Resenha: Febre Vermelha (2016) e o Terror Brasileiro

Escrever sempre se provou algo bem complicado por uma miríade de fatores, a dificuldade de publicação não sendo o menor deles. No Brasil, a internet e projetos de financiamento coletivo vêm permitindo que obras diversas vejam a luz do dia, trazendo frescor e vigor à literatura nacional, tantas vezes acachapada pelo volume e renome de autores internacionais. Um exemplo disso é que, caso perguntássemos há dez, quinze anos atrás quais eram os autores brasileiros mais relevantes no gênero terror, não seriam muitos os nomes que surgiriam.

Aproveitando a visibilidade e possibilidades desta nova fase da literatura, autores conseguem se destacar com seus projetos e trazê-los à vida. “Febre Vermelha”, de Francis Graciotto, é um deles, e conseguiu com sua trama de zumbis passada no litoral paulista, trazer elementos novos ao nicho, mesmo que fique no básico e não se pretenda a reinventar a roda.

febre vermelha
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A trama se inicia em Praia Grande, onde um navio cargueiro  encalha, trazendo à bordo uma tripulação morta com brutalidade. Embora a notícia caia em ouvidos surdos inicialmente, não tarda para que uma estranha epidemia se espalhe na Baixada Santista. Vítimas começam a aparecer com olhos vermelhos, febres altíssimas e uma fome de carne humana. Enquanto o caos se assoma e o governo não consegue conter a infecção, um grupo de sobreviventes se une, com seus dramas e motivações próprios, para sobreviver em meio ao pandemônio que se instala.

Como é visível pela premissa, a novidade da proposta não vem da sua trama, mas pela sua ambientação. Estamos acostumados a feras comedoras de carne humana perambulando tanto por metrópoles quanto pelo interior, mas sempre nos Estados Unidos; recentemente, “Guerra Mundial Z” (2013) nos levou mundo afora, mas ainda com uma ambientação metropolitana e um estilo próprio estadunidense na sua narrativa.

Em “Febre Vermelha”, Graciotto acerta e falha exatamente na hora de escolher sua abordagem. Trazer a infecção zumbi para o Brasil já seria interessante, mas situá-la no litoral às vésperas da festa de Ano Novo traz um significado próprio para o brasileiro: sabemos como ficam nossas praias no Réveillon. Talvez o único momento e lugar mais terrível para um apocalipse zumbi começar seria na Marquês de Sapucaí durante o Carnaval, no Rio.

Ainda assim, a narrativa em si se apresenta de forma importada; os dramas e conflitos dos personagens trazem pouco da complexidade e dilemas que nós da Terra de Santa Cruz trazemos no nosso cotidiano. Os dilemas são universais – o interesse romântico, a proteção da família -, o que faz com que entendamos as motivações dos sobreviventes, mas, ao optar pela segurança do conhecido, o livro acaba por abrir mão de algo que poderia diferenciá-lo de outras obras tupiniquins que têm surgido na onda zumbi que tomou o mundo de assalto na última década.

No fim das contas, “Febre Vermelha” é um livro competente que cumpre o que se propõe a fazer a partir de sua premissa, com mortes sanguinolentas e pessoas compelidas a sobreviver a qualquer custo, falhando em se destacar como obra única como tinha potencial de fazer. Ainda assim, Graciotto é um autor promissor, que exibe em sua escrita o potencial de ousar e realmente ascender no gênero em trabalhos vindouros. Para saber mais sobre (e adquirir, claro) o livro, se sujando com alguns litros de sangue, nem precisa ir à Santos: só clicar aqui.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.