Resenha | Frozen 2 (2020): um passo para a mudança, um passo para se conhecer

Sequências. Ou acrescentam, ou superam, e por último, podem ser desnecessárias. É um baita desafio voltarem para o universo pensado para ser único, trazer o precioso elenco que deu charme para a desenvoltura, mas no final ter um êxito avulso por uma investida desesperada de uma continuação é um balde de água fria. Lançado em novembro de 2013 nos circuitos americanos, “Frozen: Uma Aventura Congelante” conseguiu encantar e envolver rapidamente o público com seu carisma e peso com uma animação musical. Seis anos depois, Elsa e Anna estão de volta para outra empreitada gelada, felizmente obtendo o feito de ser maior que a antecessora. So, let’s go.

Título: Frozen 2 (“Frozen II”)
Ano: 2019
Direção: Chris Buck, Jennifer Lee
Pipocas: 7,5/10

Sem dúvidas, a ideia de um segundo filme sobre a história baseada no conto A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen sempre nos atraiu. De onde vieram os poderes de Elsa? Por que Olaf não derrete logo? E nas inusitadas teorias, um fã até sugeriu se as irmãs protagonistas não eram irmãs de Tarzan, pensando que o rei e a rainha de Arendelle não morreram no naufrágio, mas nadaram até chegar numa ilha ― o que aproxima do prólogo de Tarzan (1999). Em suma, inspirar-se em lacunas deixadas por Frozen foi o que moldou o novo projeto, preparando-o para finalmente ser assistido nas telonas.

Através do passado poderemos entender o presente?

De volta à infância, é como adentramos em Frozen 2. Num flashback, os pais, que outrora participaram rapidamente da trama, trazem agora uma história antiga para o conhecimento das duas irmãs em que nos leva a explorar o que foi mostrado anteriormente: de onde os reis de Arendelle conheciam as criaturas mágicas da floresta, o que sabiam dos poderes de Elsa (Idina Menzel), ou para onde estavam indo na noite em que faleceram. Todos esses questionamentos super se encaixam como base do que o filme vai seguir, só não teve a mesma firmeza para se aplicar com a linha atual do longa. Seis anos após os eventos do predecessor, Elsa tem um novo horizonte para seguir com ajuda dos queridos amigos, e principalmente sua irmã (Kristen Bell).

Para então se desfazer do amor à primeira vista, o roteiro de Aventura Congelante se propôs a satirizar e questionar o típico pivô das comédias românticas e conto de fadas desde os primeiros quinze minutos do filme, ou seja, uma das principais discussões foi inserida de prontidão e levada até o fim, já o que faz com que Elsa busque por respostas é estabelecido com rapidez, fazendo a narrativa cair em pontos convenientes na forma com que as resoluções são exprimidas.

“Não podem vir, não podem ver, sempre a boa menina deve ser. Encobrir, não sentir, nunca saberão, mas agora vão”. Poder se desprender e deixar de esconder que podia manipular o gelo e a neve, foi só o primeiro passo da trajetória da rainha Elsa. Saber a origem do que se tornou, é a dúvida que bate à porta, a incomoda e reprime. Enquanto o filme esbanja e brilha com um visual impecável da animação — é de encher os olhos os caprichos com as cores, e o cenário que acompanha tal trajetória —, a direção de Chris e Jennifer se desenrola por um roteiro genérico, seguindo a fórmula de que algo ruim deve acontecer para chacoalhar a suposta paz que os personagens vivenciam.

Felizmente, apesar do texto comum e preguiçoso para a sequência de uma animação que deu continuidade às princesas independentes, Frozen 2 mostra um caminho de mudança e evolução para a história de Elsa e Anna. Aqui temos músicas mais maduras e pontuais na narrativa, o mesmo serve para personagens como Olaf (Josh Gad) que finalmente recebeu uma nuvem de relevância, ainda que para alívio cômico: visto o processo de amadurecer, e com ares de uma pegada mais adulta, as falas do boneco de gelo refletem um pouco sobre as emoções que é ir rumo ao desconhecido; o crescer, o experimentar das coisas novas.

Dentro disso, a força que a cumplicidade entre Anna e Elsa carrega, assim como a busca individual de cada uma, superam o fraco roteiro. Duas irmãs, com personalidades e habilidades distintas se protegendo como podem é algo louvável de seguir. De um jeito conflitante, para então vivenciar a mudança, requer trilhar uma linha espinhosa, com surpresas e decepções para assim encontrar o que vem depois. Se na primeira barreira para a transformação foi necessário romper a repressão e ter um lugar para pertencer, aqui vem a descoberta para a voz interior e autoconhecimento em tal ambiente que agora persiste. Só depende de você!

O desfecho por essa busca se deu de maneira magnífica, bela e inesperada. Se “Livre Estou” teve o poder de ser tão chiclete e significativa para o público, a animação conseguiu ir mais além para agarrar a audiência. 

No mais, Frozen 2 esbarrou em escolhas repetidas para levar ao comovente, ao mesmo tempo, pintou um gancho que seria curioso de conferir num possível terceiro filme, que no caso precisaria voltar para a criatividade do roteiro e não se apoiar somente em números musicais certeiros e repletos de magia para se sustentar.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.