Bebê.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.