Resenha | Ferrugem (2018) – um mal que nos corrói

Quer queira, quer não, com o passar do tempo e com as mudanças nas plataformas e aplicativos online, tivemos nossos comportamentos mudados. Se no Orkut ficávamos na expectativa para saber quem visitou nossos perfis, curtidas no Instagram e a capacidade de dizer qualquer coisa no Twitter (ainda que o usuário não seja tão popular) tendem a ser algo muito valioso hoje. No meio de tantas redes sociais que interagimos, o compartilhamento é uma ferramenta proveitosa, porém perigosa.

Título: Ferrugem (“Rust”)

Direção: Aly Muritiba

Ano: 2018

Pipocas: 9,5/10

Desde as notícias falsas no Facebook, até o print simples no Instagram combinado com emojis e descrições que popularizam, o compartilhamento movimenta e contagia as muitas páginas e seus seguidores. Não muito diferente dessas redes sociais, o popular aplicativo de mensagens WhatsApp é também um grande incentivador do compartilhamento, o problema é quando os itens encaminhados, de um jeito impensado e sem considerar a veracidade, se tornam uma arma de negatividades, consequências de atos inconsequentes.

Por mais que isso seja um fato, ainda insistimos em registrar quase tudo (se não tudo) sobre nossas vidas. Sem falar como perdemos tempo, deixando de aproveitar outras atividades, para visitarmos perfis nas redes sociais, rir de memes, postar frases humorísticas de algo bobo ou outros hábitos que temos como curtir fotos, marcar os amigos nas postagens etc. Nesse espaço, muitas publicações se tornam gatilhos para o desconforto de pessoas que não conseguem interpretar uma imagem dentre as várias que veem. Diante de tantos pontos negativos e positivos, essa é a Internet, um mal que nos corrói, mas que não desgrudamos.

“Ferrugem” é mais um magnifico filme do cinema nacional que se propôs a destrinchar mais sobre os males da Internet. Vencedor na categoria de “Melhor Filme” no Festival de Cinema de Gramado, o longa apresentou Tati (Tiffanny Dopke), que como a maioria dos adolescentes, gosta de publicar fotos nas redes socais. Numa festa de encerramento com alguns colegas de escola, ela acaba perdendo o smartphone, até que, no dia seguinte, Tati descobre que teve um vídeo íntimo divulgado no grupo de WhatsApp de sua turma.

A narrativa dividida em duas partes é focada em explorar as consequências do vídeo compartilhado sobre Tati, e o tortuoso caminho que é a Internet. Tudo isso de um jeito completamente chocante, imprevisível e que conduz a reflexão. Vale acrescentar que a pessoa responsável pelo vazamento é exposta desde o primeiro momento, e de maneira nenhuma Aly Muritiba subestimou o telespectador com falsas reviravoltas. O diretor investiu em aspectos das personalidades dos personagens para que entendamos que nossas escolhas têm efeitos, pois assim como a ferrugem consome o ferro, nossas escolhas nos corrompem.

Voltado a ser crítico sobre a Internet, Aly não poupou tempo para denunciar o quanto estamos conectados, e embora seja comum utilizá-los, somos reféns de nossos smartphones. Com um estilo atraente e uma fotografia escurecida, mas de cores vivas e vibrantes, o diretor induziu o espectador a se envolver na interação dos personagens com os celulares durante a atividade da escola. Talvez alguma cena tenha sido engraçada e harmoniosa, mas ali mesmo se fazia um retrato honesto de como a Internet nos consome. Assim como muitos, os alunos registravam fotos do espaço em que se encontravam, mas o professor solta um “prestem atenção que isso aqui é importante, e depois vão para a Internet pesquisar a mesma coisa que estou falando” (um soco para as fotos que tiramos do quadro em sala, entupimos as galerias, mas nem lembramos mais tarde sobre o que foi).

Partindo para os efeitos do vazamento do vídeo, “Ferrugem” mostra as proporções que a situação tomou. O bullying, cyberbullyng, revenge porn são alguns dos tópicos sociais que vemos Tati enfrentar. Além dessas reações nocivas, o pior é perceber como as pessoas de fato se comportam: sem se importarem, colaborando com atitudes que deixam a vítima cada vez mais envergonhada e desamparada.

Tiffanny Dopke como Tati e Geovanni De Lorenzi como Renet, respectivamente.

Enquanto as pessoas persistem no egoísmo e acreditando que deixar de reproduzir a zoeira não mudaria o fato do vídeo existir, Tati sofre mais, sem poder reagir às dimensões que a sua privacidade vazada tomou. Chega a ser avassalador perceber que uma vez na Internet, o caminho não tem volta. Foi como se tudo tivesse chegado de mansinho esperando para surpreender Tati com um golpe baixo; e Aly tratou de deixar isso bem claro ao mostrar a moça como uma adolescente comum que fazia coisas comuns, mas teve sua vida devastada de uma hora para outra por conta de um simples descuido.

A segunda parte ainda explora as consequências do vídeo vazado, mas se foca em passear sobre a vida da pessoa responsável. Nisso, fomos conduzidos a ver de perto a motivação. Certo que em parte já tínhamos uma presunção, “Ferrugem” ainda continha detalhes que precisavam ser dialogados e pensados: se por um lado a culpa falava, do outro ouvimos a desculpa covarde de que se a vítima não quisesse ter a intimidade exposta, antes não tivesse filmado. O que rende a reflexão de como somos rápidos para se esconder atrás de qualquer justificativa do que encarar as consequências de nossos atos.

ferrugem

Não parando por aí, Aly conseguiu inserir na narrativa o retrato de como somos pessoas de relacionamentos travados e quebrados, falhos na comunicação, saindo do ambiente da Internet e trazendo um retrato de uma família, esse grupo de pessoas tão importante que nos une. Se isso não basta, ainda vale o questionamento sobre até onde iríamos para proteger a quem amamos. É justo ir contra a justiça a fim de promover a isenção e impunidade sobre quem nos importamos?

“Ferrugem” é um drama nacional que trata com intensidade e melancolia a ferramenta perigosa que é a Internet; é como se fosse uma língua, que tanto elogia, adverte, crítica, informa e canta, quanto pode proferir palavras cruéis, destrutíveis e causadoras de efeitos irreparáveis. A misoginia, a solidão, a infelicidade, a insegurança, o desconforto, o desamparo e autoexposição nas redes sociais são algumas das diversas temáticas que permeiam o longa, que com muita maestria Aly Muritiba apresentou. De fato, não sabemos quando poderemos ser abalados ou quando causaremos isso a alguém, mas é possível refletir sobre as consequências de nossas atitudes.

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.