Resenha | Eu, Tonya (2018) – sua verdade não me serve (sem spoilers)

Há um ditado que já rodou o mundo e, para saber o dono original da citação na era da internet, o seu palpite é tão bom quanto o meu. Um dos que o registraram foi Robert Evans, produtor de “O Bebê de Rosemary” e outros filmes relevantes, ao dizer que “há sempre três lados em uma história: o meu, o seu e o verdadeiro. E nenhum deles está mentindo”. Em épocas de fake news, é difícil mencionar esse adágio sem um gosto laranja vir à boca; contudo, em “Eu, Tonya”, nós vemos o ditado ganhar vida em um ótimo filme, tão bem atuado quanto é dirigido.

eu, tonya

Título: Eu, Tonya (“I, Tonya“)

Diretor: Craig Gillespie

Ano: 2018

Pipocas: 9/10

Baseado em fatos, “Eu, Tonya” conta a história de Tonya Harding (Margot Robbie, de “Esquadrão Suicida“), uma garota que cresce no meio da patinação no gelo e posteriormente torna o esporte a sua vida. Sob as pesadas mãos, literal e figurativamente, de LaVona (Allison Janney, “Masters of Sex“), sua mãe opressora e agressiva, e de seu explosivo namorado Jeff Gillooly (Sebastian Stan, “Capitão América: Guerra Civil (2016)“), Tonya investe seus anos em se tornar a melhor patinadora do mundo, até que um incidente a coloca sob os holofotes de uma maneira diferente do que ela estava acostumada.

eu, tonya

A partir daí, é complicado definir o que é “Eu, Tonya”; colocá-lo dentro de um gênero específico pode ser uma atividade bem frustrante. O filme apresenta traços fortes de comédia dentro de uma estrutura dramática numa história que, de maneira objetiva, não tem nada de engraçada. “Eu, Tonya” acaba sendo divertido da mesma forma que “Fargo” o é: independente da desgraça que seja apresentada em tela, a inaptidão de todos os personagens envolvidos acrescenta absurdo à ofensa.

Essa incapacidade de exercer papeis, bem como a culpa que vem disso, é o tema que permeia todas as relações do filme. LaVona é uma das piores mães a serem retratadas em um filme, lançando mão de agressões verbais e físicas para destituir Tonya de qualquer amor próprio que a criança – inicialmente de 4 anos de idade – pudesse ter. A pressão e as agressões fazem com que Tonya se coloque permanentemente no papel de vítima, sendo incapaz de assumir responsabilidade pelos seus atos, e entrando em um relacionamento doentio com Jeff, o qual também a agride fisicamente. Tendo apanhado a vida toda, Tonya não sabe o que é amor sem punhos, e se submete às violências das pessoas que lhe são caras.

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Ou não – isso é o que Tonya afirma. Utilizando-se de falsas entrevistas – no estilo mockumentary, como em “Modern Family” – e fazendo com que o filme fale diretamente com o público ao quebrar a quarta parede, os personagens estão o tempo todo questionando as ações que se desdobram no filme, muitas vezes enquanto elas estão acontecendo. Isso gera um senso de estranhamento contínuo: se as personagens afirmam que aquilo jamais ocorreu, então o que eu estou assistindo?

A direção de Craig Gillespie (do remake de “A Hora do Espanto”) é um destaque nesses momentos, fazendo com que a transição entre a continuidade da história e suas quebras se deem de maneira o mais natural possível, trazendo o espectador ainda mais para dentro do filme enquanto questiona nossas definições de “verdade”. Quando se chega em um ponto no qual LaVona, Tonya e Jeff contam versões diferentes da mesma história, não resta muito ao público senão escolher o personagem que lhe parece mais carismático e abraçar sua narrativa – o que fazemos o tempo todo em nosso cotidiano, é claro, mesmo que nem sempre de forma tão clara como aqui.

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“Eu, Tonya” segue com esse jogo de espelhos durante toda a sua duração, conseguindo sustentação principalmente em suas atuações. A intensidade cruel da LaVona de Janney é balanceada pela entrega que Robbie faz de uma Tonya ao mesmo tempo cínica e inocente – ou talvez fingindo os dois, jamais saberemos. Sebastian Stan é digno de nota, principalmente por ter que trazer seu Jeff em um limiar tênue entre a calma inabalável e as explosões de agressividade absurdas que o personagem tem. Atuações excelentes que merecem – e já estão levando – seus prêmios.

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Allison Janney como LaVona Fay Golden.

Ou não? Em um momento da história no qual o presidente da maior potência do mundo trata fatos como boatos e mentiras como verdades, a escolha do que é a narrativa oficial é um tema que permeia nossas vidas de maneira mais grave do que o normal. Mesmo neste momento, durante o qual você lê este texto e deduz, a partir do que foi exposto, que o filme é bom, com destaque para o roteiro, direção e atuações, é necessário que se escolha a versão do que é um “filme bom”, pressupondo que alguém no mundo tem a capacidade de objetivamente separar todos os filmes entre ruins ou não. “Há sempre três lados em uma história: o meu, o seu e a verdade”, e “Eu, Tonya” é uma película excelente sobre todos os lados – e como todos eles são, sim, uma mentira, cada um em sua medida.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.